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Caio Porfírio Carneiro: o escritor e suas raízes
                                                                                       Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos


Romancista, contista, cronista, poeta e crítico literário com mais de três dezenas de livros publicados, em seis décadas de vida literária intensa,  Caio Porfírio Carneiro narra nesta entrevista um pouco de sua rica experiência no campo das letras, iniciada ainda na juventude, em sua Fortaleza natal.
Sua memória invejável, aliada ao talento extraordinário de contador de casos saborosos e ao fato de ter sido interlocutor de figuras legendárias de nossas letras, fazem com que ouvi-lo seja sempre imenso deleite, mas sobretudo uma aula informal de literatura e dos bastidores de nossas letras.


De onde a paixão pela leitura? Que autores constituíram a base de sua formação como leitor e, mais tarde, como escritor?

Meu pai foi um intelectual frustrado. Autodidata, lia muito, tinha boa biblioteca, relacionava-se com intelectuais da terra, Fortaleza , mas nunca publicou nada. Do lado da minha mãe, o meu avô era também muito letrado, parente próximo do escritor Adolfo Caminha. De sorte que me vi perto de livros, desde que abri os olhos para o mundo. Desde muito moço, fazia poesias de pé quebrado e crônicas. Lia tudo o que podia e, sem falsa modéstia, fui me destacando entre os que, da minha geração, se metiam com literatura. Terminei o colegial e arranjei emprego, como revisor de um jornal. Um dos redatores, o poeta Aluísio Medeiros, viu alguns contos meus que lhe mostrei e, com o apoio da diretoria do jornal, passou-me para a redação. Ficou mais fácil de me aproximar dos jovens escritores e começar a aparecer. Eu escrevia sem parar. Até quando deixei o jornal e entrei para a agência da Companhia de Aviação Panair do Brasil. Escrevia e guardava. E lia muito. Tudo. Até em francês, valendo-me do meu avô materno, que era bilíngue. Escrevi um romance, Roteiro de um Órfão, um amontoado de lutas e aventuras. Mas o que me atraía mesmo era o conto. Sentia-me meio à vontade escrevê-lo. Pois um dia, fiquei tuberculoso. Perdi emprego, tudo, até amigos, que fugiam de mim, com medo do contágio. Eu jogava razoavelmente bem xadrez. O mestre enxadrista Hélder Câmara visitava-me muito e jogava comigo. Escrevi, então, um conto, O Enxadrista, e por insistência dele mandei-o para o concurso de contos da revista A Cigarra, uma das maiores do país. Para surpresa minha e aplausos dos amigos, tirei o primeiro lugar. O conto foi publicado com destaque e ganhei o primeiro prêmio, de mil cruzeiros. Então, fui em frente. O conto O Enxadrista está incluído no meu livro A Última Viagem , que antecede Trapiá  e nunca foi publicado. Estou pensando em publicá-lo agora, em edição pequena, para distribuir aos amigos e eles verem como comecei nas letras.

O fato de ter nascido no Nordeste tem algum significado especial para sua trajetória de escritor?

Ninguém foge das suas raízes. Soma valores, adapta-se a novas realidades, evolui, mas a latência primeira, que são as suas raízes, está lá, fundo na alma e no coração, e disto ninguém foge, escritor ou não. Eis porque o poeta Manuel Bandeira afirmava: “O menino que não que não quer morrer/que não morrerá senão comigo.” É claro que o escritor, assim como o pintor, o músico, o artista, incorporam à sua vida outras sensibilidades, quando mudam de ambiente. Tenho muito mais tempo de vida em São Paulo do que no Ceará. Nem por isto houve uma transmutação total. Somam-se às minhas criações outros valores que estão até nas temáticas dos meus livros. Mas aquela luz notívaga, que nasceu comigo, ungida na minha terra, continua me piscando.
Tomem qualquer exemplo. Rachel de Queiroz tornou-se universal, mas nunca  perdeu de vista as sensações primeiras de nossa terra. Drummond, que viveu a maior parte de sua existência no Rio de Janeiro, nunca perdeu o seu pulsar mineiro. E os exemplos se sucederiam. Sou escritor porque nasci, para o bem ou para o mal, escritor. Esse estigma nasceu comigo. É levá-lo até o fim. Isto, creio eu, não depende do lugar onde nasci. Tivesse eu nascido em outro lugar, até numa caverna, minhas raízes seriam outras, mas seria escritor, preste o que eu escrevo ou não. Eu falaria ou escreveria horas sobre isto. Numa frase: o escritor, o pintor, o músico etc, são suas raízes e tudo o mais que a isto se somou.

