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Paulo Faria:  teatro, história e crítica social

Angelo Mendes Corrêa*

Dramaturgo, ator e diretor, Paulo Faria nasceu em Belém (PA), em 1965, numa família que teve importante papel na história do jornalismo e da política paraenses, a partir da segunda metade do século XX. 
Começou no teatro em sua cidade natal, em 1979. Dez anos depois, mudou-se para São Paulo, para cursar Letras, na Universidade de São Paulo (USP). Em 1998 fundou a Cia Pessoal do Faroeste, na qual escreveu e dirigiu quase duas dezenas de peças, várias delas premiadas, consagrando-se como um dos nomes mais representativos do teatro paulistano, sobretudo por seu envolvimento com a história e as questões sociais da cidade.
Em novembro, estreia Norte Extremo, na qual conta a história de Lúcio Flávio Pinto, seu irmão e fundador do Jornal Pessoal, único veículo de imprensa no mundo que circula sem qualquer publicidade, sobrevivendo apenas de vendas avulsas e nosso principal porta-voz na defesa da Amazônia.

Pode nos contar um pouco da história de sua família, que teve papel de grande importância no jornalismo e na política do estado do Pará.
Meu pai, Elias Pinto, foi cassado, em 1968, quando era prefeito de Santarém, no Pará. Ele fora eleito pelo partido de oposição de então, o MDB, numa façanha, já que conquistava a prefeitura do segundo maior município do estado, de forma esmagadora e histórica, pelo voto direto de seu povo, enquanto a Arena, partido do governo, vencia em todos os demais municípios. Seria um candidato natural ao governo do estado, com ideias muito à esquerda para a época. Foi uma cena de faroeste. A PM chegou à Santarém para retirá-lo à bala da prefeitura, da qual fora afastado no ano anterior, depois de apenas nove meses no exercício do cargo e fora reempossado pelo povo, único caso no Brasil de recuperação da função usurpada. Três pessoas foram mortas. O sucessor do meu pai foi assassinado a tiros na prefeitura, numa história até hoje não revelada. Elias Pinto foi um dos maiores líderes político do Pará. Era filho de cearense, pejorativamente chamado ali de arigó. No final da década de 1950, quando era deputado estadual, apresentou o projeto de dividir o estado ao meio e Santarém seria capital do Tapajós. Recentemente, esse projeto foi revisitado, no intuito de criar o estado do Carajás, ao sul do Pará. Meu irmão, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal, na Amazônia, foi opositor a esse projeto. Parecia absurdo esse plebiscito só acontecer no Pará, como se a Amazônia não fosse de interesse nacional. Novamente a mídia manipulou o foco. Imagina um plebiscito no estado mais corrupto do país, para criar outro estado mais corrupto ainda e com a máquina pública roubar de forma mais moderna? O Carajás seria o estado mais corrupto do Brasil e dono de todo o melhor minério do mundo, riqueza única no planeta! Meu pai só queria dividir ao meio o estado para dar aos nordestinos fugidos da Segunda Guerra, que migraram para o estado, o direito a uma vida digna. O Nordeste na Amazônia. Nessa época, recebia todos os colonos nordestinos em Santarém e os encaminhava para as terras, ao trabalho agrícola, com todos os direitos garantidos para que não virassem escravos. Foi ele quem articulou, antes de ser deputado, como secretário da prefeitura de Santarém, no final do segundo mandato de Getúlio Vargas, em duas audiências com o presidente, na companhia do imigrante japonês Kotaro Tuji, para que o presidente assinasse a legalização da colônia japonesa na Amazônia, em Tomé Açu. Tem uma foto história do papai, Getúlio e Tuji. Essa é uma saga incrível, que ligou o Lúcio Flávio ao papai, pela carta-testamento do Getúlio, que o futuro jornalista decorou aos