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Ednei Giovenazzi: paixão, afetividade e placidez de um ator
                                                                                                 Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
Com uma brilhante carreira iniciada nos anos 50, Ednei Giovenazzi teve o privilégio de encenar alguns dos mais importantes textos da dramaturgia nacional e estrangeira, como Tartufo, O Mercador de Veneza, A Megera Domada, O Jardim das Cerejeiras, Um Bonde Chamado Desejo, A Alma Boa de Setsuan e O Santo Inquérito, tendo por diretores nomes da estatura de Adolfo Celi, Eugênio Kusnet, Antunes Filho, Antonio Abujamra e José Celso Martinez Corrêa.
Paralelamente ao teatro, tornou-se figura popular por atuações em telenovelas de Janete Clair, Manoel Carlos, Jorge Andrade e Walther Negrão.
E o que poucos sabem é que muito jovem pensou em ser padre, mas acabou optando por ser dentista, profissão que conciliou com a de ator por mais de três décadas.

Poderia nos falar um pouco sobre sua família e sua infância no interior de São Paulo? Que pessoas mais o marcaram naqueles tempos?
Nascer numa pequena cidade no interior de São Paulo é, reconheço hoje, um privilégio. O campo, com suas frutas, o ribeirão onde eu nadava. Ver com naturalidade o nascer e o pôr do sol. A igreja em que me fascinava a figura do sacerdote, o que me influenciaria, mais tarde, a querer ser padre. Cheguei a ser consultado por padres missionários jesuítas a esse respeito e o que me impediu de seguir o sacerdócio é que deveria, uma vez ordenado, ficar afastado de meus pais, principalmente de minha mãe. Mais tarde, já estando no ginásio, pensei na possibilidade de ser médico, dentista ou advogado e não mais padre. Na minha infância, as pessoas mais presentes, as que mais me marcaram, foram minha mãe, o padre da paróquia de minha cidade e alguns amigos de minha idade, dentre eles o filho do barbeiro com quem eu jogava futebol, nadava no ribeirão e brincava de cirquinho. O circo sempre me fascinou. O Mazzaropi tinha um pavilhão e foi nele que assisti ao primeiro espetáculo teatral de minha vida, a peça Deus Lhe Pague.

E os primeiros tempos na cidade de São Paulo. Foi por essa época a decisão de cursar odontologia? O teatro já estava presente em sua vida?
Fui para São Paulo para continuar os meus estudos. Fiz o curso científico no Colégio Alfredo Pucca e, em seguida, um ano de cursinho para entrar no curso de odontologia. Entrei em 13º lugar na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Havia os shows na Faculdade de Odontologia e as meninas não se permitiam participar. Então, os papéis femininos eram feitos pelos homens. Fazíamos sátiras de Shakespeare, como Romeu e Julieta e Hamlet e nos divertíamos muito. No dia seguinte ao show, os professores brincavam e faziam gozações. Mas naquela época eu nem pensava na possibilidade de um dia ser ator.

Como surgiu o convite para fazer o primeiro trabalho no teatro?
Numa tarde dançante, o que era muito comum em São Paulo, naquela época, uma garota que eu conhecia, sugeriu que fizéssemos teatro amador. Eu já era dentista e passei a ensaiar nos finais de semana para apresentar as peças para entidades carentes. Essa colega foi então procurar um aluno da Escola de Arte Dramática (EAD) para nos dirigir, mas quando o aluno nos conheceu, ele não quis saber de nos dirigir. Um dia essa garota me contou que ia fazer uma peça no Clube de Teatro e ao buscá-la no ensaio, me perguntaram se eu não queria fazer um personagem. Era uma peça de Joracy Camargo, chamada O Sábio. Aceitei o convite e quando o espetáculo terminou, o diretor de um outro grupo me convidou para fazer Sol Poente. Eu tinha uma boa clientela como dentista e um emprego público. Não queria me profissionalizar. O teatro era só um passatempo, um hobby. Recusei várias propostas do Antunes Filho e do Zé Celso. Mas um dia eu quis saber se era bom ser ator profissional. Eu já tinha recebido vários prêmios fazendo teatro amador. Pensava: será que sou bom porque “em terra de cego quem tem um olho é rei”? E no primeiro convite para o teatro profissional, de Antonio Abujamra, para eu protagonizar uma peça baseada em Lope de Vega, deu muito certo e foi meu ponto de partida para a profissionalização.