Em que momento percebeu que era um escritor pronto para ser publicado. Como foi a publicação do seu primeiro livro?

Percebi que era um escritor, de fato, quando ganhei o concurso da revista A Cigarra. Escrevi uma série de contos e fiz um livro , A Última Viagem, que, já residindo em São Paulo, quase publico. A editora Saraiva quis fazer um acordo comigo. Se eu pagasse a metade do valor da edição, lançaria o livro. O meu irmão quis me dar o dinheiro. Eu, porém, sem conhecer ninguém das letras, fiquei na dúvida se receberia flores ou pedradas. E não publiquei o livro. Imaginei partir para outro. Bolei uma vila, de nome Trapiá, do sertão nordestino.  As tais raízes. E comecei a escrever uma série de contos, tendo como geografia essa região. Mas me comportei de outra maneira. Escreveria o conto e mandaria para um concurso literário. É a conta do mentiroso, mas é a pura verdade,  pois ganhei sete concursos. Quando ganhei o concurso de contos de Natal, do jornal Última Hora, do suplemente dirigido pelo Ricardo Ramos, filho do Graciliano Ramos, ele próprio me procurou. Então, tudo foi fácil. Ele prefaciou o meu livro, passei a conhecer vários escritores de nome feito. E o escritor Paulo Dantas, com o apoio do também escritor Jorge Medauar, incluíram-me na coleção Alvorada, da editora Francisco Alves, que só tinha cobra. O meu livro Trapiá foi lançado logo após o Laços de Família, da Clarice Lispector. A segunda orelha do livro dela anunciava o meu. Foi uma tiragem de três mil exemplares. Estourou. Já saíram cinco edições. Vários contos foram para antologias e alguns deles para o cinema universitário. Fui em frente e parti para O Sal da Terra. Não parei mais.

Você costuma mencionar a influência que teve de dois escritores modernistas que, como poucos, mergulharam no universo psicológico das personagens: Cornélio Pena e Lúcio Cardoso. O que destaca da obra de ambos?
    
Não foi bem influência, foi a surpresa. Eu admirava muito os escritores regionais. O próprio Lúcio Cardoso, no início da carreira, publicou dois livros nessa linha: Maleita e Salgueiro. De repente, ele aparece com A Luz no Subsolo, um universo ficcional completamente diferente. Uma mudança não só no campo psicológico das personagens, mas aquele drama surdo de desencontros inesperados, indo do amor ao ódio. Quase uma danação, no melhor sentido. Conflitos surdos, encontros, desencontros e repulsas. Uma roldana de sensação pulsantes, que se tornou, daí para frente, a linha literária dele. Isto me encantou, mas senti, ao mesmo tempo, que não era o meu caminho. Passei a ler tudo o que Lúcio publicava. O mesmo se deu com Cornélio Pena. O seu livro Fronteira foi para mim um impacto. Por uma razão específica: a presença da solidão. Uma solidão diferente, doída, com palavras mudas. Passei a ler tudo dele também e a admirá-lo.  Para traduzir melhor o que penso dos dois, vai trecho de um pequeno apanhado que escrevi sobre ambos, no meu livro Mesa de Bar:
Um e Outro
“Lúcio é instintivo. Cornélio é poético. Lúcio busca o entrechoque de ódios, a repulsa entre as personagens. Cornélio apenas expõe, com grande apuro no trato literário. Lúcio é o jogo lúcido de luz e sombra. Cornélio é essencial. Lúcio questiona conflitos. Cornélio constata. Lúcio vai às aflições humanas. Cornélio impassivelmente as capta. Lúcio é uma constante interpretação. Cornélio é um permanente tempo de espera. Em Lúcio as palavras são brilhantemente efervescentes. Em Cornélio as palavras são mudas. Há, entre um e outro, um traço de união na busca do cosmo interior. Em Lúcio há a perquirição. Em Cornélio a evidência. Então a distância entre os dois também é muito grande. São caminhos ricamente convergentes e tremendamente divergentes.
A arte não é mesmo uma loucura?”

