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Arlindo Lopes: idealismo e lucidez de um ator

                                                                      Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

O ator Arlindo Lopes tornou-se nacionalmente conhecido por atuar na premiada montagem de Ensina-me a Viver, na qual, ao lado da veterana Glória Menezes, mostrou seu raro talento.

A montagem do texto de Colin Higgins, com tradução de Millôr Fernandes e direção de João Falcão, estreada em 2007, recebeu extraordinária consagração de público e crítica, com mais de 700 mil espectadores em todo país e elogios de críticos como Bárbara Heliodora, que, alías, foi diretora da primeira peça em que Arlindo atuou profissionalmente, Um Homem Chamado Shakespeare, em 1999.

Arlindo é carioca, nascido no bairro da Penha, zona norte do Rio. Filho de pai português e mãe alagoana, sua paixão pelo teatro surgiu ainda na infância, ao assistir, com apenas sete anos, O Mágico de Oz, no Teatro João Caetano, cuja lembrança lhe é viva até hoje. 

Na escola onde fez os primeiros estudos, era oferecido um curso extra-curricular de teatro, que frequentou por algum tempo.  Aos 17 anos, apesar da resistência da família, com o agravante de ser filho único, ingressou no curso de teatro da Casa das Artes de Laranjeiras.  As tias portuguesas não cansaram de dar conselhos para seguir alguma carreira que pudesse lhe oferecer um futuro garantido, fosse ligada ao direito, à economia ou à medicina. Teatro, jamais, pois correria o risco, segundo elas, de não conseguir sobreviver.  Desobedecendo aos conselhos das tias, o jovem tímido matriculou-se no curso de teatro, juntamente com uma amiga. No entanto, no dia da primeira aula, a amiga não pôde ir e sem coragem para ir sozinho, deu uma desculpa à mãe e também faltou. No primeiro mês de aulas, sentando-se no final da sala, para não ser notado, alcançou seu intento, pois nos exercícios propostos pelos professores, os colegas nunca o abordavam. Pouco a pouco, entretanto, a timidez foi cedendo e sua familiaridade com o palco ficando cada vez maior.

Passou a freqüentar as salas de teatro da zona sul do Rio e a primeira grande emoção foi ver Paulo Autran fazendo Quadrante, a quem, ao final do espetáculo, cumprimentou e encantou-se com a gentileza e simplicidade. Logo depois, novos encantamentos com Fernanda Montenegro, em A Gaivota, de Tchekov, Andréa Beltrão, em A Prova, de David Auburn, Glória Menezes, em Jornada de um Poema, de Margaret Edson, e os Grupos Armazém, de Londrina, com o qual atuaria pouco depois, e Galpão, de Belo Horizonte, cuja trabalho classifica por “marcante e transformador”.

O jovem obstinado e idealista, que não dera ouvidos às preocupações das tias, teimando ser ator, deu passo decisivo quando, com pouco mais de 20 anos, resolveu comprar os direitos para montar no Brasil Ensina-me a Viver, que ainda menino assistira em vídeo e lhe tocara intensamente. Pouco depois, convenceu Glória Menezes a associar-se a ele na montagem, juntamente com sua querida amiga Maria Siman, com quem também produziu o lúdico musical infantil A Ver Estrelas, de João Falcão.

Participou de importantes montagens como Angels in América, Fausto Gastrômico, Laranja Mecânica, Marat-Sade e Alice Através do Espelho e nunca hesitou em dizer não a diretores em cujos projetos não acreditava, consciente de que um ator só se desenvolve fazendo bons papéis, com textos que se sustentem.

O reconhecimento pelas atuações maduras acabou por levá-lo à televisão e ao cinema. Fez duas novelas na TV Globo, Da Cor do Pecado e Sabor da Paixão, além de participar da minissérie Amazônia e dos seriados A Grande Família, A Diarista e Faça a Sua História.  E no cinema, a convite de Sandra Werneck e Walter Carvalho, fez Cazuza – o Tempo Não Pára.

A sensibilidade do garoto que cresceu sabendo observar e se espelhar nos grandes atores levou-o a uma amizade estreita com veterana atriz Lícia Magna, então com mais de 90 anos, com quem chegou a dividir o palco. As sete décadas de diferença de idade que o separavam de Lícia, nada significaram ao jovem sedento por ensinamentos profissionais e vivenciais,  que tão bem tem sabido aproveitar o aprendizado recolhido com os colegas mais velhos. Assim foi também com a saudosa Dirce Migliaccio, cujos últimos anos de vida acompanhou de perto, no Retiro dos Artistas. E sobretudo com Aracy Balabanian, a quem sempre se refere como “ mãe, irmã e amiga”, responsável, inclusive, por tê-lo apresentado a Maria Siman, sua grande companheira de buscas e ideais.

Costuma dizer que deveria ter nascido bem antes do que nasceu, nos tempos em que o Rio de Janeiro vivia um aflorar diuturno de talentos e criatividade, tempos de hegemonia da Rádio Nacional e seu elenco invejável.  Eis a razão da alegria por ter atuado no musical Cauby Cauby, que resgatou, através da figura do consagrado cantor,  um pouco daqueles idos em que a magia do rádio permeava os sonhos dos brasileiros.

*Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.