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 Caio Franzolin: o teatro da memória e das tradições populares


                                         Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Formado em Artes Cênicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), fundador, ao lado de Caio Marinho, Gabriel Kuster, Juliana Oliveira e Paula Praia do grupo teatral A Próxima Companhia, cujo eixo central tem se pautado pelas questões sócio-políticas contemporâneas, a memória e as tradições populares, Caio Franzolin está em cartaz em São Paulo com o espetáculo Enquanto Chão, que com rara sensibilidade revela a força e a beleza das festas populares do Brasil central.

Quando a descoberta do teatro?
Posso dizer que o teatro não teve uma descoberta para mim. Tenho a impressão que foram momentos de descobertas e entendimentos do que seria o teatro e isso ainda acontece hoje em dia. A primeira descoberta veio como brincar de um jeito diferente. Era criança e uma das possibilidades era de ser outros, representar, fingir que era monstro, vilão, herói, astronauta. Além disso, brincadeiras em família com minha irmã, dublando músicas, estavam no pacote. Acredito que boa parte das crianças da minha geração fez isso. Sempre achava curioso e gostoso quando aconteciam apresentações em datas comemorativas na escola, um clima festivo preenchia o espaço, uma mistura de tensão, responsabilidade e prazer em mostrar algo. Veio então a notícia de que iam fazer uma peça de teatro, na pequena escola em que eu estudava. Eu estava na primeira série e logo fui falar com a moça da secretaria que gostaria de fazer. Fui feliz para os encontros e ganhei um papel interessantíssimo, o de árvore na Chapeuzinho Vermelho (rs). Não sabia ler direito, mas nos ensaios fui decorando as outras falas, ouvindo os demais. Na véspera da grande apresentação, a moça da secretaria veio falar comigo, pois era ela quem estava dirigindo a peça. Me avisou que o menino mais velho que iria fazer o Lobo Mau ficou doente e que ela havia pensado que eu poderia fazer esse papel. Aquilo me deixou maravilhado, eu iria dar tudo de mim. Minha mãe correu para conseguir uma roupa de Lobo Mau. Arranjou uma daquelas de pelúcia, que era muito maior do que eu, mas que com ajustes improvisados deu certo. Foi tudo ótimo, com muitas improvisações e adaptações. Fizemos duas sessões da peça. Na escola seguinte em que estudei, tinha teatro, mas poucas vagas e só participavam aqueles que se inscreviam e eram sorteados. Não consegui de imediato, mas no ano seguinte. Com o passar do tempo, fui entendendo que isso poderia ser uma profissão, ainda que com muito receio e sendo sempre bem vigiado para não cair nesta vida que, de acordo com os outros, traria muita dificuldade. Cultivei secretamente uma espécie de sonho ou objetivo de trabalhar com teatro. Consegui um trabalho que me permitia pagar um curso de teatro. Fiz profissionalizante de atuação e no decorrer do curso pude descobrir a pesquisa artística, o trabalho coletivo do teatro com suas dificuldades e delícias, o quanto que o teatro nos proporciona e solicita um processo contínuo de formação e aprimoramento. Depois tive a descoberta do grupo teatral, da diversidade de linguagens dentro do teatro, dos modos de produção. Era onde me sentia mais estimulado e instigado. No último trabalho que fiz e estreou no final de 2017, intitulado Enquanto Chão, foram tantas outras descobertas e dúvidas. Estive em um processo solo em que queria investigar a autonomia do ator na criação, entender como que minha vivência e pesquisas se faziam teatro.  A cada momento vejo que ainda estou a entender e me encontrar. E que venham tantas outras descobertas!

