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Etty Fraser: o talento e a humanidade de uma grande atriz
                                                                                              Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Conforme bem acentuou Vilmar Ledesma, autor de Virada pra Lua, biografia de Etty Fraser, “é mais fácil achar uma agulha no palheiro que encontrar quem faça qualquer restrição a Etty, quando se trata de seu talento, caráter, alto astral e estilo de levar a vida”. Pudemos  comprovar tal afirmação, quando, num gostoso fim de tarde de primavera,  a atriz nos recebeu em seu aconchegante apartamento, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, para contar um pouco de sua rica trajetória de vida. Logo no inicio de nossa conversa, quando lhe perguntamos qual o segredo para um astral tão bom e um casamento de quatro décadas, bastante singular para o meio artístico, disse que isso se devia a algo que certamente trouxe com ela, além de ter sido fruto de uma união muito feliz, pois o casamento de seus pais durou 56 anos e nele muito se espelhou ao longo da vida.

Gostaríamos que contasse um pouco sobre as origens de sua família e seus primeiros anos de vida.
Meus pais eram estrangeiros e se conheceram no Rio, no final dos anos 20. Mamãe chamava-se Anna Mindala Fraser, era polonesa, de família judaica. Papai chamava-se Julio Conrado Fraser e era argentino, filho de pai escocês. O fato de minha mãe ser judia e meu pai católico não agradou meu avô materno e eles se casaram escondidos de vovô e partiram para a Argentina.  Antes de partirem, deixaram um mensageiro encarregado de entregar a cópia da certidão de casamento deles a meu avô. Após um mês na Argentina, voltaram ao Brasil, mas vovô negou-se a receber o genro católico. Algum tempo depois, porém, ao saber que a filha estava grávida, vovô foi até a casa deles, com um urso imenso e indagou: “tem  lugar para mais um na mesa?”. Posso então dizer que a notícia de meu nascimento promoveu as pazes na família, pois papai e vovô, a partir dali, ficaram amigos por toda a vida.  Quanto à minha infância, até os seis anos vivi no Rio de Janeiro, cidade onde nasci , a 8 de maio de 1931. Creio que tive uma infância privilegiada, típica de uma menina de classe média. Quando eu tinha seis anos, viemos para São Paulo, cidade para a qual papai havia sido transferido pela empresa em que trabalhava e vovô veio conosco, pois a empresa que ele  tinha no Rio tinha ido à falência. Fui matriculada no Externato Elvira Brandão, colégio que ainda existe hoje, com mais de cem anos e onde estudaram figuras que mais tarde se tornariam muito conhecidas, como Paulo Autran, Eva Wilma, Célia Biar e João José Pompeu. Em 1940 voltamos novamente para o Rio, para mais uma temporada de três anos, em função de nova transferência de papai, e eu fui estudar no colégio Anglo-Americano, em Copacabana, de frente para o mar. Em 1943 estávamos de volta a São Paulo, de onde eu sairia novamente em 1946, para estudar na Inglaterra, juntamente com minha irmã Vivienne e mais duas amigas.

