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Ana Bottosso: o espaço da dança

                                                  Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Bailarina, coreógrafa, professora de balé clássico e dança contemporânea, Ana Bottosso é formada em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) e em dança pela Royal Academy of Dance, de Londres. Fez cursos de especialização na França, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos e Israel. Atualmente dirige a Companhia de Danças de Diadema e o Projeto de Difusão e Acesso à Linguagem da Dança da mesma cidade, na grande São Paulo.

 
Como a dança surgiu em sua vida? 
Era muito pequena e gostava de ver alguns poucos programas de dança que passavam na TV. Morava no interior e os programas passavam na TV Cultura. Sempre muito chuviscadas as imagens, mas eu ficava grudada na tela para enxergar o máximo que pudesse. Entrei para as aulas de balé com seis para sete anos. Sou filha de uma pianista e professora de piano que, certo dia, introduziu em seu conservatório de música os cursos de dança também. Daí eu quis aprender e assim tudo começou.
 
 Correto dizer que o seu trabalho tem como referência a nova forma de dança criada pelo alemão Kurt Jooss, ou seja, o bale clássico com os elementos dramáticos do teatro? 
Sim, fui muito influenciada pela obra e estilo de Kurt Jooss. Inclusive, quando pequena, um dos balés que vi pela TV foi La Table Verte e fiquei emocionadíssima. Sabia que era aquilo que eu queria fazer.
 
Paranoia, espetáculo que você dirigiu em 2011 e ainda e cartaz, foi idealizado a partir do livro homônimo de Roberto Piva, um poeta da geração beat. Como ocorreu o encontro entre a literatura e a dança? Quais os desafios encontrados para traduzir a poesia de Piva em imagens corporais?
Neste caso foi assim: em 2007, tive o primeiro contato com o livro Paranoia, do Roberto Piva. Fiquei tocada pelo quanto sua poesia remetia a imagens e relações humanas e percebi que adoraria coreografá-la. Depois, fui ler um pouco mais de outros beatniks, como Kerouac e Bicelli. Passado o tempo, por volta de 2009, Piva, em um passeio de carro que estávamos fazendo, me presenteou com a nova edição do seu livro Paranóia e disse: "Ana, faça alguma coisa com isso" (rsrsrsrs). Foi exatamente assim. Bem, a partir de então, uniram-se minha vontade ao pedido do próprio poeta. Escrevi um projeto de criação para a coreografia Paranoia com a Companhia de Danças de Diadema e grupo musical GEM. Fomos aprovados no ProAC (Programa de Açao Cultural do Estado de SP) e Paranoia estreou em agosto de 2011.
 
Paranoia é o segundo trabalho seu onde há transposição do texto para o movimento corporal. O primeiro foi A ilha do José, a partir de um conto de Jose Saramago. Qual a razão da escolha deste conto? 

Além de A Ilha do José, o espetáculo Crendices... quem disse?, embora abordasse os ditos e crenças que conhecemos desde criança, também foi inspirado nas crenças que eu encontrei, muitas vezes escondidas, no romance A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Não se tratava de retratar a história deste romance, mas sim as crendices populares que eu via nele. A escolha do conto de Saramago para a criação de A Ilha do José se deu em conjunto com o elenco do grupo Danceato, um grupo de dança-teatro que surgiu a partir das oficinas de dança que acontecem em Diadema, ministradas pela Companhia Cristina Ávila. Uma das integrantes sugeriu o conto e todos lemos. Eu, particularmente, o li no café da manhã e fiquei chorando com sua beleza.

Os 60 minutos de duração de Paranoia nos fazem mergulhar na poesia de Piva, que sabia como ninguém captar o sentimento do homem urbano em seus desejos, paixões, ambição, angústia, enfim, o cotidiano complexo do homem contemporâneo. No espetáculo somos também embalados por uma sonoridade ousada e original do GEM (Grupo Experimental de Música). Em que momento houve o encontro com o GEM e como a música colabora cenicamente?
Eu já conhecia o grupo e já havia trabalhado com um de seus integrantes, o Luciano Sallun, em Crendices... quem disse? Quando pensei em Paranoia, desejei que um grupo com sonoridade bem ímpar, desconstruída e muito contemporânea quanto ao seu visual viesse compor nossa criação. Daí os convidei e a parceria começou. A música contribui muito para o espetáculo, até mesmo para que, em alguns momentos, escolhamos utilizar o silêncio, ou seja, a ausência de sonoridade. No caso do GEM , eles foram extremamente sensíveis e criativos aos meus pedidos. Mergulharam no universo do Paranoia, de Piva, e souberam como retratar não apenas o espaço urbano que encontramos nos poemas, mas também os espaços emocionais que habitam dentro de nós. Muitas vezes, a música inspirou cenas para o balé, como foi o caso da cena maquinamen, construída toda em cima dos sons de uma maquina de escrever.

 

O seu grupo, a Companhia de Dança de Diadema, completou 23 anos. No entanto, a dança não é o seu único propósito, pois ele tem uma preocupação sócio-cultural. Fale-nos um pouco sobre isso.
A Companhia de Dança de Diadema foi criada com esse duplo perfil, em 1995, pela bailarina Ivonice Satie, que foi sua diretora até o início de 2003. Uma ideia inovadora e até hoje única no Brasil, pois consiste em dar maior abrangência da linguagem da dança, levando-a às diversas camadas da sociedade. O mesmo profissional que sobe ao palco e faz turnês, também cria suas coreografias. É um artista orientador que ministra semanalmente aulas de dança de diferentes estilos na comunidade de Diadema. Não é um projeto com intuito profissionalizante, mas, sim, um meio de acesso aos ensinamentos da dança às crianças desde os sete anos até a melhor idade.

 

Qual é o papel do gênero masculino na dança? Por que razão o senso comum ainda o associa ao estereótipo da homossexualidade, fruto certamente de uma sociedade patriarcal tardia, onde os códigos insistem em consolidar um significado inferior à condição homossexual?
No século XVII, a figura masculina era quem se apresentava nos espetáculos intermináveis da corte de Luis XIV, o "Rei Sol". As mulheres não estavam autorizadas a dançar. Depois, quando a figura feminina apareceu no palco, no período do Romantismo, no fim do século XVIII e início do século XIX, o homem passou a ser uma figura secundária, servindo mais como suporte à bailarina. Com o passar dos séculos, isso se modificou. Sobretudo no início do século XX, a figura masculina, guiada por personagens que mudaram sua postura no cenário da dança, como Rudolf Nureyev, por exemplo, assumiu papel importante na dança.
Ao longo de minha experiência em dança, percebo que hoje, felizmente, o preconceito diante da figura masculina está mais reduzido.

Esteticamente como podemos pensar a dança no momento atual? Que espaço ela ocupa no cenário das artes no Brasil contemporâneo?
Há diversos estilos de dança desenvolvidos no Brasil. Mas a dança contemporânea tem espaço mais significativo. As companhias e grupos de dança, oficiais ou não, na sua maioria, são de dança contemporânea. Quando estive na Europa por uns tempos, na Alemanha, França, Bélgica e Holanda, pude notar que a dança contemporânea no Brasil era bem avançada. E acredito que há em nós, brasileiros, uma característica nata da dança em nossas veias. Movimentamo-nos com maior desenvoltura, algo mais espontâneo do que em alguns países. O que nos falta é apoio e incentivo maiores tanto por parte da sociedade como de programas com políticas culturais mais específicas a essa linguagem. A dança no Brasil ainda não tem o apoio que merece.

 

Pina Bausch disse certa vez: "Tento falar da vida. O que me interessa é a humanidade, as relações entre os seres humanos." Isto não parece dialogar intensamente com a obra de Roberto Piva e sua transposição para a dança?
Não só parece como dialoga. Pina Bausch, grande motivadora daqueles que enveredam pela dança-teatro, parece estar muito presente em minhas obras. É uma grande inspiradora para mim. Através da palavra escrita, Piva pode registrar suas impressões de uma São Paulo noturna, com suas personagens e histórias. Por meio do movimento, transposto dos poemas de Piva e suas impressões imagéticas, buscamos, no balé Paranoia, falar da vida, sem palavras escritas, porém, com palavras transcritas através de nossos corpos.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.