Considera que os cursos de teatro têm formado bons profissionais?
Eu pude vivenciar três tipos diferentes de formação teatral: ensino técnico, universitário e de grupo. Foi justamente esta hibridização que me formou da maneira que sou, crio e realizo profissionalmente no teatro. Penso que os bons profissionais saem de diversos lugares, avalio que, no meu caso, tenha nisso uma questão de dedicação pessoal, oportunidades, escolhas e um pouco de sorte. Mas, me atendo à questão, penso que os cursos de teatro que frequentei formam bons profissionais e sei que existem tantos outros cursos interessantes, pois tive contato trabalhando com pessoas que passaram por eles e tendo a ver um perfil desenhado nas pessoas que passam pela formação de diferentes escolas. A totalidade eu não consigo saber, pois estou falando de São Paulo. Existe uma profusão de cursos de teatro que garantem DRT (registro profissional) em pouco tempo, mas o que penso é na qualidade do ensino e o que é o ensino. Existe uma carência de humanidade e sobra a individualidade. A maioria das pessoas que faz as escolas de teatro não conclui os cursos, são grandemente cooptados pela ilusão da fama, das celebridades televisivas e está aí o que os move na busca pelas escolas, principalmente técnicas, o que me causa tristeza e angústia. Esses estudantes de teatro são atraídos pelo culto à imagem.  Como para fazer um curso técnico de teatro é necessário ao menos estar no ensino médio, quem opta por uma escola técnica traz consigo uma formação ou formatação que nos dias de hoje vem de um sistema que exalta o tecnicismo, o individualismo e o mérito próprio, com ferramentas como alienação, opressão e desigualdade. Ser ator de televisão, cantor ou jogador de futebol, infelizmente, surgem como uma imagem de seres bem-sucedidos que conseguem ter uma qualidade de vida superior, que tem uma vida de sonho. Mas, na realidade, são poucos os casos em que isso ocorre. As escolas técnicas particulares recebem muitos alunos sem a menor noção do que seja ser ator e se alimentam disso, pois isso significa lucro. Por sua vez, os profissionais que dão aula nessas escolas e são comprometidos com o ensino do teatro, têm muito trabalho em desconstruir tais fantasias. Por isso, muitas pessoas iniciam cursos de teatro e não os concluem. Apenas pequena parcela entende a escola como um modo de se aproximar do fazer teatral e se move para além das facilidades, à procura de aprimoramento e novas experiências. Acredito que em todo processo pedagógico existe uma figura fundamental que é o educador, aquele que desperta o interesse, a vontade de saber, o diálogo, instaurando a dúvida. Para mim, isso faz toda a diferença. É aquela história de lembrar dos mestres apaixonados por ensinar e que te ensinaram algo que você leva para sua vida.