Como foi a experiência de estudar fora do Brasil, longe da família?
Nunca tive dificuldade em me adaptar aos lugares. Como eu já falava bem o inglês, isso me ajudou muito.  Lá eu fiz muitas amizades e até hoje tenho contato com colegas daquela época. A diretora do colégio parecia uma personagem de O Amante de Lady Chatterley. Tinha uns sessenta e poucos anos e logo ao chegar, descobri que era amante do motorista do colégio. Outro fato engraçado eram os dois cachorros pequineses que ela tinha. Um mais horroroso que o outro. E o melhor eram os nomes deles: Mr.Pu e Mr.Ku (risos). Certa ocasião, em que papai foi nos visitar, a diretora pediu que eu os trouxesse até ele e quando disse os nomes de ambos, papai quase caiu da cadeira de tanto rir. E a mulher não deve ter entendido nada. Outro fato engraçado ligado ao colégio e à diretora é que ela adorava que eu falasse português, mesmo sem nada entender de nossa língua. Eu, muito debochada, dizia coisas como: ” ah, meu Deus, essa vaca me enche o saco!” e mais um monte de palavrões e ela ficava desvanecida (risos).  Mas o  pior aconteceu quando ela me apresentou à nova professora de francês, recém- contratada pelo colégio e pediu que eu falasse em português com ela. Eu disse algo como “ah, mais uma vaca para me encher o saco!”. A nova professora, em seguida, disse que tinha bons conhecimentos de português, pois havia vivido 12 anos em Portugal.  Fiquei desesperada, mas ela bateu em minhas costas, riu e não contou nada à diretora (risos). Outra história engraçada dessa época foi quando estreou em Londres o filme Hamlet, com Richard Burton e eu não queria perdê-lo de jeito nenhum. Como seria difícil sair do colégio, pedi a um casal de amigos de papai, que vivia na Inglaterra, que escrevesse uma carta e mandasse pelos correios, como se fosse da embaixada do Brasil, convidando-me, assim como às minhas colegas, para irmos a Londres. Ao receber a carta, mostrei à diretora, que imediatamente me autorizou a fazer a viagem com as colegas e ainda me emprestou seu casaco de pele. Ela queria, inclusive, me oferecer um carro com chofer para a viagem, mas é óbvio que eu disse que não precisava e fomos de trem mesmo a Londres, onde assistimos ao filme e antes de voltar eu comprei um belo buquê de flores para a diretora do colégio, dizendo que era uma lembrança de nosso embaixador (risos).

E o encontro com o teatro, quando se deu?
Aos oito anos, eu já fazia teatro, na garagem de nossa casa, no Jardim Paulista, em São Paulo.  Recordo de quando montamos Chapeuzinho Vermelho e mamãe me disse que eu era gordinha demais para o papel principal. Pensei, então, em fazer o Lobo Mau, mas a máscara do bicho também não coube no meu rosto e acabei fazendo a mãe da Chapeuzinho (risos), a primeira das mamas que me acompanham em tantos anos de carreira. Foi nas aulas de teatro que tinha no colégio inglês em que estudava que um dia ouvi da professora que eu levava jeito para a coisa e deveria continuar. Como muitas colegas eram francesas, fizemos muitas peças de Molière e tive a alegria de fazer o protagonista de O Burguês Fidalgo. Lembro também de ter feito Lady Macbeth, a ama de Romeu e Julieta. Inclusive, duas antigas colegas do internato acabariam se tornando atrizes conhecidas: Dawn Addams e Nicole Courcel. Dawn chegou a fazer vários filmes e abandonou a carreira para se casar com um príncipe italiano. Quando veio ao Brasil, visitou mamãe e muitos anos depois, quando fui à Europa com o elenco de O Rei da Vela, resolvi ligar para ela. A governanta que atendeu o telefone perguntou quem desejava falar e eu disse que era Etty Fraser, do Brasil. Foi falar com a patroa e voltou dizendo que Miss Addams não conhecia Etty Fraser alguma. Então, caprichei no meu inglês e pedi que a mulher transmitisse um recado à Miss Addams: “ que ela fosse se ferrar!” (risos). Em 1948, voltei para São Paulo e fui terminar os estudos no Colégio Mackenzie.  A Secretaria da Educação reconheceu meu diploma de Cambridge e passei a lecionar na Cultura Inglesa e no Ofélia Fonseca.  Pouco tempo depois, ingressei no curso de Letras Anglo-Germânicas da USP e ganhei uma bolsa para estudar inglês na Universidade de Washington. Novamente em São Paulo, recém-chegada dos Estados Unidos, uma aluna minha, chamada Albertina Costa, me convidou para assistir a uma peça do grupo do qual fazia parte o namorado dela.  Esse grupo chamava-se Novos Comediantes e estava em cartaz com duas peças: Vento Forte para Papagaio Voar, do Zé Celso Martinez Correia, e A Ponte, do Carlos Queiroz Telles. Ao cumprimentar o elenco, após o espetáculo, o Zé Celso me perguntou se eu não queria fazer um teste para o papel principal de uma peça dele, A Incubadeira,  que o grupo apresentaria no Festival de Estudantes, em Santos, organizado pelo Paschoal Carlos Magno.  Ganhei o papel e o prêmio de melhor atriz do festival, que tinha no júri, dentre outras figuras importantes, Henriette Morineau e Pagu.  Foi Madame Morineau quem me deu o conselho para aproveitar o máximo de cada de diretor, pois aquilo valeria mais que uma escola. Anos depois, tive a alegria de atuar ao lado dela, no Oficina, em Andorra.

