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Isabel Marques e Fábio Brazil: a instigante fusão entre dança e poesia

                                             Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

À frente do Caleidos Cia. de Dança, que em 2016 comemorou 20 anos de existência, Isabel Marques e Fábio Brazil têm realizado permanente diálogo entre dança, poesia, educação e sociedade.
Dentre as montagens da companhia estão os espetáculos Silêncio (2002), Lugar Comum (2005), Para o Seu Governo (2012), Mairto (2015), Via Urbis (2016) e Ana Bastarda (2017).

Aos oito anos, você se inicia no balé e aos 15, ganha uma bolsa para estudar dança no Canadá. Como foi a experiência de estudar fora do Brasil?
Isabel Marques: na verdade, a ida para o exterior não tem relação direta com a dança. Fui fazer o que na época chamávamos de 2º. Grau como bolsista em um colégio internacional, membro dos United World Colleges (UWC). É um colégio muito especial em todos os termos.  Na época, tínhamos representantes de mais de 100 países para um programa de estudos com duração de dois anos. Dentro do programa, tínhamos muitos compartilhamentos culturais, entre eles a dança. Experienciei com meus colegas danças de diversas partes do mundo, em shows e performances. Isso foi definitivo para eu entender que meu corpo queria e precisava muito mais do que aulas de balé. 

Em que momento se deu a criação do Caleidos Cia. de Dança?
Isabel Marques: a companhia foi fundada de 1996, após a conclusão de minha pesquisa de doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Tudo começou com a vontade e a necessidade de colocar em prática muitas questões teorizadas e discutidas no trabalho de doutorado, como a inclusão da dança nas escolas, a interatividade da/na arte contemporânea, o papel do artista/docente. Como era docente da Unicamp, o grupo começou por lá, porém, em 1998, me exonerei da universidade, e viemos para São Paulo. Nessa época, conheci Fábio Brazil, que começou também a trabalhar conosco na área de dramaturgia e cenografia e hoje dirigimos juntos a companhia que comemorou 20 anos, em 2016.

Você afirma que seu trabalho envolve o “hibridismo entre dança e educação” e o “tripé que envolve dança, educação e sociedade”. Pode nos falar um pouco sobre isso? 
Isabel Marques: acho que posso resumir essa questão afirmando que buscamos fazer arte com princípios educacionais e ministramos aulas com princípios artísticos. Acredito que uma coisa não se separa da outra, por isso cunhei o conceito de artista/docente, aquele que ensina dançando e dança ensinando. Aos poucos, fomos cunhando também o conceito do tripé arte/ensino/sociedade, base do nosso trabalho e das nossas propostas: o binômio arte/educação não pode, a nosso ver, estar distanciado ou ignorar as questões sociais, por isso a proposta de diálogo permanente com a sociedade, tanto nos trabalhos artísticos quanto nos pedagógicos.

O que a levou a criar o Instituto Caleidos, em 2007? Como ele tem se mantido, uma vez que não visa lucro?
Isabel Marques: o Instituto Caleidos nasce como sede do Caleidos Cia. de Dança, para abrigar projetos e cursos da companhia. Aos poucos, foi-se expandindo também para prestar assessorias e consultorias, além de cursos e publicações nas áreas de arte (principalmente dança e poesia) e educação. Temos tido apoio dos editais de cultura, como o Programa de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo, o Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna e também contratos com as prefeituras nas áreas de educação. Sem o apoio dos editais não seria possível manter tanto os programas quanto o espaço físico do Instituto, pois além de não visar lucro, não temos ainda na cidade o hábito de pagar para assistir arte, ou seja, o público não nos sustenta.

Das quase duas dezenas de espetáculos produzidos pelo Caleidos, quais tiveram maior receptividade por parte do público? Pensa em remontar algum deles?
Isabel Marques: temos hoje 23 trabalhos em nosso repertório. O mais antigo deles é a série Coreológicas (seis montagens diferentes), ainda em cartaz. Difícil falar da receptividade, pois cada espetáculo é único e chama públicos às vezes diferentes. Posso dizer que o fato de nossos espetáculos trabalharem com diferentes formas de interatividade os coloca em um lugar de bastante receptividade.

O espetáculo Silêncio, baseado no poema homônimo de Fábio Brazil, montado em 2002, permitiu um belo diálogo entre dança e poesia. Como foi essa experiência?
Isabel Marques: prefiro dizer como tem sido tal experiência. Depois do espetáculo Silêncio, criamos outros espetáculos que têm como eixo o diálogo entre a poesia e a dança: Lugar Comum (2005), Para o Seu Governo (2012), Mairto (2015), Via Urbis (2016) e o mais recente, Ana Bastarda (2017). Fábio Brazil, além de dramaturgo, é poeta e isso traz para os trabalhos do Caleidos Cia. de Dança um tempero muito especial, pois dança e poesia se fundem por meio de pesquisa de linguagem e não somente de inspiração recíproca.