De sua obra, hoje com mais de três dezenas de títulos publicados, algum deles lhe é mais caro por alguma razão especial?
Gosto de todos, como filhos que são da minha vivência literária. Mas destacaria dois, por motivos diferentes: Trapiá, porque foi a minha estreia e lá estão plantadas as minhas raízes, está o universo sertanejo da minha infância, da fazenda do meu avô paterno.Lá está “o menino que não quer morrer/que não morrerá senão comigo...”. O outro livro é Chuva - os Dez Cavaleiros. Um livro diferente, prefaciado pelo escritor Marcos Rey.  História de dez cavaleiros, cada um com uma destinação na vida e a realizar. Penso em reeditar esse livro. Até a linguagem narrativa é extremamente apurada. Fico nesses, para uma citação meio aleatória.

Pode nos falar de sua experiência como crítico do suplemento literário de O Estado de S.Paulo, entre os anos 60 e 70? Como vê a crítica literária de hoje em nossos periódicos?
    
Comecei a colaborar em O Estado de S.Paulo como contista, a convite do Mário da Silva Brito, que me apresentou ao Décio de Almeida Prado, responsável pelo suplemento. Um dia perguntou-me ele se eu faria algumas resenhas sobre livros enviados ao jornal. Concordei. Foram publicadas, pagas, e não parei mais. Tudo o que era publicado no suplemento, o resenhista ou crítico, era remunerado. Fiz dezenas de críticas de livros dos mais diversos gêneros. Quando o suplemento passou para as mãos do Nilo Scalzo, conservou-me ele entre os colaboradores permanentes. Não havia vínculo empregatício, claro. E não comentávamos livros de amigos. Podia até acontecer. Mas os livros eram entregues pelo jornal. Comentei até livros de escritor de nomeada. O espaço disponível para cada resenha era bem razoável. Não me lembro mais quantas linhas, mas dava para criticar à vontade. O suplemento era grande, de muitas páginas, quase um jornal. Amigos me pediam para comentar seus livros. Eu respondia:  tudo bem, mas só publicando em outro jornal, porque para o Estadão só os livros que a direção do jornal me dá. Depois, o suplemento mudou de feição e dispensou muitos resenhistas. Passei a comentar livros para o suplemento do jornal A Gazeta, dirigido pelo poeta Judas Isgorogota. Enquanto ele dirigiu o suplemento, semanalmente saía uma crítica minha. Foi uma experiência maravilhosa. Guardo todos esses comentários. Quem sabe reúna um dia em livro. Mas tudo mudou muito. Hoje praticamente não existem mais tais suplementos na grande imprensa. Sugiram as publicações alternativas, que existem até mimeografadas. E há alguns bons suplementos regionais, com mais espaço para entrevistas do que para crítica verdadeira. E também a internet, que fulgura com muita coisa boa. Aquela crítica minuciosa, detalhista, praticamente desapareceu. O Wilson Martins me dizia: “Caio, somos os últimos mastodontes. Isto vai mudar.” Tinha razão. Tudo se pulverizou muito.

É sabido que tem em Machado de Assis seu mestre maior. O que mais lhe chama atenção no gênio machadiano?
     
Tudo. Machado se enquadra bem naquilo que apontava Lukacs: “Ser simples sem ser fácil”. Só uma comparação: Coelho Neto enche meia dúzia de páginas para descrever o Campo de Santana, no Rio. Machado, que também o descreve, valeu-se de meia dúzia de linhas e disse mais do que Coelho Neto. É o grande escritor dos meios- tons. E através dos meios-tons, traz a relevo todas as emoções humanas. É uma das minhas leituras de cabeceira. Dizer mais o quê?

