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Denise Weinberg: o teatro em sua plenitude
                                                                                               Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
Consagrada atriz e diretora teatral, Denise Weinberg é uma das fundadoras do Grupo Tapa, no qual permaneceu por mais de duas décadas. Por suas atuações, recebeu os prêmios Moliére, Shell e APCA. Apesar de ter se dedicado, desde os anos 1970, sobretudo ao teatro, teve atuações destacadas no cinema e, mais recentemente, na televisão. Em 2016, fez seu primeiro monólogo, O Testamento de Maria, um dos maiores desafios de sua longa e bem sucedida carreira.

Em que momento a descoberta do teatro?
Na verdade, foi o teatro que me descobriu. Eu nunca pensei em ser atriz. Nos anos 70, no Rio de Janeiro, estudava Biologia e tinha amigos que gostavam de teatro, um deles era Eduardo Tolentino, hoje diretor do Grupo Tapa, que fundamos juntos. Então, essa paixão aconteceu, primeiro, pelo prazer de pertencer a um coletivo e contarmos uma história juntos, nos divertindo, refletindo, nos confessando, enfim, construindo uma cumplicidade que dura uma vida inteira. Acho que foi o prazer de estar ali, tentando me expressar através de uma história e com pessoas que, de certa forma, escolhi estar. Foi isto que me fez descobrir uma nova possibilidade de vida, completamente diferente daquela em que eu havia sido criada e que não estava nem um pouco satisfeita. E assim fui apresentada ao teatro, que já freqüentava bastante como plateia, mas jamais passava pela minha cabeça a possibilidade de ser atriz. Brincamos de fazer teatro amador, com algumas peças infantis. Depois, me casei, tive um filho, e só aí, por volta dos 23 anos, é que eu comecei a me interessar mesmo em viver de teatro e fundei, com Eduardo Tolentino, o Grupo Tapa, que existe até hoje.

Mais de uma dezena de longas metragens, além de inúmeros curtas. Só com o diretor Sergio Rezende foram seis longas. Como avalia o cinema nacional contemporâneo?
Eu acho que o cinema vai muito bem, apesar da pouquíssima verba e severa distribuição para as produções independentes ou filmes que são produzidos fora do mainstream, que é ocupado pelas grandes comédias. Eu não sou contra, só acho que deveria também se proporcionar um nicho para as outras produções, que agrupam profissionais de altíssima qualidade, mas que estão mendigando verbas. Isso é muito injusto no país. Não existe o menor interesse pela pesquisa, pela experimentação, no que se refere à cultura. Somos nivelados por baixo, no que há de pior nos diversos setores da cultura, para que o povo não reflita, não pense e não se revolte. Por isso, esse desprezo com que o governo nos trata, pois não lhe interessa o que fazemos, pelo contrário, somo chatos, humildes, pobres que aceitamos qualquer prato de comida para podermos mostrar nossa arte. Muito triste.

Quais as melhores lembranças da época do Grupo Tapa?
O Grupo Tapa foi a minha casa, a minha escola, a minha família, durante 21 anos. Foi onde aprendi a conviver, a aceitar, a liderar, a executar, a silenciar, a respeitar e, principalmente, a colocar o teatro como prioridade número um de minha vida. Foi lá que descobri a minha vocação e foi lá que desenvolvi meu talento, minha técnica, toda a estrada que tenho. Acho que o período de ouro para mim, no Tapa, foi a década de 90, quando realizamos nosso desejado sonho de manter um repertório com cinco peças em cartaz ao mesmo tempo. Fazíamos uma a cada dia da semana. E aos sábados nos dávamos ao luxo de fazer uma peça às 20 e outra às 22 horas. Isto significa o maior treino para um ator. Hoje se faz teatro duas vezes por semana, às vezes até uma. Impossível haver qualidade, pois vira um hobby. Fazemos teatro nas horas vagas, as outras são para pagar as contas. Eu vivia de teatro, pois fazia teatro de terça a domingo. Respirávamos teatro, a nossa vida era ali dentro do Teatro Aliança Francesa, que nos acolheu durante mais de dez anos. Então, por ser fundadora de um grupo, eu aprendi de tudo: contas a pagar, contratos, contador, bilheteria, varrer teatro, fazer produção de espetáculos, divulgação, enfim, tudo que é necessário para manter um espaço e uma companhia em pé. Trabalhava das oito da manhã até meia-noite. Foi um enorme aprendizado.