Fábio Brazil: a experiência de criar poesia imaginando que ela vai integrar uma cena de dança é muito instigante. Vale lembrar que nós herdamos uma tradição de poesia para o papel, seja na poesia mais convencional ou mesmo nas importantíssimas realizações da poesia concreta, o suporte é quase sempre o papel ou equivalente. Se gostamos de um poema, entregamos o livro ou enviamos a postagem, mas raramente paramos para ler um poema para alguém ou para ouvi-lo. Levar a poesia para a cena de dança tem sido um grande aprendizado. O poema declamado durante a performance do intérprete cria um tipo de diálogo entre o movimento e o recurso poético que coloca o espectador numa atmosfera diferente da leitura no papel ou a partilha visual de uma apresentação de dança.

Alguma mudança no processo de criação do grupo, a partir do ingresso de Fábio Brazil?  De que maneira o signo verbal poético dá lugar ao corpo? Como se deu a transcodificação no processo criativo de Silêncio?
Isabel Marques: desde a entrada do Fábio na companhia, nossos trabalhos têm mais densidade, mais impregnação de sentidos. Gosto de lembrar o educador Paulo Freire, que dizia que “educar é impregnar de sentidos cada ato cotidiano”. Com a poesia nosso trabalho tomou outros rumos em relação à educação. Em nossas criações, poesia e dança caminham juntas, trabalhamos com a linguagem da dança, tendo por base a coreologia de Laban e as estruturas da linguagem poética. Ou seja, o moto não é somente temático, mas estrutural. A cada espetáculo, o processo de criação é diferente: no poema Silêncio identificamos as estruturas poéticas de cada parte do poema e as relacionamos com elementos da linguagem da dança. Textos se transformaram em peso, ausência de foco, tensão entre os intérpretes. Em Ana Bastarda, os poemas complementam os relatos corporais dos intérpretes.

Fábio Brazil: acredito que a minha participação no Caleidos tenha aberto uma rota importante também para a minha poesia.  Creio que o trabalho da Isabel, que já dialogava claramente com certas estruturas dramatúrgicas, ganhou estímulo para aprofundar-se nesse caminho e, ao mesmo tempo, nos trabalhos em que colocamos a poesia em cena. Apresentou-se para ela um novo desafio para a criação: como colocar a poesia como parte da cena? Como fazer com que a dança não seja uma ilustração do poema? Como fazer a poesia ser ouvida sem que ela esteja explicando a dança? Para mim, pensar a poesia fora do papel, pensar a poesia como arte de performance, sempre foi uma busca. E o encontro com o Caleidos tornou isso possível. Encenar o espetáculo Silêncio – que nasceu como um poema - foi uma experiência muito decisiva para vermos que era possível realizar essa intervenção. Poesia e dança dialogando num mesmo evento de arte, construindo uma cena. Como o poema Silêncio já existia, o processo foi mais convencional: identificarmos a imagem geral que o poema propunha, aquilo que Pound chamaria de fanopeia. Depois identificarmos cada parte do poema como uma cena e relacionarmos as cenas propondo uma dramaturgia. Para continuarmos em Pound, foi um trabalho sobre a logopeia. Nesse caso específico, o poema ocupa, muitas vezes, o lugar da música na cena. Com isso, estruturamos a dança a partir dos elementos que identificamos (peso, foco, tensão, tempo, etc ) e os relacionamos com os ritmos do poema, a melopeia.

Mairto aborda a questão da violência contra os homossexuais. A narrativa surge de uma notícia de jornal. A história policial despertou o interesse pelo tema ou havia prévia  intenção do grupo em abordar a homossexualidade?
Isabel Marques: o processo de criação de Mairto é bem interessante. Há 15 anos, Fábio Brazil leu a notícia do assassinato no jornal e indignado tanto com o assassinato quanto com a forma com que foi relatado na notícia, pois somente na linha final o jornalista revelava que Mairto era homossexual, guardou-a. A notícia transformou-se, ao longo dos anos, em vários poemas e no desejo de incorporá-los à  dança. Essa possibilidade veio com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2013. A questão da homossexualidade vem de nossa vontade em trabalhar com a violência na cultura do macho, ou seja, a violência do autoritarismo, da arbitrariedade, da imposição que tem como vítimas preferenciais os homossexuais, as mulheres e as crianças. Isso virou uma trilogia, primeiro Mairto, agora nasce Ana Bastarda e, no futuro, João e Maria, para crianças.