Foi após o festival de Santos que você então se profissionalizou?
Na verdade, me profissionalizei a partir do convite de Adolfo Celi, da Companhia Tônia, Celi, Autran. Eu estava em Araraquara, em janeiro de 1960, fazendo A Incubadeira e o Celi me perguntou quanto eu ganhava como professora de inglês. Ao dizer o valor, ele me disse que poderia pagar a metade. Liguei imediatamente para a mamãe, que estava em São Paulo,  e disse: “vocês continuarão a me dar casa e comida se eu abandonar o magistério para me dedicar ao teatro?” Mamãe, com imensa sensibilIdade, respondeu:” se for para você ser feliz...”. E assim, pouco depois, eu estreava Calúnia, de Lillian Hellman,  fazendo  Mildred Wells, dirigida pelo Celi. Terminada a temporada de Calúnia, recebi convite para trabalhar na BBC de Londres. Eram dramatizações de textos importantes para as transmissões da emissora no Brasil. Lembro-me que fiz muitos de Somerset Maughan. De volta ao Brasil, fui fazer As Feiticeiras de Salém, com direção do Antunes Filho, ao lado de Glória Menezes, Miriam Mehler, Dina Lisboa, Mauro Mendonça e Chico Martins, que viria a ser meu marido.  Em seguida, Zé Celso me chamou para fazer A Vida Impressa em Dólar, no momento em que o Oficina estava surgindo, pois o grupo Novos Comediantes havia acabado. O Chico também foi chamado e nós representávamos um casal que estava junto há trinta anos. Foi quando nos apaixonamos. Eu estava com 30 anos e ele com 37. Casamos em 1962 e tivemos 41 anos de união extremamente feliz, até a morte dele, em 2003. Éramos almas gêmeas. Desse casamento nasceu Denis, nosso único filho. Ao longo de meu casamento, tive um marido amoroso, que nunca me disse uma palavra dura, ao contrário, sempre era muito doce, um grande companheiro.

Como foi fazer Os Pequenos Burgueses, um dos maiores sucessos do Oficina?
Quando acabou a temporada de A Vida Impressa em Dólar, eu estava grávida do Denis. Dava aulas particulares de inglês e o Chico trabalhava na Rodhia. Os Pequenos Burgueses estreou , mas a Cecília Rabelo, que fazia a Akoulina, a mãe dedicada que vive em função da família, se desentendeu com o Zé Celso e saiu do elenco. O Zé Celso me chamou para fazer o papel e aceitei. Pouco depois, o Chico também entrou no elenco. Foi um dos maiores sucessos de minha carreira. Aliás, estive em três montagens da peça: a primeira, em 1963, assistida por 27 mil pessoas, a segunda, em 1977, e a terceira, em 1990. Quando estourou o Golpe de 64, o Zé Celso, o Fernando Peixoto e o Renato Borghi foram perseguidos pelos militares e tudo que tivesse nome russo passou a ser considerado subversivo, fazendo com que a peça saísse de cartaz. Interessante que nas três montagens de que participei sempre fiz a mesma personagem, o mesmo tendo acontecido com o Chico, que sempre fez o passarinheiro. No auge da censura, eu e Chico fomos “convidados” a depor no DOPS e lá passei por alguns momentos curiosos. O investigador que me interrogou, logo que entrei na sala, disse que “era um prazer conhecer comunistas” e eu, bem calma, disse: “mas meu pai é presidente de multinacional, como posso ser comunista?”. E tendo sabido que a mãe do homem havia falecido há poucos dias, dei-lhe também os pêsames. Mas ele prosseguiu, perguntando se eu conhecia “um tal de Gianfrancesco Guarnieri”. Eu disse que sim e que se tratava de um grande autor. E ele: “mas a senhora sabe que ele é comunista?” Novamente demonstrando muita calma, eu disse: “não me diga! O Guarnieri comunista? Meu Deus!”(risos). Isso acabou fazendo com  que eu e Chico, que sequer precisou depor, fôssemos dispensados e não fichados.