cinco anos e era motivo de orgulho do pai, que saía apresentando a façanha do filho. O Lúcio Flávio herdou esse amor incondicional pela Amazônia e radicalizou uma militância única no jornalismo brasileiro. Por 20 anos foi correspondente do Estadão (O Estado de S.Paulo) na Amazônia. Nos seus 50 anos de oficio, há 30 ele rompeu com a grande mídia e tem se dedicado ao seu Jornal Pessoal, único no mundo sem publicidade, o que representa o lucro de até 80% de um jornal padrão no mercado. O Jornal Pessoal se mantém exclusivamente das vendas avulsas dos dois mil exemplares que saem quinzenalmente e que pautam a Amazônia no mundo. Com isso, ele faz todas as denúncias sobre a Amazônia que ninguém tem coragem de fazer. Perde dinheiro, ganha inimigos e coleciona ameaças e processos. Hoje são 33 que ele responde na justiça por defender a Amazônia. Ele já ganhou importantes prêmios internacionais e nacionais, como o Prêmio Internacional de Liberdade de Expressão, em Nova York, dado pelo Comitê de Proteção ao Jornalista, quando dedicou todo o Jornal Pessoal ao caso da Missionária Doroth Stang, covardemente assassinada em Anapu, em mais um capítulo das histórias de injustiças, assassinatos, grilagem de terras, trabalho escravo e tudo o que destrói a Amazônia.  Recentemente, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog, em São Paulo. Se nós sabemos o que acontece na Amazônia hoje, como Belo Monte, é por conta da incansável busca de meu irmão pela verdade, pelo cumprimento dos preceitos universais do jornalismo. Agora em novembro estreio, como ator e autor, ao lado da atriz Neusa Velasco, e sob direção de Edgar Castro, Norte Extremo, onde conto a história do jornalismo dele e sobre todas as ameaças que ele tem sofrido. Um teatro denúncia e documental. Minha família se mudou para Belém, em 1955, quando papai foi o sexto deputado estadual mais bem votado no estado. Nasci em Belém, em 1965, ironicamente no mesmo ano que surge a Globo, mas também o ano feliz em que Maria Bethânia colocou o pé num palco. Cinquenta anos de uma geração de artistas que mudou todo o nosso cenário político e cultural. E que resistiu. Passei a infância e adolescência entre redações de jornais, palanques políticos e todo universo cultural e exuberante da Amazônia. Meu pai morreu 30 anos atrás, em decorrência de tudo o que sofreu física e economicamente pela ditadura militar. Quando ele sumiu de casa e da vida pública, eu tinha dois anos. A ditadura me tirou quase tudo, mas não tirou o que entendo como um mundo justo e digno, esse DNA de direitos humanos. Quando houve a indenização às famílias que sofreram com a ditadura, meu irmão Lúcio nos aconselhou, a mim e ao meu irmão Pedro, para que não a pedíssemos. Pedro já havia feito toda a pesquisa sobre nosso pai. Mas não poderíamos aceitar o dinheiro do povo brasileiro por algo que nunca poderá ser pago e que ele não causou. Esse dinheiro deveria ser investido em causas sociais. Afinal, quem perdeu foi nosso pai e nossa mãe. Não podíamos transformar isso em herança. Herdar de quem? Dos cofres públicos? Só nos últimos dez anos de vida é que minha mãe recebeu uma pensão de um salário mínimo. Eles é que, em vida, tinham que ser reparados, indenizados. Meu pai morreu sem dinheiro para pagar o próprio caixão. Não sou contra a riqueza dos ricos que a fizeram, isso não deu certo na França, pois os ricos foram para Bélgica. A França perdeu grandes fortunas. Temos que esperar o rico viver e depois morrer. Aí a gente vai falar sobre essa herança. É preciso aplicar tributos sobre as grandes fortunas, previstos na Constituição Federal e até hoje jamais aplicados. Acredito num mundo justo, de direitos e de paz. Mas a quem interessa a paz? A mim interessa. E me mobiliza a sua defesa.

