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Gabriela Rabelo: múltipla em meio século de teatro

Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Dramaturga, atriz, diretora e professora ,Gabriela Rabelo nasceu em Belo Horizonte, onde começou, com orientação de Haydée Bittencourt, a fazer teatro. Ainda bastante jovem, mudou-se para São Paulo e cursou a Escola de Arte Dramática(EAD), assim como Filosofia, na Universidade de São Paulo, na qual, anos mais tarde, obteria o título de doutora em Artes Cênicas. 
Ao longo de cinco décadas de carreira, recebeu os mais importantes prêmios teatrais do país, como APCA, APETESP e Mambembe.
Dentre os principais espetáculos em que atuou estão Bella Ciao, Uma Lição Longe Demais, Artaud - o Espírito do Teatro, Escola de Mulheres, Mockinpott, Ana Paz e Sopa de Pedra.
É autora, dentre outras peças, de Luiz Gama ou O Diabo Coxo, O Grande Grito, Viagem ao País dos Sonhos, O Sheik Branco, O Brilho Inútil das Estrelas (em parceria com Maria Helena Grembecki e José Rubens Siqueira) e Tronodocrono (em parceria com José Rubens Siqueira).
Na televisão, passou pela extinta TV Tupi, SBT, Globo e Cultura, onde também foi roteirista do programa Bambalalão, nos anos 80.
No cinema, participou de Ocorrência nº642/67, pelo qual recebeu o prêmio de melhor atriz, no Festival Jornal do Brasil-Mesbla, Boleiros 2, Linha de Passe, De Passagem e Marta de Tal.
 
Quando a descoberta do teatro?
Eu era adolescente. Uns doze anos, acredito. Fui ver “O Cavalinho Azul”, da Maria Clara Machado com o Tablado, do Rio de Janeiro. Lá em Belo Horizonte. Fiquei encantada com aquele mundo mágico que se revelou para mim. E pensei que gostaria de viver ali dentro. Daí apareceu a oportunidade de fazer teatro na igreja. Fui correndo. Gostei de ficar no palco e decidi que iria ser atriz. Entrei no curso de formação de atores da UFMG.

Como foram os primeiros anos de formação teatral, ainda em Belo Horizonte?
Fiz dois anos e meio do curso de formação de atores do Teatro Universitário, sob a direção de Haydée Bittencourt, essa pessoa e mestra maravilhosa. Era uma turma muito boa e ótimos professores.

A decisão de se mudar para S.Paulo, em 1964, a que se deveu?
Queria fazer teatro e isto era bem difícil lá em Belo Horizonte naquele período, sobretudo para uma mocinha. Havia uma resistência na família à profissão de atriz e ainda não havia um mercado de trabalho razoável para o exercício da profissão. Decidi vir para São Paulo e recomecei a estudar teatro na Escola de Arte Dramática, ainda sob a direção de Alfredo Mesquita. Aqui eu seria mais livre e poderia ser mais eu mesma.

Que momentos foram marcantes no período da Escola de Arte Dramática, na capital paulista? Dos professores da EAD, algum que tenha contribuído de modo especial em sua formação?
Como em toda escola, a composição da turma é muito importante para o aprendizado. E a minha, para minha sorte, era ótima: todos éramos muito Caxias, muito dedicados e com tendência para pensar o teatro coletivamente. Ajudávamo-nos em todos os trabalhos, nos dávamos bem e tínhamos prazer em estudar. Isso permitiu que trabalhássemos muito, porque a turma que era acima da nossa tinha dificuldades de relacionamento. Muitos foram saindo e a turma ficou bem pequena. Então nós éramos solicitados para participar de trabalhos deles, além de peças que eram experimentadas na Escola e que eram escritas pelos alunos de Dramaturgia e Crítica. Éramos pau pra toda obra. Teve um ano que fizemos doze peças. Isto é maravilhoso, não é?
Dos professores lembro-me muito de todos eles. Ainda hoje as recomendações que eles faziam me vêm à cabeça. Tive a sorte de poder fazer cursos paralelos, dentro da EAD mesmo. Um foi com o maravilhoso Anatol Rosenfeld. Ele era uma sumidade e, ao mesmo tempo, de uma simplicidade que nos dava vontade de ir sempre mais longe nos estudos. Porque levava os alunos a sério e, se dávamos uma opinião, perguntava o por quê dela. Com isso, nos levava a  ser mais consistentes no que falávamos. Antunes Filho, Silney Siqueira, Maria José de Carvalho, Paulo Mendonça, mestre Hugo (professor de esgrima), enfim, todos os professores me davam vontade de ir mais e mais longe no aprendizado de teatro.

Como foi parar no Teatro de Arena? O que merece destaque no período em que lá permaneceu? O que Augusto Boal deixou como ensinamento maior?
O Teatro de Arena surgiu de um convite que me fizeram, assim que eu saí da Escola de Arte Dramática, para participar do seu Núcleo 2 – que era um núcleo constituído por artistas jovens. Foi assim que entrei lá e fiz algumas peças com o núcleo jovem. O Boal logo me convidou para participar de uma montagem do Arena conta Tiradentes e viajar pelo interior. Foi uma delícia essa experiência. Era um elenco ótimo e nós vivíamos um momento em que havia muita efervescência no mundo artístico e também no meio estudantil, por toda parte, capital e interior. Era uma forma de resistirmos, também, à ditadura. A violência política convivia com uma grande transformação de costumes – estávamos na era hippie. A peça fazia um grande sucesso e provocava debates calorosos. Depois fui convidada para fazer uma peça do Brecht, dirigida também pelo Boal, O Círculo de Giz Caucasiano . Mas, no meio dos ensaios, eu fiquei grávida e um dos atores teve rubéola. Tive que me afastar do trabalho. Foi minha última experiência no Arena. Acabei não tendo muita convivência com o Boal. Tive mais contato com o Guarnieri, que era, como você sabe, um ator deslumbrante e um colega maravilhoso. No elenco estavam também Míriam Muniz, Sylvio Zilber, Célia Helena, e mais um punhado de gente boa e com mais experiência. Apesar de não ter tido, com esses, uma longa convivência, foi muito bom ver como eles faziam o seu trabalho.

O forte vínculo com o teatro francês contribuiu em que sentido? Como foi trabalhar com o Théâtre du Soleil?
O convite pra trabalhar no Soleil foi um presente que os deuses do teatro me deram. A companhia francesa estava fazendo um espetáculo belíssimo, Os Náufragos do Louca Esperança, que tinha uma parte grande de narração em off e que tinha que ser feita ao vivo, pois fazia parte do espetáculo como um personagem, ou seja, tinha que estar encaixada no espetáculo de forma viva, incorporando-se a ele, às mudanças, uma vez que é feito ao vivo. Essa narração era feita na língua do país onde o espetáculo se apresentava, o que facilitava o contato com o público. Fui para a França assistir o espetáculo em Nantes e ensaiar a narração com a atriz que o fazia em francês. Assisti, lá, a várias apresentações e voltei para o Brasil com o texto em francês e em português. E com o vídeo e a trilha sonora também. E aqui, durante um bom tempo, fiquei ensaiando em cima do material que tinha em mãos. Quando o grupo chegou ensaiamos juntos.Foi uma bênção participar da temporada em São Paulo, no Rio e no Rio Grande do Sul. O Théâtre du Soleil, graças à força, talento e dedicação de Ariane Mnouchkine e do grupo de pessoas que ela sabe reunir, consegue manter a chama que nos levou a escolher essa profissão. É um teatro feito com amor e com plena noção da responsabilidade e função social que o teatro tem. Foi bom demais ter trabalhado com todos eles.

Em que momento a certeza de que escrever dramaturgia, dirigir e dar aulas de teatro completavam o trabalho da atriz? A formação acadêmica contribuiu em algum sentido?
Ainda jovem, atriz comecei a dar aula de teatro para adolescentes (da quinta à sétima série), no Colégio Estadual Osvaldo Aranha, que fazia parte da Rede Vocacional de Ensino, um projeto educacional sensacional que a ditadura militar ceifou. Lá aprendi muita coisa, não só de teatro (aluno sempre ensina muito,especialmente crianças e jovens) mas também de pedagogia. Os alunos criavam coisas ótimas. Porém, o prazo de uma semana entre uma aula e outra fazia com que muita coisa criada se perdesse. Comecei a registrar o que eles faziam e a dar uma acabada, como texto, naquilo que era sugerido. Era um trabalho feito intuitivamente, mas que resultava em coisas muito boas e permitia que nosso trabalho fosse indo mais longe.Depois, por circunstâncias de vida, fui levada a escrever um texto, cujo embrião havia sido gerado com os alunos, para o Grupo Teatro da Cidade. A censura havia proibido a montagem de um texto criado pelo grupo e com dramaturgia do Carlos Queiroz Telles. Para resistirmos à pancada, resolvemos montar uma história que sugeri. Nasceu Nem Tudo Está Azul no País Azul, peça musical escrita para crianças. Foi um espetáculo lindo, com direção de Antônio Petrin, cenários de Naum Alves de Souza, música do Amilson Godoy e um elenco de primeira.
Na época, tive que sair do Brasil por questões políticas. Fui morar na França, onde continuei com o hábito de escrever, sem grandes veleidades, peças com as situações para os pais fazerem para os filhos, para as crianças da escola onde meu filho estudava. Voltei para o Brasil e mantive o hábito de sempre associar a escrita ao fazer teatro. Meu trabalho de atriz ficava no meio de tudo isto. Em toda minha vida fiz Teatro. Como eu brinco sempre, do alicerce ao telhado, topava tudo. E ainda topo. Amo esse território, onde o faz de conta é a verdade.O fato de estar sempre ligada ao universo da educação levou-me a continuar meus estudos. Mas não penso que o universo acadêmico seja uma “depuração” ou um “refinamento” do trabalho artístico. É apenas um dos caminhos para adquirir conhecimentos que são importantes para o ator.  A bagagem intelectual resulta do ato de pensar e do alimento de que esse ato se nutre. A academia não é a única fonte dessa nutrição. Nem a principal. O conhecimento resulta, fundamentalmente, do exercício permanente do pensamento. Ele é indispensável para a profissão do ator, mas pode ser adquirido de inúmeras formas. Pensar junto é melhor ainda. Nós nos alimentamos sempre do pensamento alheio. A digestão dele é que é pessoal.

Escrever para crianças traz algum retorno diferente daquele que os adultos oferecem?
Não. É a mesma coisa. Criança é só mais espontânea que o adulto. Dá pra sentir melhor a reação dela.

Receber alguns dos mais importantes prêmios teatrais brasileiros deu impulso à carreira?
Receber prêmio é sempre bom. Significa que alguém gostou de forma especial de seu trabalho. Mas não sei se dá impulso à carreira. Acho que isto depende mais da habilidade da pessoa de se promover, para um caminho mais individual de trabalho e de se manter na batalha e com bons companheiros, para um caminho mais coletivo.

O que ainda falta para o nosso cinema deslanchar?
Brigar mais e melhor com a indústria audiovisual estrangeira. É só você comparar quantas cópias entram em exibição de um filme americano com a função de ser sucesso e de um brasileiro independente. É uma briga de um piolho de Davi contra vinte Golias caçando o piolho, munidos de todos os artefatos de caça-piolhos existentes. Não entra em questão a qualidade do filme, mas a força que ambos têm na sua divulgação.

Ter feito poucos trabalhos em televisão foi desinteresse pelo que ela oferece?
Não foi desinteresse real, mas acredito que tenha investido mais minha energia em outra direção.

As leis de incentivo ao teatro têm dado conta da demanda? O projeto de montar Luiz Gama ou o Diabo Coxo, recentemente premiado, está de pé?
Nossas leis de incentivo são meio tortas. Tendem a obedecer aos interesses do patrocinador e não à arte. Embora seja um dinheiro público, uma vez que seu uso implica diminuição de recolhimento de impostos, sua gestão é privatizada. Uma grande empresa quer associar sua marca a uma outra que sugira sucesso. Trata-se de uma publicidade, não é?
Com isso, é mais difícil conseguir patrocínio para um espetáculo que tem como assunto uma pessoa como Luiz Gama, que apesar de ser um dos brasileiros mais ilustres de nossa história, é muito pouco conhecido. Negro, contestador dos escravocratas, dos imperialistas, da justiça de sua época, ex-escravo, é considerado ainda uma influência danosa pelos donos do poder (o que equivale a dizer os donos do dinheiro). É, também, uma peça que envolve um número considerável de atores. Mas continuamos, eu e um grupo de pessoas ótimas, a batalhar para sua realização. Torça para que encontremos o caminho, está bem?

A onda moralista que tem tomado conta do país, com a radicalização de posicionamentos políticos, é passageira ou há riscos em nossa ainda pueril democracia? O teatro tem que papel nesse sentido?
Vivemos os estertores (espero) de um sistema socioeconômico que não quer largar o osso do que já comeu. É um período em que ser moralista pode dar a sensação, para alguns, de que há uma retaguarda sólida nesse terreno de areias tão movediças. Faço parte dos que acreditam que o ser humano saberá encontrar uma saída saudável para essa crise. O teatro, pela função que tem de permitir que a sociedade veja a si mesma no palco, em grupo, como plateia, tem uma função importante. Lembra-se do Garcia Lorca? “Um povo que não tem teatro ou está morto ou está morrendo.”

Em mais de 50 anos nos palcos, quais as maiores emoções e decepções?
Não sei avaliar isso, porque não costumo guardar sentimentos ligados a coisas do passado. Eles estão sempre se renovando com as emoções e experiências presentes.

*Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.