Os prêmios são importantes a um ator?
Acho que os prêmios são importantes para o ego de um ator, dão prestígio, claro, mas não alavancam carreira de ninguém. Às vezes, acontece o fenômeno inverso: você ganha um prêmio e as pessoas ficam com medo de te chamar para trabalhar, pois acham que você é uma pessoa muito cara. E isso não tem nada a ver. Mas, hoje em dia, está tudo tão desvalorizado que os prêmios também valorizam coisas que são duvidosas, portanto não têm mais aquela autoridade e reconhecimento que as curadorias de prêmios mais antigos, como o Molière e o Mambembe possuíam, influenciando bem menos o mercado.

Qual a maior dificuldade em compor um personagem? O trabalho de construção do personagem para o teatro é diferente do cinema e da televisão?
Sempre existe a dificuldade em criar um personagem. Porque não se trata de uma composição, temos que criar um ser humano em quem as pessoas acreditem, que tenha sua verdade, sua lógica, como toda pessoa tem. Essa humanidade é que eu acho a coisa mais difícil de acessar, uma vez que não é a minha lógica, a lógica da Denise. Eu tenho que criar uma forma de pensar para aquele personagem, como ele raciocina, como ele pensa, como ele sente. Essa é a parte mais fascinante da profissão. Você experimentar ser outra pessoa, com uma profunda verdade e conhecimento sobre aquela alma. O teatro, o cinema e a televisão são mídias diferentes, que todo ator tem que saber diferenciar. Se você fizer televisão da maneira que você faz teatro, você está perdido. E vice-versa também. A criação interna do personagem pode ser a mesma, mas a expressão desse personagem vai variar, conforme a mídia. Cabe ao ator saber atuar nos três.

Como foi atuar em Tio Vania, ao lado de Sergio Britto, Armando Bogus e Rodrigo Santiago?
Foi meu primeiro trabalho fora do Grupo Tapa, em 1982, com um elenco maravilhoso e direção de Sergio Britto, que foi como um pai para mim no teatro. Ele dirigiu Tio Vania e apostou em mim para fazer Sonia. E eu era uma novata no mercado. Só tinha feito trabalhos dentro do Tapa. Para mim, foi um dos mais lindos trabalhos que fiz, pois além de ser Tchékov, um autor por quem sempre fui apaixonada, tive o privilégio de estar entre Armando Bogus e Rodrigo Santiago, dois atores paulistas soberbos, que me ensinaram muito nas coxias, nos palcos e nos pequenos jantares que fazíamos. Foi uma temporada maravilhosa, que sempre lembro com muita alegria. E por ela acabei sendo indicada ao Prêmio Mambembe, do Rio de Janeiro, como revelação.

Em 2016, você encenou O Testamento de Maria, monólogo do irlandês Colm Tóibin. Como foi atuar sozinha, pela primeira vez?
Como eu já esperava, é muito doloroso fazer monólogo. Eu sou uma atriz criada no coletivo e chegar sozinha, ficar no camarim sozinha, atuar sozinha, ir embora sozinha, é bastante árido e difícil para mim. Ao mesmo tempo, fazer O Testamento foi uma aventura maravilhosa na minha vida. Poder falar aquele texto, pelo qual eu era apaixonada há três anos e que, de repente, caiu em minhas mãos como uma bomba. Foi maravilhoso. Acho que ainda irei fazer Maria por muitos e muitos anos. É uma história maravilhosa, que eu adoro contar. Mas que é solitário, é.