Apesar do histórico descaso institucional de nosso país com o escritor, ainda vale a pena o mergulho na escrita? Como vê as políticas para o incremento da leitura?

Não vejo praticamente nada. Exerci a secretaria administrativa da União Brasileira de Escritores de São Paulo por 48 anos. Teria muito a dizer. Faria um tratado. O descaso é grande. Ainda aparece uma luzinha aqui, acolá. Uma ajudazinha aqui, acolá. Mas não há uma norma definitiva. Há uma burocracia enorme. E não culpo diretamente nenhum governo. Isto está inserido na própria evolução cultural do país. Tenho tanta coisa a dizer que não sei nem por onde começar. Veja o há de divulgação cultural nos meios de comunicação, as televisões em especial. Políticas para o incremento da leitura? Onde? É uma coisinha aqui, outra acolá. Não dá para me estender aqui. Eu citaria um monte de exemplos negativos e algumas coisinhas pontuais positivas. Em síntese: pouco se fez e se faz pela cultura. Quanto a mergulhar na escrita, isto é o destino de qualquer escritor. E nada o matará, desde as belezas rupestres. Um exemplo apenas, a peça Hamlet, de Shakespeare, foi encenada um milhão de vezes. E sempre que é lida, deseja-se levá-la novamente ao palco, porque a arte escrita dá sugestões infinitas. Outro exemplo:  escrevi, na faculdade, um trabalho longo sobre a peste negra, que avassalou a Europa no século XIV. Li, depois, as poucas páginas que Boccaccio escreveu sobre ela, porque a viveu e não a contraiu. E penso que a conhecia bem. Pois as poucas páginas de Boccaccio sobre essa peste tirou-me o sono depois de quase setecentos anos. A arte escrita, ao lado das demais, acompanhará a caminhada do homem na Terra, enquanto ele existir. Creio que é mais ou menos por aí.

Você conviveu e foi amigo de alguns dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. Desse convívio e amizade, o que pode nos contar?

Publiquei um livro, Perfis de Memoráveis, onde traço o perfil de 60 nomes importantes das nossas letras. Como os vi de perto e como me relacionei com eles. Olhando apenas o lado humano de cada um. Fiz isto porque, lendo um livro sobre José de Alencar descobri, só então, que era um tipo brigão, orgulhoso, altaneiro. Pois esse homem sentou-se e escreveu um livro poético e doce, Iracema. Eu disse comigo: “Meu Deus, o homem é um, o escritor é outro”. O Mário Quintana tinha um humor inigualável. O quanto se perdeu do outro lado de escritores notáveis que já se foram. Todos nós temos um lado humano que não vem a relevo nos livros. Estou pensando, se der tempo, em trazer ao vivo uma segunda série. Convivi com tanta gente. E  aprendi, de vida vivida, com todos eles. Não fiz crítica, porque todos temos nossos defeitos.  Retratei como os via e retratarei outros se puder, como afirmei. Lembrei-me agora que perguntei ao Érico Veríssimo como pôde ele escrever O Tempo e o Vento, uma obra de mais de mil páginas, que percorre 200 anos da vida gaúcha. Ele me respondeu: “Foi fácil.” Admirei-me: “Mas fácil como?” Ele me bateu no ombro e exclamou: “Nem me pergunte.” Era um tigre. Tenho saudade de todos eles, que se foram e deixaram o seu testemunho de arte escrita. Quanto aos vivos, são amigos do coração.

Em seis décadas de intensa vida literária, algum balanço a fazer?
      
Continuarei nessa sina até que a magra me leve, para melhor ou para pior. Não sei. Não saberia viver de outra maneira. O que não quer dizer que faço da literatura uma obsessão. O quê! Vivo a vida. Sou são-paulino e sofro quando o meu time perde. Adoro uma roda de amigos e solto piadas, algumas delas, bem, você sabe...(rs). É por ai.         

 

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo(USP), professor e jornalista.   Itamar Santos é mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.