A mudança para São Paulo, com pouco mais de 20 anos de idade, se deu por qual razão?
Vim para São Paulo estudar, fazer letras na USP. E também fazer teatro. Em Belém, tudo era muito difícil. Pertencer a uma família como a minha, ali, não era fácil. Não havia perspectiva. Ainda mais porque sempre me interessei por política. Fui presidente de Centro Cívico, no colégio, por três anos. Queria ser prefeito de Belém. Tinha esse sonho na adolescência. Queria acabar com a miséria, a pobreza e reformar a cidade que era linda e cada vez mais destruída. Como meus pais faliram, quando eu tinha dois anos, fomos morar em diversos endereços e cada vez menores, mas sem nunca saímos do entorno do Teatro da Paz, na Praça da República. Porém, quase todo final de semana, eu ia para casa da nossa lavadeira, a Antonia. Mamãe mandava mantimentos, quando eu ia junto com elegeu era bem recebido na modesta casa de dois cômodos, na Marambaia, periferia de Belém. A casa era de madeira, com banheiro de palha no quintal, com um buraco no meio. Não tinha assento e o papel era jornal. Antonia fora minha babá, quando éramos ricos, e herdou o único terreno que sobrou da família. Quando eu ia para casa dela, aliviava os problemas em casa, uma família de sete filhos e com um político cassado. Era especial a casa da Antonia e eu adorava. Um terreno lindo, cheio de árvores com frutas, água de poço, igarapé ao fundo e quase todo dia tinha uma festa na rua, na vizinhança. Mesmo vivendo de forma modesta em Belém, frequentava o meio intelectual, artístico e político, em oposição ao universo da periferia na casa da Antonia.  Quando eu cheguei a São Paulo, para cursar letras, pensava em ser escritor, escrever essas histórias. Fui estudar literatura, o folhetim e a novela. Sempre fui noveleiro. Acabei abandonando as minhas histórias amazônicas para escrever a história da cidade que sempre admirei e gostei, desde a infância. Meus irmãos vieram estudar aqui e o Lúcio aqui trabalhou, de 1968 a 1972. São Paulo sempre esteve muito presente em minha casa. Estou aqui há quase 26 anos. Mas ela sempre esteve, desde a infância, em meu imaginário.

Quando a ideia de criar a Cia do Pessoal do Faroeste e sediá-la num dos bairros paulistanos onde a exclusão social é elevada?
Em 1996 ia me formar na USP e me tornar diretor do teatro FAAP. Fui coordenador do núcleo de artes cênicas, durante um ano fui preparado pela Ana Mantovani para substituí-la. Foi quando o Renato Russo morreu. Vim para São Paulo com um sonho de encontrá-lo, adaptar o Um Certo Faroeste Caboclo para musical e ele fazer as músicas. Já estava há mais de cinco anos em São Paulo e mergulhado na vida acadêmica, me distanciando do sonho. O Renato Russo morreu. Abandonei tudo e fui montar Um Certo Faroeste Caboclo. Ali falava de Brasil, política e juventude. Ficamos quase quatro anos em cartaz, apresentando o espetáculo em quadras de esportes ou em salas como a Adoniran Barbosa, do Centro Cultural São Paulo, para quase mil pessoas. Viajamos o Norte e o Nordeste. Tínhamos um bom contato com o público e via como ele se interessava pelo tema político. Em 2000 montamos parceria e inauguramos o hoje Instituto Cultural Capobianco, no intuito de desenvolver projetos socioculturais, na Ladeira da Memória. Chegamos a montar uma ação local para cuidar dela. E em 2002 fomos contemplados pelo primeiro edital de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, um projeto que estudava os cortiços na Cracolândia. Mudamos para a região da Luz e fizemos a Trilogia Degenerada, em oito anos, que envolvia os espetáculos Os Crimes de Preto Amaral, Labirinto Reencarnado e Re-bentos, que aprofundaram o estudo sobre a eugenia na gestão pública século 20, em São Paulo. Sempre montagens a partir de teses sobre a história desse local. E daí fui me envolvendo e militando em sua defesa e na defesa dos seus habitantes excluídos, na tentativa de juntos requalificarmos o local e trazermos de volta o cinema para a Rua do Triunfo, onde estamos há quatro anos. Desenvolvemos a nova Trilogia Boca do Lixo, com os espetáculos Cine Camaleão e Homem Não Entra. E em 10 de novembro próximo voltamos em nova temporada, de seis meses, com Luz Negra, que encerra essa trilogia.