E a temporada de O Rei da Vela?
Em 1967, com o Oficina já reconstruído após o incêndio que havia acontecido um ano antes, ao ler pela primeira vez O Rei da Vela ,confesso que achei o texto horrível. Mas depois acabei adorando. Foi um sucesso incrível e fomos convidados a participar de vários festivais na Europa, apesar da peça não ter sido muito bem entendida na Itália, pois era uma crítica ao nosso país e as pessoas que ali estavam nada conheciam de nossa história. Na França, porém, a recepção foi melhor, só que nossa apresentação coincidiu com o movimento estudantil de maio de 1968. Voltei para o Brasil às pressas e o elenco ficou um mês sem poder regressar, pois estourou uma greve geral. Os cenários levariam três meses para voltar ao Brasil e o grupo, sem dinheiro, passou por uma fase difícil.  Logo depois, fui convidada pelo Augusto Boal para fazer MacBird,uma paródia de Macbeth, no Arena. O espetáculo, no entanto, foi um fracasso. Eu e o Flávio Império tínhamos o sonho de unir o Oficina e o Arena, mas isso era impossível.

Em que momento o interesse pela televisão?
A turma do teatro não queria nem pensar em fazer televisão nos anos 60. Depois de uma rápida passagem pela Excelsior, a convite de Dionísio Azevedo, onde fiz uma novela da qual pouco me lembro e que se chamava Ninguém Crê em Mim, do Lauro César Muniz. Em 1968,  fui para a Tupi fazer Beto Rockfeller, do Bráulio Pedroso. Depois vieram Nino, o Italianinho, um sucesso enorme, Vitória Bonelli, O Machão, Meu Rico Português, Os Apóstolos de Judas , todas do Geraldo Vietri, de  quem fiz também dois filmes: Senhora e Diabólicos Herdeiros. O problema é que o Vietri tinha um gênio terrível, embora fosse bastante talentoso. Trabalhava muito, pois além de escrever, dirigia, cortava, montava. Chegava muitas vezes a dormir na Tupi. Com fechamento da Tupi, fiz duas novelas na Bandeirantes: Cavalo Amarelo e Dulcinéia Vai à Guerra, de Ivani Ribeiro, e por quase dez anos fiz um programa de culinária que começou na Bandeirantes e depois foi para a Record, chamado À Moda Casa .Curioso que até hoje encontro gente que me fala desse programa.  No final dos anos 90, fiz minha primeira novela na Globo, Torre de Babel, do Sílvio de Abreu. Experiência ótima, fui muito bem recebida na casa. Lembro que em meu primeiro dia de gravação, a Denise Saraceni, diretora da novela,  fez elogios muito carinhosos, quando entrei no estúdio. Mas que pelo fato de ficar vários meses na ponte aérea Rio-S.Paulo, acabei desenvolvendo uma embolia pulmonar que me deixou um longo período no hospital e um ano de cama em casa.

E a volta ao cinema, com Durval Discos, em 2002?
Eu tinha feito muita coisa no cinema, mas nada que tivesse me entusiasmado, até que a Anna Mulayert, por quem havia sido dirigida no curta  A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti me convidou para fazer Durval Discos. Este filme me deu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Recife e ganhou sete Kikitos, em Gramado.  Meu personagem era maravilhoso.  A Anna nos dirigiu como se fosse teatro, acho que por isso é que gostei tanto. Sou uma pessoa privilegiada mesmo, pois fiz tudo que gostaria de ter feito na vida, não carrego frustrações.  No teatro, outro trabalho que adorei fazer foi a comédia A Importância de Ser Fiel, com o Grupo Tapa. Infelizmente, foi a despedida dos palcos do Chico Martins, pois logo em seguida ele faleceu. E em 2014, a convite de Odilon Wagner, tive a alegria de fazer A Última Sessão, ao lado de amigos queridos e grandes atores, como Laura Cardoso, Sônia Guedes, Gabriela Rabelo, Miriam Mehler, Nívea Maria, Marlene Collé, Sylvio Zilber, Gésio Amadeu e Yunes Chami.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.