Pode nos contar um pouco sobre o período em que integrou o Clã – Estúdio de Artes Cômicas?
Ingressei no Clã – Estúdio das Artes Cômicas por volta de 2008, após ter me aproximado do pensamento de formação artística que Cida Almeida desenvolve em sua trajetória e que consiste na formação do artista a partir da linguagem das máscaras teatrais, da comédia popular e do circo. Isso é uma base fundamental para o meu trabalho e para as criações d’A Próxima Companhia. Digo que a Cida é minha mãe nas artes, ela é mãe de muitos artistas fabulosos, os irmãos e irmãs que tenho por aí. Por indicação de um querido professor e parceiro, Paco Abreu, e da também professora e amiga Simone Shuba, eu me encontrei com Cida e o Clã. Na época, eu estava terminando o curso técnico de atuação, trabalhava com produção gráfica e eles me chamaram para fazer a divulgação de uma série de cursos que iriam acontecer lá no Clã. Em troca, eu poderia fazer qualquer um dos cursos. Fiz o trabalho, mesmo sem conhecer direito o Clã e seus cursos. Na hora de decidir qual dos cursos eu iria fazer, optei por um que chamava Pedagogia das Máscaras, com Cida Almeida. Fui atraído pelo desejo de saber mais sobre as máscaras, com as quais havia tido contato em uma montagem no curso técnico e por conhecer pessoas novas como a Cida, de quem nunca havia ouvido falar, até então. Queria saber o que eram máscaras larvárias, expressivas, neutras e tinha uma vontade imensa de experimentar o palhaço. O curso era em módulos, mas seguia uma programação anual. Eu acompanhei do início ao fim, da máscara neutra à máscara do palhaço. Cida é uma pessoa muito generosa e uma mestra incrível. Acabei ficando por lá, em um grupo de estudos orientado por ela e frequentado pelos alunos que haviam acabado de fazer o curso e por outros filhos e filhas dela. Esse grupo tinha a proposta de aprofundar as questões da comicidade a partir do Manual Mínimo do Ator, de Dário Fo, articulando prática e teoria. Isso durou um ano. Surgiu um edital de montagem e nos mobilizamos para escrever o projeto, embora não soubéssemos como fazer essas coisas ainda, pois éramos todos muito jovens. No fim, o projeto não passou, mas apareceram outras tramas do destino e uma empresa se interessou em patrocinar o espetáculo. Nem acreditamos. Alguns colegas haviam deixado o grupo. No tempo que passei no Clã, criamos dois espetáculos, Água em 2011, e Reminiscor, em 2013. Circulamos muito, fizemos muitos processos pedagógicos, me entendi como educador, aprimorei meu trabalho com confecção de máscaras, desenvolvemos mais o pensamento formativo da Cida com as máscaras, experimentando o que chamamos de máscara da infância e máscara do Ancião, mudamos de sede, fomos mambembes, tivemos um espaço e até que criamos um núcleo independente que hoje é A Próxima Companhia. Tenho admiração e carinho muito forte por Cida. Foi um período em que pude me entender como artista-criador, partilhar uma criação intensa minha com ela e dela comigo. Construímos um diálogo maravilhoso e até hoje continuamos nos ajudando e nos apoiando. O entendimento do que era teatro de grupo, na prática, me foi desperto no Clã. Ali, eu e meus colegas, vimos e geramos a possibilidade de sobreviver de nosso trabalho artístico e de nossas realizações como fazedores e produtores. Seguindo a linha do Jacques Lecoq, Cida tem um olhar para a formação individual e parte disso para construir um coletivo que possibilite diversas frentes e não a cena pela cena.

E o período em que trabalhou com Cyro Del Nero, uma das maiores legendas, senão a maior, da cenografia brasileira no século XX?
Se falo que Cida Almeida é minha mãe nas artes, Cyro del Nero é meu pai, certamente. A junção dos dois universos me trouxe o popular com o erudito. Ambos partilhavam também de um ímpeto pedagógico que me constituiu muito. Fui trabalhar com Cyro muito ao acaso. Havia sido demitido de um trabalho em um escritório de comunicação e na época recebi um e-mail divulgando uma vaga no Studio Cyro del Nero. Me candidatei, fiz uma entrevista com ele em meio à sua grande biblioteca, maquetes e figurinos. Fiquei maravilhado com o espaço e curioso em entender quem ele era. Acabei não sendo selecionado por ele na ocasião, mas, um mês depois, recebi uma ligação pela manhã, que atendi com sono. Era o Cyro me chamando para ir trabalhar com ele. Me tornei assistente dele.O Studio e a casa dele eram no mesmo lugar e eu trabalhava em horário comercial, então, tínhamos almoços maravilhosos todos os dias, com muita conversa e histórias incríveis. Eu preparava as apresentações das aulas dele, digitalizando todas as imagens e colocando os textos, acompanhava também muitas de suas aulas de cenografia, moda, direção de arte, história da arte, estética. É um legado que me acompanha e do qual tenho muito orgulho e afeto. Eu acompanhava os projetos de cenografia dele, as conferências e encontros maravilhosos com muitas figuras incríveis como Mário Chamie, Álvaro Moya, Júlio Medaglia, Vida Alves, Juca de Oliveira, Zé Renato, Bibi Ferreira, Maria Célia Camargo, entre tantos outros. Nos momentos em que conseguia, pegava os livros da biblioteca dele para ler. Cyro dizia que a formação dele se deu passando longo período na sessão de artes da Biblioteca Mario de Andrade e eu posso dizer que a minha foi em seu estúdio e com suas conversas. Foi ele que me deu o livro Pedagogia da Autonomia, do Paulo Freire, e falou: “Leia, vai ser bom para você”. Aprendi muito tentando organizar seu acervo. Em suas mapotecas estavam registros de projetos, criações e realizações importantíssimos, que criavam um panorama da história do teatro em São Paulo, assim como da moda, da propaganda, da televisão e do cinema. Em todas essas áreas ele atuou e eu fui mergulhando nas imagens e anotações dele. Muitas vezes, queria saber de alguma história e ia perguntar para ele e passávamos tempo conversando sobre tal peça, época, pessoas, amizades, dificuldades, conselhos e sonhos. A vida dele era criar, inventar, encontrar respostas. Ele se dizia um dinossauro, que depois do Gianni Rato, só tinha sobrado ele neste mundo para contar as histórias da cenografia. Ele se foi e agora, nós, que ouvimos suas histórias, precisamos continuar essa caminhada. 