Das primeiras experiências no teatro profissional, o que considera mais importante em sua formação? Que diretores e autores exerceram papel decisivo?
O mais importante em minha carreira foram os bons textos que pude encenar, assim como os bons diretores que tive, como Antunes Filho, Osmar Rodrigues Cruz, Eugênio Kusnet, que não era propriamente diretor, mas que como ator influenciava os que com ele trabalhavam. O Zé Celso, o Antônio Abujamra e tantos outros.

Que importância tiveram o Arena e o Oficina em sua carreira?
O Arena teve uma influência muito grande no sentido de ser o início do teatro brasileiro político e o Oficina, no sentido da busca de se expressar nas bases propostas por Stanislavski, sempre com grandes textos.

Qual a razão de por muitos anos ter-se dedicado simultaneamente ao teatro e à odontologia?
A primeira razão é porque ao escolher a odontologia me dei muito bem. Em meu consultório particular tinha uma grande clientela e no serviço púbico podia atender aos menos privilegiados. Inclusive, durante anos fiz um trabalho de odontologia preventiva na televisão.

Em sua biografia, escrita por Tania Carvalho, você diz que “a televisão é uma das grandes criações da Idade Moderna”. No entanto, contemporaneamente, a televisão tem se pautado por reality shows e programas de auditório que só contribuem para aprofundar a vulgaridade e a mediocridade num país tão carente de educação como o nosso. Não acha que a televisão tem perdido a oportunidade de contribuir para a verdadeira propagação de cultura entre nós?
Quando disse que a televisão é uma das grandes criações da idade moderna é porque ela entra em todas as casas, tem contato com o povo, mas não me referi à qualidade de televisão que se faz, às vezes perniciosa, às vezes educativa, com boas mensagens para melhorar a qualidade humana. A televisão é um grande veículo, resta, no entanto, tratá-la com mais respeito.

É possível fazer uma retrospectiva dos trabalhos mais significativos que fez na televisão? A fórmula das telenovelas não estaria esgotada? Ter muitas vezes de atuar com as curiosas figuras tão em voga em nosso vídeo, autodenominadas “modelos-atrizes-cantoras” não é um desafio pesado para um ator que seja plenamente consciente de seu ofício?
Fazer uma retrospectiva de meus trabalhos na TV seria muito árduo, pois fiz mais de 30 novelas, além de minisséries e casos especiais. Mas os trabalhos que me deram mais prazer e até um certo orgulho foram Selva de Pedra, de Janete Clair; Ossos do Barão, de Jorge Andrade; Direito de Amar, de Walter Negrão; Felicidade, de Manoel Carlos, e Xeque-Mate, de Chico de Assis. Acho que o folhetim ainda tem espaço na tv, mas tem de ser de boa qualidade em termos de texto, direção, produção e atuação. E ter menor duração do que tem hoje. E quanto ao uso de não atrizes e sim modelos, é a busca da beleza que hoje é um grande chamariz. A beleza é algo maravilhoso, mas o ato de interpretar exige muito mais, ou seja, uma formação, que às vezes acontece no exercício da profissão.

Em mais de 50 anos de carreira, você fez apenas seis filmes. A que atribui essas raras incursões ao cinema?
Não sei. Às vezes penso que se trata de “panelas”, nas quais nunca tive acesso. Mas me agradaria ter feito mais cinema ou, quem sabe, ainda vou fazer?

Se voltasse no tempo, o que faria diferente em sua trajetória? Sente-se completamente realizado emocional e profissionalmente? Algum papel que gostaria de ter feito e hoje considera impossível?
A minha vida é a que escolhi. Parece força de expressão, mas não é. Escolhi a odontologia como profissão e fui muito feliz. Exerci a profissão com seriedade e prazer e tive retorno disso. Quando me apaixonei pela carreira de ator, deixei a odontologia, não fui deixado por ela. Mas tinha uma dúvida: na odontologia eu tinha o prazer de “utilidade pública” e na carreira de ator eu a teria também? E minha conclusão é que o bom teatro é uma grande arma, permitindo ao espectador o exercício de pensar, auxiliando-o a ser muitas vezes um ser humano melhor. Quanto aos personagens que gostaria de ter feito está superado, pois, na minha idade, ainda tenho a possibilidade de belos papéis que me fascinam.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.