meiotom  poesia & prosa

e-mail: meiotom@uol.com.br

 

   meiotom.blog                                                 ENTREVISTA

 

ESPECIAL

 André Carneiro

 Eunice Arruda

 Leminski

 J. Cardias

 Jorge Cooper

 Poesia Cubana

 Poema Libai

POESIA

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 POESIA VISUAL

 Almandrade

 Carlos Pessoa Rosa

 Clemente Padín

 F. Aguiar

 G. Debreix

 Hugo Pontes

 José L. Campal

 J.M.Calleja

 Rafael Marin

 Poe-Zine

 Marcos Rosa

 Avelino Araujo

 Thierry Tillier

 FOTOGRAFIA

 Andrea Angelucci

 F. Pillegi

 Euclides Sandoval

 TITE

 GONDIM

ARTES PLÁSTICAS

 Lúcia Rosa

 Felipe Stefani

 Maria Domênica

 Lampros

 DIVERSOS

 Concursos

 Resultados concursos

 Resenhas

 Estatística

Célia Gouvêa e a dança como necessidade de contínuo movimento


                                                        Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*


Formada pela École Mudra, de Bruxelas, criação do legendário Maurice Béjart, Célia Gouvêa comemorou, em 2015, 50 anos de carreira. Fundadora, ao lado do marido, o ator e diretor Maurice Vaneau, do Teatro de Dança Galpão, importante marco de nossa dança, é criadora de quase uma centena de coreografias e detentora de importantes prêmios, como Governador do Estado, APCA, Apetesp e Funarte.
Licenciada em Filosofia, conclui, atualmente, doutorado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo.
Em agosto último, lançou um vídeo, no qual ensina sua Técnica de Dança Célia Gouvêa, baseada no que define como Técnica Orgânica, que propõe menos gasto de energia muscular e uma movimentação mais fluida na dança.

Quando o despertar para o universo da dança?
Não vou reproduzir a Isadora Duncan, que teria começado a dançar dentro da barriga de sua mãe, segundo ela, mas aprendi com a antroposofia que o primeiro filho é o pensamento; o segundo o coração e o terceiro o movimento. Fui a terceira filha, pode ser que venha daí a necessidade de contínuo movimento, daí a dança. O aprendizado formal iniciei aos nove anos, em Campinas.

O que significou o período de formação no Mudra e ter tido por mestre uma figura legendária como Maurice Béjart?
O Béjart, com quem me relacionei, não foi o coreógrafo do Ballet du XXe siècle, mas o diretor do Mudra ou Centro Europeu de Aperfeiçoamento e Pesquisa dos Intérpretes do Espetáculo, que ele fundou com o propósito de realizar outra coisa, algo novo, por meio de uma linguagem multidisciplinar que eu denomino interlinguagens, que me constituiu e, como um farol, apontou direções. Fiz parte da primeira turma, com gente como a Maguy Marin e a Juliana Carneiro da Cunha.

Nos anos 1970, você e seu marido, o diretor e ator Maurice Vaneau, fundaram o Teatro de Dança de São Paulo, recebido pela crítica como “um marco gerador de um novo caminho e uma nova linguagem em nossa dança”. Pode nos contar um pouco sobre aquele período?
Foi muita sorte voltar de um longo período na Europa com a urgência de um projeto a realizar e encontrar de cara uma casa destinada à dança, ainda desocupada. A estrutura física propiciava a pesquisa e a investigação e foi o que fizemos. O ciclo de sete anos do Teatro de Dança Galpão (1974-1981) aliou realizações artísticas e pedagógicas e foi um respiro durante a ditadura civil-militar. A primeira parceria artística entre mim o Vaneau foi Caminhada, saudada pelo Sábato Magaldi como “um espetáculo perfeito, um novo caminho e uma nova linguagem”.

