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Edith Modesto: uma voz contra o preconceito

                                    Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Professora universitária, doutora em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), fundadora do GPH - Grupo de Pais de LGBTIs, autora de Vidas em Arco-Íris (2006), Mãe Sempre Sabe? (2008), Entre Mulheres: Depoimentos Homoafetivos (2009), Homossexualidade: Preconceito e Intolerância (2015), bem como mais de uma dezena de títulos de ficção para o público jovem, Edith Modesto nos mostra que sempre vale a pena lutar a favor da diversidade sexual e das questões de gênero.

De onde a idéia de fundar o GPH - Grupo de Pais de LGBTIs?
Quando eu soube da homossexualidade do Marcello, meu filho caçula, eu me desesperei. Eu não tinha conhecimento dessa possibilidade natural e espontânea do ser humano. A idéia de conversar com outras mães me veio por acreditar que, assim, eu me sentiria melhor. Era a estratégia da identificação com os iguais. Funcionou e continuei com o grupo, agora uma ONG, para ajudar também outros pais. Apesar de os pais saírem do grupo quando já se sentem bem, temos atualmente algumas centenas deles associados ao grupo, no Brasil todo.

Seu livro Vidas em Arco-Íris surgiu das experiências que vivenciou no GPH?
Não. O livro surgiu das entrevistas que fiz ao vivo com 89 homossexuais, homens e mulheres, de 14 a 62 anos. Penso que ninguém melhor do que eles para falar deles mesmos. Hoje sei que a pesquisa, que durou cinco anos para escrever o livro, foi um dos recursos que encontrei para aceitar o meu filho.

Quais os aprendizados mais significativos que teve ao longo de seu trabalho no GPH e durante a elaboração de Vidas em Arco-Íris?
Eu me reinventei. Tenho certeza de que hoje sou uma mulher muito melhor do que antes. Aprendi a aceitar as diferenças e, conseqüentemente, sou mais solidária e bem menos preconceituosa.

Em que sentido a situação dos homossexuais brasileiros progrediu e que caminhos ainda precisamos percorrer para alcançar as conquistas que os homossexuais de vários países do mundo já obtiveram?
Alguns anos atrás, o GPH lançou o Projeto Purpurina, trabalho com adolescentes e jovens homossexuais. Seus objetivos principais são que eles encontrem seus iguais, façam amigos, conversem sobre assuntos de seu interesse e aproximem-se de seus pais. Pretendemos oferecer-lhes oficinas profissionalizantes, se obtivermos verbas. Hoje, garotos e garotas, de 14, 15 anos, já se aceitam como homossexuais. Há poucos anos, isso seria impossível! O Projeto Purpurina só foi possível porque hoje os gays se reconhecem como são muito mais cedo e com mais facilidade e têm mais apoio e mais incentivo para terem uma boa auto-estima. De uma década para cá, tivemos grandes avanços, embora ainda haja um longo caminho a percorrer.

A partir das entrevistas que realizou para Vidas em Arco-Íris, é possível afirmar que os homossexuais brasileiros, em sua maioria, têm consciência de sua condição, estão preparados para novas empreitadas em busca de mais visibilidade?
Só o fato de terem vindo ao meu escritório abrir seus corações com tanta coragem já mostra que os homossexuais estão tentando se tornar mais visíveis. De qualquer modo, há ainda um grande trabalho a se fazer nesse sentido. Penso que a auto-estima deles ainda não é adequada a grandes empreitadas. Mas o processo já começou e está a cada dia mais acelerado.

Como avaliar as pesquisas que indicam que maior parte dos brasileiros não enxerga a homossexualidade como algo normal?
Eu acho as pesquisas instrumentos que requerem muitos cuidados para que os resultados não sejam deturpados. Por isso, me abstenho de comentá-las. As pessoas têm a intuição de que a diferença é a norma do mundo, mas não se lembram disso quando o assunto é a sexualidade.  Muitas vezes, o que atrapalha está em outra área. Por exemplo, todo mundo tem medo do que desconhece. Talvez o problema seja o desconhecimento sobre a sexualidade.

Em que sentido a mídia brasileira tem contribuído positiva ou negativamente para o debate sobre a homossexualidade?
Eu acredito que a mídia acompanha as mudanças sociais, não as inicia. Nesse caso, a mídia mostra como as coisas têm melhorado, mas nem tanto. Por exemplo, o casal gay de uma novela recente era muito certinho, cheio de qualidades e nenhum defeito. Esse é o tipo de gay e de relacionamento homoafetivo que a população já consegue aceitar.

As religiões ainda exercem papel determinante para o reforço de valores preconceituosos em relação aos homossexuais?
Certamente. As mães evangélicas são as que mais sofrem. Conseqüentemente, fazem seus filhos sofrer mais.

Quais os preconceitos mais recorrentes enfrentados pelos homossexuais brasileiros e o quanto eles contribuem para a marginalização e a formação de guetos?
Quando se pensa em homossexualidade, ainda soltam-se os demônios. As pessoas acreditam que a homossexualidade é uma opção, uma escolha. Assim, a homossexualidade está muito relacionada ao negativo: pessoas com desvio de caráter e/ou sérios problemas psicológicos. Os jovens ainda têm medo de não serem aceitos por seus pais e muitos levam uma vida paralela, sem apoio e modelos positivos.

Estarão os transexuais condenados à discriminação, até mesmo por parte dos demais grupos de homossexuais? Como analisar a situação desse grupo em nossa sociedade?
A ignorância acerca das questões da identidade de gênero é imensa, mesmo dentro da comunidade homossexual. Os homossexuais, assim como os heterossexuais, tiveram preconceitos introjetados desde o seu nascimento. As pessoas travestis, assim como transexuais e transgêneros, sofrem muito. O apoio médico e psicológico para essas pessoas no Brasil também é muito precário. Principalmente as travestis são muito desrespeitadas e empurradas para a prostituição e marginalidade. Isto é muito triste.

*Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.