Como surgiu a ideia de fundar A Próxima Companhia?
A ideia veio de uma necessidade. Estávamos em um momento de busca de autonomia. Íamos precisar entregar o espaço ocupado pelo grupo e a Cida estava cansada de investir em espaços durante sua vida toda e ter que fechá-los. Nós, no auge da juventude, estávamos querendo criar espaços, ter atividades abertas, enfim, os interesses foram se distanciando. Havia vontade cada vez maior de sermos dirigidos por outras pessoas e que os processos criativos partissem do todo. Acredito que isso é justamente o reflexo da formação com a Cida, esse artista-criador que quer sua voz e espaço, quer ser propositor e realizador. Tínhamos pouco tempo para entregar o espaço em que estávamos e fomos atrás de uma nova sede. Estávamos em temporada no teatro Cacilda Becker, com nosso infantil Água, e aproveitamos para procurar algo ali por perto. Conseguimos alugar um pequeno galpão, da década de 1950, com lateral para uma vilinha de casas. O nome A Próxima Companhia só chegou seis meses depois de estarmos com esse núcleo egresso do Clã, eu, Caio Marinho, Gabriel Küster, Julia Pires e Juliana Praia. Dentro do Clã já havíamos experimentado processos de criação e direção em pequenos núcleos, um dirigindo o outro em intervenções e contações de histórias. Nesse período, os meninos do grupo resolveram começar a criação do que virou Os Tr3s Porcos, mas, a princípio, com direção coletiva de nós três, que estávamos em cena. Pouco depois, as meninas resolveram se debruçar em um processo sobre o feminino, que originou o espetáculo Quarança.

A memória, a cultura popular e os temas sociais e políticos têm sido a linha mestra dos espetáculos d’A Próxima Companhia. Que função tem o teatro na reflexão de assuntos tão emergenciais para nos constituirmos um país de cidadãos de verdade?
Acredito que este seja um ponto muito importante para se entender o teatro que fazemos e nossos anseios como artistas. A arte deve trazer questionamentos e reflexões, acredito que esta é uma das funções dos que fazem arte. Somos como catalisadores do nosso tempo, fazendo conexões com o passado e vislumbrando possibilidades de futuro. Por si só, a arte, a educação e outras atividades não dão conta de constituir cidadãos conscientes e responsáveis sozinhas, mas todas contribuem muito para isso. Dizem que todo teatro é político e eu acredito nisso, por mais engajado ou mais ingênuo que possa ser. Estar em cena nos coloca uma responsabilidade que não pode ser ignorada, no sentido de pensar não apenas a estética da obra, o treinamento ou a concepção. Não que esses aspectos não sejam importantes e fundamentais à linguagem, mas também existe o viés do entendimento do que se está fazendo, em que aquilo contribui e o que as pessoas que assistem a determinado trabalho vão poder refletir, a partir do que foi apresentado a elas. O que tentamos fazer é, ao menos, relativizar, tornar aquele assunto não apenas um ponto de vista, dialetizá-lo.

Qual o papel do circo em sua formação e em espetáculos de grande alcance d’A Próxima Companhia, como Os Tr3s Porcos e Água, assim como em eventos como ConstruSer e Recirco?
O circo é o berço de grandes artistas, é uma das artes que consegue alcançar maior número de pessoas em nosso país, por sua natureza nômade. Encontrei o circo nas acrobacias de solo, na relação que a Cida Almeida faz com a máscara do palhaço e nossa raiz popular do picadeiro. Do palhaço que transita entre o sublime e o deboche, que joga com o improviso do momento, que critica seu tempo. Acredito ser nesse lugar que o papel do circo faz sentido na minha trajetória. Os palhaços tradicionais são incríveis atores, pois trabalham a técnica, mas também a comunicação com o público. O legado das peças de circo-teatro é um universo fantástico e importantíssimo. A ideia de companhia circense, onde se tem uma família que viaja junto, que cria junto, que tem seus modos de compartilhar os saberes, é algo que tem uma relação direta com o teatro de grupo, inclusive com suas recentes mudanças e transformações. Para a criação do nosso espetáculo Água, utilizamos a referência das pantomimas aquáticas, um modo de fazer um grande espetáculo a partir da linguagem circense, da comédia física, articulando cenas em quadros, uma trilha musical que dialoga com a ação corporal dos palhaços em um cenário grande. Vem daí nossa admiração e respeito pelo circo n’A Próxima Companhia, o que gerou, além do Água, que foi criado em parceria com o Clã- Estúdio das Artes Cômicas, Os Tr3s Porcos, que trabalha o teatro de rua, a partir da interpretação dos palhaços e que acessa o público de uma forma mais próxima, direta, afetuosa e crítica. Em Os Tr3sPorcos quisemos experimentar como os palhaços se sairiam realizando um espetáculo em espaço aberto, jogando com as interferências urbanas, pois tínhamos muita experiência em realizar intervenções, de proporcionar encontros no cotidiano, a partir do palhaço no ambiente público. São exemplos disso o próprio ConstruSer e o Recirco, que você citou na pergunta. Eventos em que os palhaços dão a dinâmica, movimentam o público nas pequenas relações das intervenções e dos pequenos números até às grandes apresentações com a explosão circense. Isso é que me encanta nesse universo maravilhoso! Mas não posso deixar de falar de exemplos desse encanto, como Piolin, Torresmo e Pururuca, Carequinha, Chincharrão, Arrelia, Benjamin de Oliveira, Picolino, e tantas outras referências que contribuíram para essa arte e para minha construção com artista.

Enquanto Chão, espetáculo mais recente d’A Próxima Companhia, tem nas tradições religiosas do interior do Brasil seu eixo central. Como foi a experiência de se debruçar em tradições tão pouco valorizadas e conhecidas nos grandes centros urbanos do país?
Posso dizer que eu mesmo não tinha conhecimento de muitas manifestações que pude presenciar no processo de criação do espetáculo. Não temos ideia de como o Brasil é diverso, plural e pulsante em se tratando de cultura popular. Temos um traço que transpassa por todos os lugares, que é a nossa capacidade de diálogo entre o sagrado e profano, a partir da festa. A festa como local de encontro, de troca, de vida e celebração, mas também símbolo de resistência, de luta pela permanência do coletivo, da comunidade. Isso foi um pouco do que encontrei nas caminhadas e encontros com o povo do Canela, em Palmas, no Tocantins, e com o pessoal do Patrimônio, em Uberlândia, Minas Gerais. A dimensão pedagógica nas comunidades é muito presente. Encontrei na formação das pessoas o respeito pela valorização das histórias e conhecimentos dos mais velhos. Enquanto Chão me fez humano, me possibilitou encontrar a sinceridade do olhar nos olhos de outra pessoa, de ver o sorriso no olhar, ainda que numa condição humilde de existência. Me debrucei sobre a fé e ali entendi que somos bem mais do que a urbanidade nos coloca. Não valorizar as tradições é não entender a grandiosidade do nosso patrimônio imaterial, é apostar na massificação, na pasteurização do cidadão e promover o apagamento, buscar o progresso sem cuidar do outro, perpetuando os privilégios e a inversão dos valores humanos.

As leis de incentivo ao teatro têm cumprido sua missão? Algo a fazer para aprimorá-las e permitir que grupos teatrais sobrevivam com dignidade?
Acredito que as leis de incentivo ao teatro estão sendo gradativamente minadas, descaracterizadas e em processo de extinção. O que posso dizer é do ponto de vista de um trabalhador de teatro de grupo na cidade de São Paulo, a partir de minhas experiências e acompanhando o atual cenário que se coloca nas políticas públicas. Estamos vivendo um processo de subversão das leis, descumprimento de editais por gestões públicas, contingenciamento de verbas e má distribuição dos recursos. Quanto aos editais públicos de apoio ao teatro, nos últimos quinze anos estavam em exercício, nos âmbitos federal, estadual e municipal algumas leis e programas de seleção de projetos para montagem, circulação e/ou pesquisa, entre outros aspectos relativos à atividade teatral, como a própria manutenção de coletivos com trajetória continuada. Com a justificativa da crise econômica, esses modos de financiamento público foram sendo diminuídos na quantidade de projetos selecionados, nos recursos disponibilizados e deram margem também às interpretações equivocadas das leis, como no caso da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, Prêmio Zé Renato de Estímulo a Produção Teatral da Cidade de São Paulo, ProACs Editais, Prêmio Myrian Muniz, Editais de Ocupação de Equipamentos Públicos, entre outros. Quase em sua totalidade, as leis foram conquistas da classe teatral, por meio de muito esforço coletivo. Elas são etapas na construção de um sistema que compreende outros aspectos, como formação cultural, artística e de público, difusão das produções e apoio às produções independentes, o que viabilizaria o movimento e a rotatividade de grupos, projetos e etapas de criação, produção e circulação. Isso sem entramos nos mecanismos de patrocínio por incentivo fiscal, que é outra questão complicada, pois os recursos originários do pagamento de impostos ficam com as empresas, para que elas os destinem a projetos culturais que elas próprias avaliam, em geral, pela perspectiva do marketing e do potencial retorno para suas próprias marcas. Estamos tentando sobreviver, mas muitos coletivos estão fechando suas sedes, encerrando suas atividades, por não terem nenhuma perspectiva de sobrevivência com seu trabalho, que não é atrativo ao mercado, que não se coloca como uma mercadoria na barbárie atual. É um assunto bem complexo e que necessita de um amplo e urgente diálogo.


Novos projetos para 2018?
Este ano começou com ideias apontadas no ano passado e que parecem que vão se desdobrar em trabalhos muito potentes. Estamos cada vez mais envolvidos com a região em que se encontra a sede de nossa companhia, Campos Elíseos, Luz e seu entorno. E parece que disso nascerá nova criação. Após anos circulando com o espetáculo Água, partimos para nova criação infanto-juvenil, o que também mobiliza todo grupo. A ideia é que nossa sede amplie a programação e a frequência das atividades públicas e que possamos receber mais projetos, grupos e atividades. Outro projeto importantíssimo é conseguir levar Enquanto Chão para as pessoas das comunidades das quais ele trata.   
*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.