O resgate histórico e a crítica social têm sido as linhas condutoras da Cia do Faroeste, fazendo com que fuja do apelo comercial da maioria das produções, do teatro visto como mero entretenimento. Que desafios são mais difíceis de enfrentar para que os ideais se mantenham vivos, sem concessões ao teatro comercial? É fácil encontrar dramaturgos dispostos a escrever sobre nossas mazelas, que parecem eternas?
Acredito na força divina e humana da arte. E arte é também entretenimento, mesmo quando seja pouco palatável, inacessível. A vida precisa de mais alegria, de poesia. Precisamos comer arte. Uma outra forma de consumo. O consumo em si não é o problema. Mas o que consumimos. Nós é que somos o problema, veja só. E para não sermos o problema temos que nos tornar pessoas melhores, mais humanas. A arte pode ser o caminho. E já está mais que provado que não é a religião que nos leva a esse estado sublime. A religião provoca guerras, exclusões, preconceitos. A arte junta os mundos. Isso não é divino?  A arte é a melhor religião. Uma vez aventei a possibilidade de em vez de abrir um teatro, como pessoa jurídica, abrir uma igreja para o deus Dioniso e a missa seria o teatro. É muito mais fácil abrir uma igreja. Assim não pagaríamos impostos e poderíamos receber doações não declaradas.  Mas minha proposta foi vencida. E quando falo arte estou falando do espaço pleno de humanidades. Deus, com certeza, não está nas igrejas, mas nos espaços artísticos. Por isso, os espaços artísticos públicos têm que ser laicos. Para que todos os deuses estejam em nós. No nosso caso, das produções artísticas e entretenimento, colocamos assuntos difíceis da história dentro de gêneros ficcionais. Não esquecendo de que a rua em que estamos com a sede da Cia do Faroeste, a Rua do Triunfo, é nossa Bollywood brasileira. Acredito que nossas peças são entretenimento também. São musicais, faroestes, dramas, comédias, melodramas, num namoro com o pop. Mas tratam de assuntos que não estão representados nessas dramaturgias. Hoje, nossa plateia é bem diversificada sócio e economicamente. Nosso ingresso, com envelopes para serem devolvidos ao final do espetáculo, com contribuição voluntária, democratizou o acesso, aumentou o público e a receita da bilheteria. Quem pode, paga por quem não pode. Desejamos ter aqui toda a cidade representada, para que possamos juntos conhecer uma parte de sua história, no seu local mais importante e abandonado.  Para todos. Com espetáculos que também divirtam, emocionem e possam provocar reflexões políticas ou mudanças. É possível fazer belos espetáculos políticos. No teatro, até o feio é belo, se tem poesia e humanidade. Não sou adepto de espetáculos politicamente corretos, ricos de conceitos, mas pobres esteticamente, sem poesia, sem beleza, sem alma, sem artistas.  Acredito que temos grandes dramaturgos que tratam das mazelas humanas, de temas universais. O que acho que diferencia a produção dramatúrgica do Faroeste é colocar a história e a crônica da rua em que estamos na nossa obra e na própria rua onde habitamos, o dentro do dentro, misturado com o universal, mítico, num desejo latente de atrair o público, recepcioná-lo, mantê-lo, criar um sentimento de pertencimento, para que ele volte a se relacionar com esse patrimônio imaterial da cidade que é a região da Luz. E principalmente a nossa esquina, que junta o cinema com o samba. Estamos vivendo momentos em que o espaço privado tem um sentido mais público que o espaço público, que se pautou pelo mercado, na maioria das vezes. Sou um dramaturgo que me aprofundei nas diferentes estruturas dramáticas do texto teatral, não buscando inovar a forma, mas aperfeiçoando a cada escrita para trazer conteúdos, assuntos, personagens que não vejo nos teatros. Trazendo pesquisas importantes que estão nas faculdades, em teses acadêmicas, mas o público não sabe. Não é pop. E deveria ser, mas não, é elitista. Vamos dar ao público o drama, a comédia, o musical e todo tipo de gênero. O gênero dramático não é problema do teatro, ao contrário. Muito pelo contrário. E quando o feio belo lhe parece, é genial. A estética é a melhor forma de fazer política.

