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André Caramuru Aubert e a escrita da memória


                                                                                         Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*


Historiador, editor, romancista, poeta e tradutor, André Caramuru Aubert , conforme bem acentuou Ruy Espinheira Filho, ao escrever sobre seu romance Cemitérios,  “possui aquilo que Guimarães Rosa achava indispensável na ficção: a metafísica. Isto não porque fala em vivos e mortos e mistérios do espírito – mas porque nos serve, em prosa rica e precisa, a condição humana.”
Ao tratar de sua poesia, presente em outubro/dezembro, o escritor mineiro Ronaldo Cagiano lucidamente salientou: “André Caramuru Aubert dispensa os arroubos formais e as piruetas estilísticas com que certos poetas incensados pela mídia e sacralizados por críticos de encomenda usam e abusam, fazendo mais figuração que poesia”.
Como jornalista, colaborou em O Estado de S.Paulo e no Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip, além de escrever para o jornal Rascunho.

Quando o despertar para o universo dos livros? Que leituras considera essenciais em sua formação?
De alguma forma,  eu sempre soube que queria ser escritor. Cresci cercado por livros e minha família sempre esteve envolvida com livros e arte. Tenho parentes escritores, alguns remotos, como Edward Lear e RodolpheTöpffer. E outros mais próximos, como a romancista Maria de Lourdes Teixeira e o poeta Gustavo Teixeira. Meu avô paterno foi editor e romancista na Suíça, meu padrasto era jornalista. Enfim, acho que o gosto por ler e escrever está no meu DNA.
São muitos os livros que me formaram. Aliás, concordo com Borges quando ele dizia que ler é mais importante do que escrever. Mas eu posso mencionar alguns autores fundamentais na minha vida. Numa primeira fase,  houve Saint-Exupéry e seus relatos do Correio Aéreo. Depois, Borges, Alejo Carpentier, Thomas Mann, Conrad, Nabokov (que tem um lado menos conhecido, mas maravilhoso, de poeta). Mais tarde, vieram Tolstói, Coetzee, Beckett, John Cheever, Saki, Mário de Andrade, José Geraldo Vieira, Pedro Nava. E, mais recentemente, Natsume Soseki, Sebald, Bolaño e Thomas Bernhard. Mas sempre li muita não-ficção também, afinal , formação é de historiador e aí entram na lista Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado, Michel Foucault, Pierre Clastres, George Steiner, Hobsbawm, Braudel. Procurei ler todos os cronistas que vieram para o Brasil, de Hans Staden a Richard Burton.E os poetas...

E o desejo de escrever, em que momento da vida se manifestou?
Desde pequeno. E com uns vinte anos eu tinha mais de duzentos contos e um romance na gaveta. Mas eu acredito que maturidade é importante. Não só literária, mas de vida mesmo. Para escrever,  é preciso viver. E isso leva anos, não é? Aqueles trabalhos mais antigos permaneceram na gaveta. E é lá que devem ficar.

Em A vida nas montanhas, seu primeiro romance, temos três personagens centrais, de diferentes gerações e concepções de mundo, trazendo à tona suas angústias existenciais.  O que o levou a construir a narrativa a partir de personagens aparentemente tão díspares e a abordar o integralismo?
O integralismo é um tema que estudei bastante enquanto historiador. Li tudo que Plínio Salgado escreveu (tudo, não: A vida de Jesus me venceu, não consegui). Conheci a viúva dele, um doce de pessoa. Uma das coisas que me chamou a atenção, sempre, foi o contraste entre a dimensão do movimento, na década de 30, e o quanto, depois, ele foi esquecido. Ou mais do que esquecido: escondido no armário. Praticamente toda família brasileira de classe média teve um integralista em casa. Com quase todo o mundo um pouco mais velho com quem converso, vem logo a história, “ah, meu avô foi integralista”, ou “eu tive um tio que foi integralista”. E por que a negação posterior? Pela identificação do movimento com os fascismos europeus derrotados na II Guerra, especialmente o nazismo alemão, que teve seus crimes hediondos exaustivamente expostos depois de 1945. De repente, coisas que até há pouco pareciam tão louváveis, como marchar uniformizado pela rua, levantar o braço para o chefe e gritar “anauê!”, se tornaram motivo de vergonha. O que eu quis fazer foi expor as contradições de cada tempo, mostrando que podia haver integralistas que não foram monstros, que eram seres humanos, que podiam ser boas pessoas mas, ainda assim, fizeram opções equivocadas. Ora, D. Hélder Câmara foi integralista. Assim como o foram Vinícius de Moraes, Luís da Câmara Cascudo, José Lins do Rego e muitas outras pessoas dignas que, mais tarde, criticaram suas escolhas da juventude. Enfim, eu quis construir uma trama em que personagens de três gerações, com visões de mundo diferentes, de alguma maneira se relacionaram e interagiram, cada qual com suas possibilidades e limitações, com suas qualidades e defeitos. No livro não há monstros e não há santos.

A partir de uma obra considerada essencial para se entender nossa gênese como povo, o ensaio Retrato do Brasil, de Paulo Prado, você constrói “A cultura dos sambaquis”, seu segundo romance, numa busca intensa para descobrir a identidade da geração pós-64, na qual se inclui. Algum traço de autobiografia?
Como dizia James Salter, outro autor que adoro, não existe boa obra de ficção que não seja, em alguma medida, autobiográfica. Há muitas passagens autobiográficas em A cultura dos sambaquis. Mas não é uma obra autobiográfica. Eu não fui aluno de Paulo Duarte (de quem ouvi falar, pois foi amigo da família, mas quando eu era muito pequeno). Eu não fui arqueólogo, não escavei sambaquis (embora tenha feito cursos de arqueologia durante a faculdade). E eu pude acompanhar, mais ou menos de perto, a volta da democracia ao Brasil. Conheci pessoas que atuaram seriamente, que foram torturadas, que correram riscos reais (eu era novo demais para ter uma atuação direta) e presenciei alguns fatos, lá no comecinho da abertura, que, olhando retrospectivamente, eram o início de problemas que estamos vivendo tão tristemente hoje. Então, enfim, há, de fato, elementos autobiográficos em A cultura dos sambaquis. Mas o livro não é, está longe de ser, uma autobiografia.

Só uma estranha luz como pensamento , construído em forma de diário, é, sobretudo, um dramático mergulho do narrador nos subterrâneos da memória.  Será a memória o elemento mais perturbador que arregimenta nossa caminhada?
Você menciona agora um ponto extremamente sensível para mim. Praticamente tudo o que eu escrevo, em poesia e prosa, gira, de alguma forma, em torno do tema da memória. Da memória e de seu antípoda, o esquecimento. Esse tema, ou antes, essa dualidade entre lembrar e esquecer, me fascina desde criança e está em todos os meus livros, ora de maneira mais explícita, ora menos. Desde pequeno,  eu gosto de ruínas e de cemitérios, mas não se trata de um gosto mórbido. São a memória e o esquecimento que me atraem. Eu não sei se, como você diz, “a memória é o elemento mais perturbador a arregimentar a nossa caminhada”. Penso que para muita gente ela não tem importância alguma, ou, se tem, é de natureza apenas anedótica. Talvez pessoas que não liguem muito para a memória sejam mais felizes, pois contra a memória enfrenta-se uma luta em que estamos condenados, no fim das contas, a perder. Seja porque esqueceremos, seja porque seremos esquecidos. Para mim, feliz ou infelizmente, porém, a memória tem um peso gigantesco.
Finalmente, creio que você tem razão. De todos os livros que escrevi, em nenhum a questão da memória aparece de maneira tão forte quanto em Estranha luz.

 Ao comentar Cemitérios, o escritor Ruy Espinheira Filho destaca sua metafísica latente.  Estaremos fadados ao nada, se não contemplarmos a ideia de transcendência?
Acho que sim. Sem transcendência o mundo é plano, é pobre. Uma das definições de transcendência é a revelação pelo divino. Ou seja, sai-se do meramente visível e vai-se a algum outro lugar. E não há, é claro, uma única maneira de se buscar isso. Há os que buscarão transcender por intermédio de alguma forma de espiritualidade ou de vida alternativa. Ou praticando surfe. Ou alpinismo. Ou fazendo sei lá mais o quê. No meu caso, só a arte funciona.E, dentro da arte, a literatura.

Na dedicatória e na escrita de Cemitérios encontramos a presença de três escritores de rara densidade na prosa brasileira do século XX, Cyro dos Anjos, Cornélio Penna e José Geraldo Vieira.  O que dizer sobre eles e o esquecimento das novas gerações em torno da obra que deixaram?
Viu só? Voltamos ao tema da memória e do esquecimento. Em Cemitérios,  houve um desejo explícito de homenagear estes três gigantes da nossa literatura, esquecidos, penso, por causa da nossa indigência intelectual, uma vez que os três, especialmente José Geraldo e Cornélio Penna, são autores difíceis, com uma densidade narrativa e de vocabulário que assustarão leitores em busca de simples diversão.
O que dizer às novas gerações? Ora, algo que dá mais trabalho também traz, no fim das contas, mais prazer. Nabokov dizia não acreditar em um romance que não levasse o leitor, mais de uma vez, ao dicionário e à enciclopédia. E que um bom romancista precisava ser, ao mesmo tempo, um professor, um contador de histórias e um mago. Estes três autores reúnem tudo isso. Como não amá-los?

outubro/dezembro, sua incursão na poesia, fez com que o poeta Alberto Bresciani o associasse a William Carlos Williams, haja vista o despojamento da linguagem.  Como foi para o prosador enveredar pela linguagem poética? A figura da avó inglesa, também poeta, significou alguma influência?
A poesiae a prosa estão comigo, juntas, desde sempre. Na verdade, eu não as encaro como campos distintos. Se fossem artes-plásticas, seria como a diferença entre aquarela e óleo. Poesia e prosa precisam, ambas, ter lirismo, dialogar com outras obras e tempos, surpreender o leitor, tentar transformá-lo, levando-o a sair, de um poema ou de um romance, diferente do que entrou. Todos os meus romances, em maior ou menor grau, fazem uso da poesia.
Quanto a Williams, devo confessar que aprendi a gostar de poesia lendo os americanos. Ele, Wallace Stevens e Edgar Alan Poe foram os meus Drummond, Bandeira e Cecília Meireles. O que diferencia a poesia norte-americana da brasileira? Bem, isso é assunto para uma tese ou para um congresso, não caberia aqui. Muito, mas muito resumidamente e com o risco de levar muita bordoada, eu diria que esse “despojamento da linguagem” significa que os americanos olham mais para o que está do lado de lá da janela, enquanto os brasileiros tendem a olhar mais para o papel. Enquanto a poesia americana tende a ser mais narrativa, a brasileira se  concentra nas palavras. Não é à toa que, enquanto éramos influenciados pelos formalistas russos e fizemos a poesia concreta, os americanos liam os chineses clássicos e buscavam a beleza que há nas árvores do jardim no outono ou numa mulher com o carrinho de bebê em frente a um banco. Mas não implica juízo de valor. Há infinitas maneiras de se abordar o poético. Não há uma melhor que outra. Mas há, é natural, as escolhas de cada um, as preferências. E eu tenho as minhas.
Não conheci minha avó inglesa, que morreu logo após a 2ª Guerra, depois de ter passado todo o conflito servindo como voluntária na Cruz Vermelha. Mas tenho uma grande admiração por ela e penso que ela foi uma das pessoas que compuseram a parte do meu DNA que gosta de literatura.

O trabalho como tradutor e editor complementam de alguma maneira o de escritor?
Completamente. São fundamentais. O trabalho de editor me obriga e estar atento para as coisas novas, a olhar com atenção para o que está acontecendo por aí, a sair, enfim, da zona de conforto. Pois seria muito mais fácil ficar quieto, no meu canto, com os livros e autores de que gosto.  E traduzir me faz aprender muito. É muito diferente ler um poema e traduzir um poema. Quando leio um poema que seleciono para traduzir, eu vejo aspectos dele que, é óbvio, me atraem, tanto que decido traduzir. Mas, invariavelmente, quando eu me debruço sobre aquele poema, buscando caminhos para uma conversão razoável para o português, surgem novas camadas, novos significados, novas cores. O poema original cresce. E eu cresço.

Algum balanço a fazer sobre a produção literária contemporânea e sua divulgação?
A questão do mercado editorial é seríssima, trágica. E a culpa não é da crise. Nem do governo. Penso que ocorre, hoje, um equívoco enorme. As editoras só pensam em lucro. Parece correto, afinal elas são empresas e empresas precisam lucrar. Mas acho que a coisa é mais sutil. Se você está em busca de um negócio, não seja editor. Monte uma rede de restaurantes fast-food, fabrique sapatos, abra um banco. O editor precisa ser um louco, um visionário, deve abrir caminhos. O Brasil teve editores fantásticos. Penso em José Olympio, em Monteiro Lobato, em Augusto Frederico Schmidt, em Ênio Silveira, em Caio Graco...Todos eles publicavam livros que vendiam bem, é claro, mas faziam isso para poder bancar as edições dos livros dos quais gostavam. Lançaram Graciliano, José Lins do Rego, José Geraldo Vieira, Jorge Amado, tantos autores. Gente que não era celebridade no começo, que vendia pouco.E onde estão os visionários do passado? Foram obrigados a se refugiar nas editoras independentes.E fazem o que podem, produzem livros bonitos, lançam autores, arriscam. Mas não têm poder de fogo para divulgar, distribuir e vender adequadamente. Ao mesmo tempo, o espaço para a literatura nos grandes jornais vem minguando ano a ano e resta aos autores tentar ver seus trabalhos comentados em blogs e nas redes sociais. Ok, são mídias novas e importantes, mas, para o livro, é pouco.
Finalmente, penso que há muita gente boa escrevendo aqui no Brasil. Quem afirma que o romance e a poesia estão mortos está falando uma bobagem descomunal. Mas eu não gostaria de citar nomes, porque invariavelmente deixarei de lado coisas muito boas. 

Pode nos antecipar os novos projetos?
Estou com um segundo livro de poemas pronto. Sairá pela Patuá, creio que em agosto. E tenho dois romances em gestação. Na verdade, um deles está, teoricamente,terminado. Eu o comecei em 2007, mas como não fiquei inteiramente satisfeito com o resultado, ainda deverei reescrever muitos pedaços, cortar outros. Não creio que consiga publicá-lo este ano. Neste caso, o narrador é um historiador que estuda um personagem importante (mas um pouco esquecido, claro) do processo de independência do Brasil. E as histórias, angústias e reflexões dos dois personagens, narrador e narrado, se entremeiam ao longo da trama.
E há o segundo romance, que está mais redondo, estruturalmente resolvido na minha cabeça, mas só as primeiras vinte páginas estão escritas. Ele ainda vai me dar muito trabalho, pois requer muita pesquisa histórica e literária, muita tradução de poesia. E parte disso ainda está por fazer.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.