Ao longo de suas quatro décadas de carreira, algo mudou em nossa cena teatral?
Muita coisa mudou. As nossas platéias são completamente diferentes das de quinze anos atrás. As pessoas não conseguem mais abstrair, usufruir de algo que elas estão assistindo, sem tirar selfie, sem dizer aos outros que ela está fazendo alguma coisa. Essa falta de foco é claro que afeta também o fazer teatral. Mas eu continuo acreditando que quando o teatro realmente acontece de uma forma viva e verdadeira, ele tem poderes inimagináveis e não importa quando tempo dure, a platéia fica hipnotizada por aquilo. Mas, para isto acontecer, temos que “perder” muito tempo estudando, experimentando, jogando fora, desapegando, para conseguir atingir a síntese de um estado. E é esta síntese que enfeitiça a platéia.

Jerzy Grotowski dizia que “... o teatro pode existir sem a maquiagem, sem figurinos autônomos e cenografia, sem uma área separada para o espetáculo (palco), sem efeitos sonoros e de luz, etc. Não pode existir sem a relação de comunhão viva, direta, palpável entre ator e espectador.” É mesmo por aí?
É por aí sim. O teatro é a arte do ator. O teatro se diferencia por ser ao vivo, na tua frente, você vê o ator suando, se expressando, contando uma história. Não tem trucagem, não tem corte. O figurino, o cenário, a luz vêm para potencializar o trabalho do ator, para ajudar a contar a história. Um cenário sem ator vira uma instalação, um figurino sem ator vira uma roupa no cabide, uma luz sem ator ilumina apenas o palco. A narrativa no teatro é a coisa mais linda que existe, quando bem feita. E cabe ao ator saber executá-la.

Dirigir é tão desafiador quanto atuar?
Sim, acho até mais desafiador. A minha função no teatro sempre foi a da atriz. Eu gosto de executar. Eu gosto de entender o ponto de vista que o diretor quer trazer e ajudar a contar a história entendendo profundamente o nosso ponto de vista. Dirigir é outra história. Você é responsável por todos os setores e tem que botar a escola de samba na avenida com todas as alas funcionando a contento. Eu acho mais difícil, mas é também uma aventura muito interessante. Eu costumo dividir a direção, coisa rara por aí, mas eu gosto de parcerias, não me agrada ficar sozinha pensando. Com o outro, dividimos os olhares, trocamos figurinhas. Alexandre Tenório é um dos meus parceiros. Clara Carvalho também. E agora fiz uma parceria com Camilo Bevilacqua, em Ponto Morto, de Helio Sussekind. Mas, confesso que prefiro atuar. Vôo melhor.

Alguns atores dizem que o personagem encontra o seu ator. Isto tem sentido para você?
Isto faz todo o sentido para mim. Comigo sempre aconteceu assim. Os personagens me acharam. A Sonia, do Tio Vania, caiu nas minhas mãos sem querer, pois a atriz que ia fazer desistiu. Entrei no susto. No Tapa, passeei por Alaide, de Vestido de Noiva, Neusa Sueli, de Navalha na Carne. Petra Von Kant é outro exemplo. A Ruiva, do filme Salve Geral, também. A Maria, do Testamento de Maria, idem. Então, não é uma dúvida. É uma constatação. Eu brinco que o papel que é do homem o bicho não come.

Como sobreviver fazendo teatro fora do eixo comercial? Nossas leis de incentivo ao teatro têm cumprido seu papel?
Que leis de incentivo? Hoje em dia, não dá mais para sobreviver de teatro. É minha grande tristeza. Sempre vivi de teatro e agora não dá mais. Tenho que fazer outras coisas, me virar em várias para conseguir sobreviver. Eu sempre me propus a viver com o mínimo possível. Mesmo quando recebo um cachê melhor, guardo para o período das vacas magras. Porque, geralmente, aquilo que gosto de fazer não tem dinheiro e o que tem muito dinheiro, eu não gosto de fazer. Então, o sistema é cruel, pois ou é aquilo ou é aquilo. Você não tem chance de ir por outro caminho, a não ser o que o capitalismo nomeia como sucesso. E eu fico feliz em ter chegado aos 61 anos fazendo sempre o teatro que quis fazer. Isso é uma verdadeira dádiva, que agradeço aos deuses todos os dias. Como diz a Maria, em O Testamento de Maria: “Eu sei que estou sendo vigiada e protegida pelos deuses desse lugar!”

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.