O que dizer das leis de incentivo à cultura e das cifras milionárias que recebem artistas da grande mídia, levando companhias que produzem pesquisa, formação de ator e um teatro verdadeiramente libertário a uma luta muitas vezes insana para sobreviver?
É necessário primeiro que se aumente o orçamento da cultura, que os nossos gestores entendam que cultura é também saúde e educação. Tem que ter orçamentos compatíveis. Mas não, só nos pensam como entretimento, evento, porque sabem que a cultura é um monstro formador. Somos ferramentas fundamentais pra se criar uma sociedade mais cidadã. Acho que as leis de incentivo têm que continuar existido, pra subsidiar de certa forma as produções midiáticas, mas essas produções que são pautadas e mantidas pelo mercado não deveriam isentar em 100% os impostos. As empresas devem investir como investem em marketing e propaganda. Como pode o setor privado definir o que vai ser patrocinado com o dinheiro público? Deveria abater até 50% do investimento, afinal, a empresa privada já escolheu um artista midiático que lhe dará retorno de imagem. E o mais absurdo é ver esse montante de dinheiro público ser investido em bilheterias que cobram horrores e não fazem sequer temporada popular como devolutiva. Nós realmente não estamos nesse lugar do mercado, que aprisiona, limita assuntos, não permite denúncias. Não é libertário. Acho que o que é libertário não é exatamente o teatro, a dança, o cinema, ou outra forma de comunicação, mas sim a arte. A arte está em outro lugar. Está no lugar das mudanças, das denúncias, do repúdio a toda e qualquer forma opressora. E grande parte da produção cultural está imbuída numa ideia opressora, alienante e que estimula uma sociedade pautada pelos critérios de consumo, sem ética, sem consciência, ajudando a formar mais e mais uma sociedade conservadora, preconceituosa e alienada.

Como é desdobrar-se na escrita, direção e administração da Cia do Pessoal do Faroeste. A gestão dos problemas cotidianos de uma companhia não corre o risco de esvaziar o artista?
Não sei uma receita, um método. Mas entendo que a Cia do Faroeste se fez assim e eu fui assumindo naturalmente algumas funções, por causa da minha personalidade agregadora, festeira. Durante os anos em que estou em São Paulo, trabalhei em várias áreas do meu oficio. Fui produtor, cenógrafo, contrarregra, assistente, bilheteiro, administrador, gestor, pedagogo. Envolvi-me em tudo para ser um dramaturgo, ter minha companhia e poder atuar politicamente da forma que atuo. Tudo que nela é movimento me alimenta. O teatro é vivo e a produção e gestão são a mola que estrutura toda a criação. Não é fácil achar um dramaturgo- diretor, um dramaturgo-produtor ou um dramaturgo-cenógrafo e eu sou isso tudo. Mas em cada área em que assino a direção de arte tem uma equipe e tem a população dentro, através de didáticas de montagens. Adoro trabalhar em equipe. Ouço pessoas do teatro dizerem “você precisa focar num segmento ou não sobrevive no ramo, não vai ser do ramo”. Mas como o meu interesse sempre foi ser artista, nunca esses conselhos me impediram de escolher caminhos difíceis e tortuosos, que me levassem aos meus objetivos de artista. Quando fui produtor, produzi grupos como Oficina, Vertigem, Balangan, entre outros. Como produtor de casting trabalhei com produções do Babenco, como Coração iluminado; de Luiz Fernando Carvalho, como Os Maias. E ainda atuei como gestor ou coordenador, na FAAP e no CEU Butantã. Sempre fiquei dois anos num canal, até entendê-lo. Quando vinham me chamar para produção, eu dizia: agora não sou mais produtor, agora sou cenógrafo. E continuava sempre escrevendo. Tudo que faço no teatro me fortalece a escrita. Hoje me defino como artista militante, pois tudo me atravessa, tudo me interessa. Quando vou montar uma peça, quero saber de tudo, de cada detalhe, além de escrever para o ator, também penso o seu figurino. Acho que por isso vim fazer cinema experimental na Rua do Triunfo. Alguns amigos falavam, “isso de fazer tudo no teatro não dá muito certo. Você devia fazer cinema, tem mais a ver com esse trabalho mais autoral de dominar a direção de arte da obra, para além do texto”. E cá estou. Tentando.

