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Sergio Britto: lições de um ator incomum


                                                            Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos

Em 65 anos de carreira, Sergio Britto amealhou os mais importantes prêmios do teatro nacional, consolidando-se com um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1923, ainda jovem se formou em Medicina, mas a sedução pelos palcos falou mais alto, passando a integrar a Companhia Maria Della Costa, o Teatro Brasileiro de Comédia e o Teatro dos Sete, dentre outros grupos que marcaram a cena teatral brasileira ao longo do século XX.

A entrevista que segue nos foi concedida numa fria tarde de junho de 2009, quando o ator fazia em São Paulo a temporada de A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras nº1, pela qual recebeu o Prêmio Shell de Teatro.

Em 65 anos de carreira, que marca mais representativa acredita ter deixado?

Recebi da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) o prêmio Homenagem, pela carreira, que correspondia à temporada de 2007. Quando recebi este prêmio, eu lembro que argumentei assim: homenagem pela carreira, vejamos, sempre procurei os melhores textos, a preocupação na escolha nunca era conduzida pela imagem da grande bilheteria, pois continuo sempre chegando ao teatro duas horas antes do espetáculo.Só penso em teatro.Vou ao teatro muito, em todos os momentos livres de que disponho.É, eu acho que mereço essa homenagem sim.

Que autores e diretores mais contribuíram em sua formação como ator?

Fiz três Shakespeare, de início Romeu e Julieta e Hamlet e bem mais , Rei Lear. Dirigi Tchekov (Tio Vânia). Participei de Jardim das Cerejeiras (Teatro dos 4, 1991) e com orgulho, recordo A Gaivota,  com direção de Jorge Lavelli, o melhor Tchekov já feito no Brasil. Importaram em minha carreira e muito: Gianni Ratto, o nosso mentor principal noTeatro Maria Della Costa e  diretor do Teatro dos 7 (elenco com Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Italo Rossi) e mais Amir Haddad, Gerald Thomas ( com quem fiz 4 Vezes Beckett e Quartett (Heiner Miller), Eduardo Tolentino (Outono Inverno, de Lars Noren) e Isabel Cavalcanti, que me dirigiu em meu mais recente espetáculo, com duas peças de Samuel Beckett: A Ultima Gravação de Krapp e Ato sem palavras nº 1.      

Quando se deu o seu primeiro contato com a obra de Beckett e o que o leva a afirmar tratar-se do “grande autor da solidão humana, o maior escritor do século XX”?

Eu não sabia nada de Beckett. Ninguém sabia nada sobre Beckett. Estávamos em 1970, eu acabara de me desligar de Fernanda e Fernando, estava voltando de São Paulo para o Rio, Fernanda me disse: “Monta um texto de Beckett e chama o Amir Haddad para dirigir. Foi assim o primeiro contato, com Fim de Jogo, que ele, Beckett, considera seu melhor texto. Amir fez comigo um Beckett profundérrimo, mas sem humor. Na continuidade da temporada, eu fui descobrindo o humor sinistro, a graça cáustica do irlandês e ai me apaixonei definitivamente por ele. Em 1985, Gerald Thomas dirigiu a mim e ao Rubens Corrêa em 4 Vezes Beckett e foi a verdadeira descoberta, a certeza de que era ele o maior nome do teatro contemporâneo, alguém ao lado de Shakespeare e Tchekov.    

Beckett foi um visionário ao prever, ainda na primeira metade do século XX, a coisificação do homem da chamada era tecnológica?

O que eu posso dizer? Sim, sim, sim, Beckett reinventou o homem, um homem sem ilusões, certo de que era apenas uma coisa sem saída, sem possibilidades, vivendo só por teimosia.

A Última Gravação de Krapp traz à tona com nitidez a dolorosa decrepitude e solidão da velhice. Sua trajetória, aos 86 anos, no entanto, desmente isso. É possível envelhecer bem?

Aos 86 anos, Beckett é que me dá força para permanecer vivo. Ele e Isabel Cavalcanti. A “mamãe” nova que surgiu na minha vida.

Como o resgate de suas próprias memórias contribuiu na construção do personagem Krapp?

Isabel me fez entrar em cena não como o ator Sérgio Britto, mas como Sérgio Britto: “Você não vai representar, você vai entrar inteiro, você já é Krapp, é só ouvir as gravações antigas de Krapp, lembrando as imagens da mãe, não uma mãe teatral, mas a sua própria mãe, e da pessoa que você abandonou, se arrependeu e amou até o fim não a pessoa descrita nas gravações de Krapp, mas sim a pessoa que você mais amou na vida e que apesar disso, você abandonou. Ouvir as gravações e sofrer essa memória, foi doido para burro, algo inesquecível na minha carreira, eu era uma reinvenção de mim mesmo.

É correto dizer, a partir do que Beckett enfatiza não só em Ato Sem Palavras, mas no conjunto de sua obra, que são inúteis as tentativas humanas em transcender à matéria mais bruta, pois estamos mesmo fadados ao vazio, ao inapreensível?

Não temos nenhuma saída. Martim Esslin, em seu O Teatro do Absurdo, diz numa frase o que importa mesmo: “O homem só vive de teimoso que é...não tem razão, não tem motivação, vive de teimoso”.

Aos que afirmam não ter o grande público interesse por temas mais densos, o sucesso de Beckett nas três montagens de que participou não é prova em sentido contrário?

Beckett ainda é difícil para o público. Claro que difícilimo em 1970 e, ainda em 1985. Beckett nesse novo milênio, no entanto, está mais próximo do público. Em 2009, em São Paulo, o público se aproxima mais do Beckett do Ato Sem Palavras, onde a ação corrosiva, a situação desesperada do homem sem possibilidade de agir, pois nem mesmo se matar ele consegue, faz o público rir e sofrer. É bem mais difícil A Última Gravação de Krapp, onde o texto ainda assusta a quem o ouve.

Em que o teatro, assim como o cinema e a televisão podem contribuir num contexto cultural ainda tão incipiente como o veiculado por nossa mídia?

É com prazer que vejo Beckett sendo feito no Brasil e tendo um público bastante bom. Ainda não é um “blockbuster”, mas começa a existir um público curioso por esse tal de Samuel Beckett. O caso é insistir.

Que novos projetos estão em pauta, após o fim da temporada com A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras?

Estou em contato com Eduardo Tolentino para realizarmos Recordar é Viver, de Hélio Sussekind de Mendonça, uma peça brasileira, uma comédia dramática que espero ser uma nova sacudidela na minha carreira de ator...velho, mas ainda vivo.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.