Fábio Brazil: não havia nenhuma intenção prévia em relação ao Mairto. Numa terça-feira de 2002, me deparei com a notícia no jornal. Ela me impactou de imediato, pois a homossexualidade ali aparecia como um detalhe menor no crime, mas se relêssemos a notícia e pensássemos sobre ela, veríamos que esse detalhe era decisivo para que o assassinato tivesse ocorrido. A notícia, na época, se transformou em alguns poemas e o que seria um conjunto de textos foi se transformando num espetáculo de dança. Havia partes do crime que somente os corpos em relação e movimento podiam contar e oferecer-se ao público como arte. Quando iniciamos os estudos para transformar Mairto num projeto real, vimos que a nossa questão era a violência na cultura do macho e não a homossexualidade em si, pois o homossexual, a mulher, a criança e até outros homens são vítimas dessa cultura. Mairto, Ana  Bastarda  e João e Maria, esta última ainda por produzir-se, serão uma trilogia abordando essa questão.

Em Mairto, temos uma estética relacionada à questão de poder e dominação, daí o cenário ser um ringue de lutas. De onde veio essa ideia?
Isabel Marques: essa ideia foi do Fábio Brazil. O ringue, as lutas de MMA são o ápice das relações corporais que engendram a violência arbitrária do macho na nossa sociedade. Para discutirmos a violência contra a homoafetividade, nada mais icônico.

Fábio Brazil: o crime com o qual o espetáculo dialoga aconteceu numa casa onde três homens se relacionam por meio dos corpos e da violência. Há todo um jogo de paixão e arbítrio que ocorre dentro daquela casa e que só podemos imaginar. Nós não fomos atrás do processo jurídico que o crime gerou, optamos por entregar ao público as mesmas sensações que tivemos ao ler a notícia e só a notícia. Poderíamos ter optado por outras imagens para criar a cena de dança, mas três homens em cena, dialogando por meio da violência e vivendo uma relação de paixão entre eles, ficam muito bem retratados por meio do boxe ou do MMA.

Isabel Marques: aqui está um dos poemas do espetáculo de que mais gosto,
       TRAMA
               Fábio Brazil

Não, primeiro atrai,
depois trai.

Não, primeiro traz,
depois atrás.

Não, primeiro afaga,
depois afoga.

Não, primeiro agrada,
depois a grana.

Não, primeiro soca,
depois saca.

Não, primeiro amassa,
depois amarra.

Não, primeiro assanha,
depois a senha.

Não, primeiro ele toma,
depois ele tomba.

Não, primeiro apronta,
depois espanca.

Não primeiro dá o bote,
depois faz o pacote.
  

Como a dança pode contribuir para uma nova consciência sobre as minorias sociais?
Isabel Marques: a dança trabalha diretamente com o corpo, com as corporeidades. O fazer, sentir, pensar incorporados são muito potentes, empoderadores, pois prescindem de explicação e/ou mediação verbal. Estamos com Foucault na ideia de que o poder está inserido no corpo. Trabalhando o corpo via arte/dança de forma crítica, esse poder pode ser problematizado, questionado e até mesmo transformado. Mas claro que não é qualquer dança que tem esse potencial. Depende de como é ensinada/aprendida e de que sentidos impregna no corpo.

Para  o  pesquisador  Luís Ellmerich,  “A  dança,  como movimento
ordenado e rítmico, tem por base as manifestações biológicas dos
seres humanos e animais. São a respiração e a pulsação que dirigem
os movimentos.” Na sua opinião, a idade é o grande limite que a         
dança impõe ao corpo?
Isabel Marques: não sei se concordo com Luís.  A dança é muito mais do que ordenação rítmica e manifestações biológicas. Dança é arte é linguagem, é conhecimento, é construção sócio-político-cultural. Se valer a primeira definição, a dança é só para jovens sarados. Se valer a segunda, a dança é para todos . Acredito na segunda!

Quais os maiores desafios da dança no Brasil? O que ainda nos falta?   Como você vê a Lei de Fomento à Dança da cidade de São Paulo?
Isabel Marques: isso dá uma tese. Atualmente, acho que o maior desafio de todos são as políticas públicas – ou a ausência delas –  voltadas para a dança. Os cortes arbitrários dos orçamentos para a cultura em todo Brasil são um acinte. E as justificativas piores ainda. A noção que se tem de arte e de cultura como entretenimento e perfumaria ainda prevalecem, por incrível que pareça. Participamos da elaboração da Lei de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo, já são dez anos de programa que transformaram a produção artística da cidade de São Paulo. As propostas de continuidade, pesquisa, projeto (e não somente montagem de espetáculos) trouxeram ganhos imensuráveis não só para os artistas da dança, mas também para a população. O programa diluiu as práticas de curadoria, acabou com a política de balcão e abriu oportunidades para a diversidade de produção em dança.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo(USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo(USP), professor, ator e jornalista.