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Dante Passarelli: os desafios do marketing cultural


                                      Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Metodista de São Paulo, Dante Passarelli é ator e pesquisador de teatro. Pela Giostri Editora, acaba de publicar seu primeiro livro, Marketing e comunicação na produção teatral – produzindo cultura na era da economia criativa, significativa análise sobre a produção cultural brasileira contemporânea.

O que dizer das políticas culturais do país na atualidade?
Tempos de crise geram um território instável para todas as áreas, incluindo a cultura. O levante conservador, neoliberal, que temos visto no mundo, não vê com bons olhos políticas públicas. São sempre as primeiras a serem cortadas. Tanto que vimos, no golpe de 2016, o corte da pasta do Ministério da Cultura, que voltou algum tempo depois, pela pressão de artistas e movimentos sociais. As políticas culturais estão num campo de instabilidade. Há muitos editais de subvenção, centros culturais, bibliotecas e programas inteiros sendo cortados parcial ou completamente. A Frente Única de Cultura tem se movimentado contra esses cortes, especificamente no estado de São Paulo. E isso é muito importante. Um dos aspectos que temos de entender é que a política cultural anda de mãos dadas com o Estado. O nome é justamente política cultural, porque é diretamente ligada à concepção de cultura, de arte, de sociedade. Ter consciência disso faz com que saibamos a quem cobrar, quando cortes como esses acontecem. Falar sobre as políticas culturais no país hoje é falar sobre resistência.

O que é e qual o papel do marketing cultural?
Marketing cultural, de forma simples, é quando uma empresa ou organização se associa a produtos culturais (como música, teatro, artes visuais, etc), agregando o valor desses produtos à própria empresa.  Pode-se dizer que são três os papéis do marketing cultural: agregar valor à empresa, viabilizar projetos culturais e, principalmente, produzir cultura à sociedade.

Quais os problemas mais significativos enfrentados pelos produtores teatrais brasileiros?
Manter-se vivo e produzindo. Há diversos problemas, não só na captação de recursos em si e nos programas que têm sofrido muitos cortes, mas também com a especulação imobiliária. O caso mais simbólico nesse sentido talvez seja o Teatro Oficina que, sendo o que tendo o prédio tombado, foi e é atacado para que saia de lá. Ao mesmo tempo, grandes produções continuam com incentivo de multinacionais ou bancos, o que cria um abismo entre duas realidades.

O que destacar de semelhanças e diferenças nos processos de produção do Théâtre du Soleil, na França, e Os Satyros, no Brasil, objetos de suas análises no livro Marketing e Comunicação na Produção Teatral?
Durante o desenvolvimento do trabalho, com a pesquisa sobre o Soleil e a entrevista com o Rodolfo, percebi que os processos são parecidos. Isso porque a concepção de grupo de teatro é igualmente importante para ambos. Para os artistas desses coletivos, a própria existência do grupo como tal é um fator determinante na filosofia de trabalho. Os dois têm sedes em que realizam seus trabalhos. A direção dos trabalhos é sempre realizada pelos próprios diretores, no caso dos Satyros, Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral, e do Théâtre Du Soleil, Ariane Mnouchkine. Ao mesmo tempo, existe uma abertura para que os artistas se coloquem e contribuam, que parece ser similar. E os dois grupos também demonstram uma consciência social e política com seus trabalhos. A diferença é que no caso dos Satyros a subvenção varia de projeto a projeto. E o Soleil é subvencionado pelo governo e os membros dividem salários igualitários.

Como encontrar o ponto de equilíbrio entre os chamados valores tangíveis e intangíveis numa produção artística?
É na prática que se encontra qualquer solução. Os valores intangíveis variam de produção a produção. O ponto de equilíbrio vai depender do que se quer atingir e através de qual meio. Isso vai ter muito da criatividade. É nesse sentido que o subtítulo de meu livro é “produzindo cultura na era da economia criativa”. Ao mesmo tempo em que estamos num território adverso a uma concepção de arte mais popular, existe esse fator de criatividade que é instigante para se pensar novos meios de produzir cultura. O ponto de equilíbrio está aí.

O que nos falta percorrer para que haja estabilidade nos coletivos teatrais, hoje muitas vezes à mercê das contrapartidas sociais e do retorno comercial para as empresas que os patrocinam?
É uma mudança de mentalidade para cultura e sociedade. Isso acontece desde a escola, até a formação em ensino superior. Por exemplo, você pode quantificar para um patrocinador quantas pessoas assistirão a um espetáculo e verão a sua marca, mas você jamais poderá quantificar qual o impacto simbólico que o produto artístico vai ter nas pessoas. É disso que, em parte, se trata o livro. Produzir cultura para uma sociedade que compreende essa diferença. Como criar essa compreensão? Gostaria de ter essa resposta. Mas, pouco a pouco, chegaremos lá. O próprio livro é uma pedrinha nessa longa estrada.Não diria que os grupos estão à mercê de contrapartidas sociais, mas que estas muitas vezes são a única lente com que os projetos culturais são vistos. Ao mesmo tempo em que têm a sua importância, em certo sentido, elas não podem ser o único aspecto a ser considerado. Porque, quando isso acontece, muitas formas artísticas se tornam desprezíveis ao governo.

Apesar dos percalços, vale a pena produzir teatro no Brasil?
Com certeza. A beleza está na dificuldade. Como disse o Ruy na entrevista ao livro, há nisso um sabor de criação.

Angelo Mendes Corrêa é mestre Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP, professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.