Trazer os excluídos sociais como protagonistas dos espetáculos gera alguma resistência da mídia conservadora?
Claro que sim. Para ter ideia, nunca entendemos como a revista Veja vinha nos dando tanto espaço ao longo de anos. Borboleta Azul ficou, durante seis meses de temporada, entre as dez melhores peças de Veja São Paulo. Chegamos a ter três páginas, quando viemos para a Rua do Triunfo. E quando estreamos Luz Negra, peça que trata de negros em São Paulo, durante a Frente Negra, na década de 1930, com maioria de atores negros em cena, A Veja nos baniu. Tiraram a cota que tínhamos (risos). Tudo bem falar de prostitutas, de usuários de drogas e tantos submundos, mas falar de preto é demais. Você não vê foto de peça de preto na Veja. O próprio editor, que sempre veio ver tudo o que fizemos e apesar de ser da Veja, incentiva e dá espaço às montagens não pautadas pelo mercado, não veio ver. Até falei a ele: tudo bem você não falar, mas como você viu quase tudo da Cia do Faroeste, gostaria de saber o que achou do nosso fechamento de nossa trilogia. Neca. A Veja não deixou. Porém, cada vez mais a Cia do Faroeste tem conseguido chegar a seu público, através de mídias fora do padrão, fora do eixo comercial, uma imprensa ainda inteligente na cidade. E que como nós está criando outras redes.

Os atores que chegam à Cia do Pessoal do Faroeste costumam trazer razoável bagagem teatral ou sua aquisição começa quando se incorporam ao grupo, através de suas oficinas? Pergunto isso, pois é fato que a maior parte das escolas de teatro do país forma muito mal os seus alunos.
Puxa, é muito bom trabalhar com bons atores. É vital. E para ser bom ator tem que ser também boa pessoa e querer estar na trincheira em que estamos. E necessariamente tenha que ao menos flertar com a esquerda. Portanto, todos trazem sempre boas e grandes bagagens, mas acredito que aqui eles podem exercitar um teatro mais político, no seu campo de batalha e não numa sala de ensaio fora daqui. Imagina falar daqui e ter uma sede na Vila Madalena? Muitos grupos politicamente engajados não vivem na sua área de estudo e denúncia. Acredito que os atores, artistas, produtores e técnicos querem essa experiência. Aprende-se samba em escola? Quem faz o sambista é a vida.

O que está a caminho na Cia do Faroeste?
Em novembro estreamos Extremo Norte, sobre o jornalista Lúcio Flávio Pinto e seu Jornal Pessoal, em Belém do Pará. E voltamos com Luz Negra (que terá versão cinematográfica). A Prefeitura de São Paulo entrega, também em novembro, o Largo General Osório reformado, em frente à nossa sede e ao Ateliê Amarelinho, onde recebemos artistas para residência, ampliando a ocupação na rua. E se tudo der certo, em breve, a SPCine, estatal de cinema recém-criada pela Secretaria Municipal de Cultura, virá para a rua do cinema, a Rua do Triunfo, facilitando a volta de produtoras e artistas de cinema a essa rua que nunca foi santa. A nossa Boca do Lixo do cinema paulistano.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista