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Maria Gomide: a arte sensível do grupo Carroça de Mamulengos


                                                    Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Primogênita de Carlos Gomide e Schirley França, que há quatro décadas percorrem o país com o grupo de teatro de bonecos Carroça de Mamulengos, Maria Gomide estreou no palco aos dois anos de idade e é hoje sua figura central, não só por seu imenso talento como atriz e cantora, mas também por estar à frente da gestão do grupo, que tem oferecido a seu público, tanto das grandes metrópoles quanto dos mais recônditos cantos do país, o que há de mais puro de nossa arte e cultura popular.

Pode nos contar um pouco sobre a história do grupo Carroça de Mamulengos?
Somos uma companhia de teatro que surgiu em 1977, em Brasília.Meu pai, Carlos Gomide, é o fundador da companhia. Quando ele saiu da casa dos pais, ainda adolescente, estava com o sonho de ser piloto de avião, mas esse sonho não deu certo. Creio, no entanto, que ele encontrou na arte outra forma de voar.

Como tem sido, ao longo de quatro décadas, sobreviver fazendo teatro de bonecos por todo país, inclusive em seus pontos mais distantes, no mais das vezes sem qualquer patrocínio? O que fundamentalmente sustenta o grupo?
O que nos sustenta todos os dias é a fé na vida, através da arte. Viver de arte no Brasil é um ato de fé. Temos que acreditar todos os dias e seguir fazendo o que acreditamos. Vivemos sem patrocínio, trabalhamos com projetos, editais, espetáculos avulsos, parcerias com instituições públicas ou privadas e, assim, vamos vivendo e sobrevivendo da arte. Cresci com meu pai dizendo que o que move o trabalho é o trabalho. Vejo que estar sempre fazendo arte, viajando pelo país, é o que mantém o Carroça sempre em movimento. Um espetáculo chama outro. É triste quando ficamos muito tempo sem apresentar nossa arte, não apenas pelos problemas financeiros que isso traz para sobrevivermos, mas principalmente pela saudade do picadeiro, que faz o coração ficar de cor cinza.

Os espetáculos do grupo são compostos coletivamente ou há alguém que se encarregue disso? Há funções bem definidas entre os integrantes do grupo?
Cada um tem o seu lugar ou está em busca de construir (no caso dos integrantes mais novos). Quem cria arte é quem tem o dom para isso, a janela da imaginação aberta. Mas uma companhia não vive apenas de sua criação artística, há um trabalho burocrático de produção, planejamento, articulação para contratos, o que dá um trabalho gigante, chato de fazer, pois estressa, mas tem que haver no grupo alguém que assuma essa função. Há também quem cuide do patrimônio cênico, fazendo a manutenção dos bonecos, figurinos, caixas e equipamentos. Enfim, creio que é esse conjunto de ações que faz a companhia existir há tanto tempo.

Como é trabalhar em família e superar eventuais diferenças e interesses?
É um desafio diário, pois somos uma família numerosa. Até poucos meses, morávamos todos na mesma casa. Temos integrantes de todas as idades. Nesse momento, quatro adolescentes, cada um vivendo sua fase da vida dentro de uma companhia que exige comprometimento, certezas e disciplina. Vivemos conflitos, o que é natural. Recentemente, dois dos integrantes decidiram respirar outros ares, em busca de descobrir o que realmente desejam fazer na vida. Somos oito filhos de uma companhia de teatro. Não escolhemos fazer arte. Digo sempre que fomos escolhidos. A todos é permitido buscar novas profissões, embora não seja uma escolha fácil, visto o tamanho da pressão, da expectativa que existe em cima de nossa família.

Que momentos do Carroça de Mamulengos foram mais marcantes? Há espetáculos que despertem mais prazer em realizar?
Há vários momentos marcantes posso descrever alguns. Em 1979, quando meu pai viajou pela primeira vez ao Nordeste para conhecer o mestre Antonio do Babau e se formar mamulengueiro. Em 1981, quando meu pai conheceu minha mãe, em Brasília, e a companhia começou a se formar como uma família. Em 1984, quando meus pais foram para Juazeiro do Norte e influenciados pela cultura do Cariri trouxeram novas perspectivas a nosso trabalho, o que perdura até hoje. Eu nasci nesse ano, em Natal, e meus pais decidiram me criar em cena. Eles nunca deixaram de viajar por causa dos filhos. Nós sempre os acompanhamos em todas as andanças pelo país. Em 1987, nasceu meu irmão Antonio, no Crato. Em 1990, Francisco. Em 1992, João, em Brasília, mesmo ano em que, numa temporada no Rio de Janeiro, começamos a abrir o campo de trabalho na cidade, com a criação de muitos personagens clássicos de nossos espetáculos, que estão em cena até hoje. Em 1996, nasceram os gêmeos Pedro e Matheus, em Fortaleza. E em João Pessoa gravamos o cd Alumiação, um marco na musicalidade do grupo. No ano seguinte, a televisão nos descobriu e as participações nos programas do Gugu e do Jô Soares, então no SBT, trouxeram grande divulgação de nosso trabalho. Foi quando passamos a ter um produtor e nos fixamos no Rio de Janeiro. Em 1998, nasceram Isabel e Luzia, em Brasília. Em 2000, o Carroça comprou o Brasilino, nome que demos ao ônibus que por quase duas décadas nos transportou país afora, realizando o sonho de termos transporte próprio. Em 2002, após 12 anos sem voltar ao Nordeste, como uma sina da Asa Branca, conseguimos voltar a Juazeiro do Norte. Criamos, então, a União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus, um importante movimento junto aos grupos de tradição popular da cidade. Em 2007, meus pais se separaram e eu assumi a criação e a produção dos trabalhos. Trêa anos mais tarde, em 2010, montamos o espetáculo Felinda, aclamado pelo público e pela crítica. Em 2013, foi a vez de  Pano de Roda. No ano passado, um acidente nas estradas do Mato Grosso nos fez perder o nosso ônibus, o Brasilino, recém-reformado (estava novinho em folha). Acho que foi o primeiro ônibus que conseguiu segurar uma carreta desgovernada pela frente, salvando a todos nós, antes de virar um anjo no céu.  Nesta ano, estamos morando pela primeira vez em Minas Gerais, na cidade de Rio Acima, há 30km de Belo Horizonte. Vivemos um novo momento, com integrantes do grupo estudando pedagogia, medicina chinesa, aromatologia, contabilidade e permacultura. Ou seja, seguimos buscando fazer o que cada tempo pede que seja feito.

O interior do Brasil, especialmente das regiões Norte e Nordeste, tem sido a fonte inspiradora do Carroça de Mamulengos. É ali que está o maior repositório de cultura popular de nosso país?
A cultura está mais viva onde as pessoas têm mais tempo para viver. Em uma vida corrida, recheada de estresse e ansiedade, fica mais difícil brincar, cantar, imaginar. Já foi o tempo em que a correria era uma característica da vida urbana, em que no interior do país as pessoas tinham mais tempo para as conversas no fundo do quintal. Mas o Nordeste é sim uma região de grande criatividade. Muitos gênios da arte brasileira são nordestinos. É uma terra de gente que desenvolve desde cedo a criatividade como forma de sobrevivência. Temos uma ligação forte com o Nordeste, quase todos os filhos do Carroça são nordestinos. Temos a cultura popular brasileira como fonte de inspiração, é a ponta do fio, pois como disse Guimarães Rosa, “o sertão é o mundo todo”. E através da cultura de um povo, encontramos símbolos universais.

É possível resistir aos efeitos da pasteurização da arte, através das grandes mídias, e continuar fazendo um trabalho desvinculado da indústria cultural, na contramão de quase tudo que está aí?
Internamente, sim, pois desligamos a tv e ligamos a imaginação (rs).  O simples nunca esteve tão na moda. O mundo tecnológico é frio.  Por todos os lugares, vejo pessoas carentes de afeto, vivendo de carinhos virtuais. A arte que fazemos é simples. Em cena, está o nosso coração e por isso ela é quente. Faço arte, porque foi o caminho que encontrei para me sentir viva e acreditar que a humanidade tem salvação.

Há anos o Carroça batalha por uma sede na região do Cariri, no Ceará. O que é esse projeto e como ele tem caminhado?
Temos uma relação profunda com o Cariri. De um lado, buscamos sempre que possível estar na região, de outro temos a dificuldade de sobreviver com nossa arte no Nordeste, algo praticamente impossível. Estamos sempre indo e voltando, buscando um meio de ficar mais tempo por lá. É uma região que nos desafia, pois é um celeiro de memória vivas e o Carroça, sendo uma companhia militante da arte,  está sempre se desafiando a desenvolver práticas que auxiliem a continuidade das tradições populares nas gerações futuras. A velocidade tecnológica avança muitas vezes anulando a diversidade que tanto enriquece o nosso país. Este ano, vamos fazer a nossa quarta turnê pelo Cariri, circulando por dez cidades da região, com espetáculos e oficinas.

Vê alguma diferença de reação do público que assiste aos espetáculos do grupo nas grandes cidades e nos vilarejos mais distantes? Quem reage  mais intensamente, a criança ou o adulto?
Sempre nos fazem essa pergunta, pois há diferenças de cultura, de vocabulário. Um lugar pode se relacionar com um boneco boi ou uma máscara negra de uma forma diferente de outro. Buscamos fazer um espetáculo sem muitos regionalismos, de modo que hoje podemos estar no Sul ou no Norte, com crianças ou adultos na platéia e sem distinção viver juntos um momento de beleza.

*Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.