Como define a Técnica de Dança Célia Gouvêa, criada a partir do que você define como Técnica Orgânica?
Técnica é aquilo que proporciona as ferramentas para o bem fazer. O ensino da dança foi usualmente muito calcado no esforço excessivo, numa demasiada contração da musculatura. O propósito da Técnica Orgânica é o emprego de pouca energia muscular, que resulta numa movimentação mais fluida. A atenção fica concentrada na estrutura interna do corpo, gerando uma conexão consigo, que prepara um melhor mover e uma mais apurada relação com o ambiente.

Alavancas e Dobradiças, seu espetáculo mais recente, é uma homenagem a várias figuras das artes que a influenciaram em cinco décadas de dança. O que dizer sobre elas?
Pessoas que forneceram o estofo que me habita, mestres preciosos. Quando falo em mestre não suponho a hierarquia mestre/discípulo, pois acredito que o conhecimento é processado junto. Refiro-me a pessoas que provocaram insights, luzes, visões, como Alwin Nikolais, que preferia a moção à emoção ou Antonin Artaud, mentor desde o tempo do Mudra, que incitava a ir a fundo em si. Ele afirmou, por exemplo, que empurrado por forças gigantescas, acabou por descobrir e aceitar quem era ou onde alguns propõem uma obra, só pretendo mostrar meu espírito.

Ter voltado à universidade na fase madura da vida, primeiro licenciando-se em Filosofia e logo depois iniciando um doutorado na Universidade de São Paulo,  a que se deveu?
Já tinha estudado Filosofia na Universidade de São Paulo por dois anos. Entrei em 1968, último ano do funcionamento do curso na célebre Rua Maria Antônia. Exatamente quarenta anos após dedicar-me às artes cênicas, houve uma necessidade de novos estímulos, um novo viés, uma nova perspectiva. Acordar um conhecimento adormecido, como dizia Sócrates. Correspondeu a uma necessidade de reinventar-me. Na maturidade, é adequado rever e refletir sobre a própria trajetória, as escolhas feitas, os caminhos percorridos, os objetivos perseguidos.

Como vê o espaço que dança tem atualmente em nosso cenário cultural?
A saúde da dança contemporânea é ótima, há muita gente que inova e aprofunda suas linguagens. A dança introduziu um modo de pensar sinestésico, uma comunicação direta pelos sentidos, que promove uma cognição mais ampla. Ainda que o reconhecimento seja restrito, a dança cresce.

Embora nem sempre seja tarefa fácil, se tivesse que escolher cinco dos mais de 50 espetáculos em que atuou, quais e por que razão os escolheria?
Já citei Caminhada, o primeiro, inaugural, que abriu a primeira casa de espetáculos exclusivamente dedicada à dança, em 1974. Destaco a segunda Caminhada (havia três), uma colagem, um caleidoscópio de pequenas falas e muitas imagens; em seguida veio Pulsações, de 1975, que marcou o deslocamento de um ambiente humano para o universo, o cosmos, igualmente importante e que introduziu questões referentes à forma em meu trabalho; Trem Fantasma , de 1979, acrescentou o lúdico aliado ao onírico e teve a participação especial da minha antiga mestra Renée Gumiel. Fiz para ela um texto e uma construção de imagens muito fortes; Promenade, também de 1979, era um duo dançado sem música, por mim e a saudosa e telúrica Mazé Crescenti. Conforme observou o crítico Acácio Ribeiro Valim Jr., a música era silenciosa, feita do contato dos pés com o chão e das respirações. Expediente, de 1980, foi um solo que fiz para o J.C. Violla. Tinha muita fisicalidade, mas recorria pouco ao vocabulário convencional da dança. Cito a primeira fase, pois acho que é quando jorra a própria singularidade.

Pode nos antecipar seus novos projetos?
Quero ir tão longe e fundo quanto puder no processo interlinguagens, que supõe a mistura, a fusão das muitas linguagens artísticas a vários outros campos do conhecimento. O propósito abrange tanto a produção de novas peças de dança quanto o ensino. Quero promover, cada vez mais, a conexão entre palavra e movimento. Viver.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.