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Ithamara Koorax : uma cantora brasileira entre as melhores do mundo

                                                          Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Em 30 anos de carreira, Ithamara Koorax figura entre as melhores cantoras de jazz do mundo, numa respeitada votação de destacados críticos para a revista DownBeat, dos Estados Unidos, embora não goste da idéia de ser lembrada apenas como intérprete de jazz, pois sua formação e influências vão muito além dele. Na entrevista que segue, temos seu aguçado senso crítico quanto ao cenário musical brasileiro contemporâneo e suas lembranças de amigos como Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá e Elizeth Cardoso, dentre tantos outros nomes que tiveram significado especial em sua formação.

A arte necessita dos nossos sentidos para ser percebida. Em que momento de sua vida a arte musical foi sentida, impelindo-a à carreira profissional?
Não sei precisar o momento específico, mas deve ter sido um somatório de várias fases. Estudei piano clássico por oito anos, harmonia, solfejo, canto. Um dia ganhei o disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, com músicas de Tom Jobim e participação do João Gilberto. Ali senti um click. Não coincidentemente, anos mais tarde, Elizeth se tornou minha madrinha artística e me convidou a gravar com ela, no cd Ary Amoroso. E Tom me deu muita força no início da carreira, autorizando a inclusão de três músicas em meu cd de estreia, Ithamara Ao Vivo, de 1993, e participando do segundo, Rio Vermelho, de 1994. João continua sendo um grande incentivador, o mestre, a luz maior, a quem dediquei, em 2009, o cd Bim Bom – The Complete João Gilberto Songbook. Esta junção Elizeth-Tom-João é forte demais para ser apenas coincidência ou presságio. Mas voltando ao início da sua pergunta: a partir do final da adolescência, eu realmente estava decidida a seguir carreira como cantora popular, mas acabei casando muito cedo, mais para fugir de casa do que por amor. E meu ex-marido brecou meu desejo o mais que pôde. Mesmo assim, eu cantava em reuniões de amigos, dava canjas, e cheguei a fazer backing-vocal para Tim Maia e Bebeto, mas somente iniciei a carreira profissional após me divorciar. Deixei meu marido abraçado às garrafas de vodca no meu apartamento em Niterói, aluguei outro no Rio e disse para mim mesma: “agora ou nunca”. Estreei meu primeiro show, em janeiro de 1990, na casa noturna Rio Jazz Club, no Rio de Janeiro, e foi um sucesso absoluto.

Que interpretes foram relevantes em sua formação como cantora?
Eu ouvia muita gente, de variados estilos. Na MPB, Elizeth Cardoso, Tom Jobim, João Gilberto, Elis Regina, Doris Monteiro, Stellinha Egg, Dilu Mello, Vanja Orico, Chico Buarque, Maria Bethania, Gal Costa. Adorava Barbra Streisand, Frank Sinatra, Michel Legrand, e depois descobri o jazz através dos discos de Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald para a Pablo. Gostava muito também de cantoras mais modernas como Flora Purim e Urszula Dudziak, e de um grupo de rock muito sofisticado, chamado Blood Sweat & Tears. Tudo isso na minha infância e adolescência. Devo ter assimilado “coisas” de cada um, inconscientemente. Nunca me dediquei a ficar “estudando” alguém em particular. As pessoas que me influenciaram conscientemente surgiram na minha vida depois que a carreira solo já havia se iniciado. Cantoras como Shirley Horn, Helen Merrill, Rachelle Ferrell e a minha cantora brasileira favorita, Clelia Simone. E principalmente instrumentistas, como os trompetistas Miles Davis, Randy Brecker, Freddie Hubbard e Lew Soloff, o vibrafonista Milt Jackson e os bateristas Steve Gadd, Billy Cobham, Airto Moreira e Dom Um Romão. Quando Dom Um fez parte da minha banda, entre 1997 e 2005, eu me aprimorei tremendamente, a qualidade do meu fraseado alcançou outro patamar. A convivência quase diária com o genial compositor e violonista Luiz Bonfá, meu vizinho na Barra da Tijuca, entre 1991 e 2001, foi uma benção divina. E tive também a influência de Hermeto Pascoal, com quem aprendi que os ritmos podem ser regionais, mas a música é universal. Sem falar de arranjadores como Don Sebesky, Claus Ogerman e Mario Castro-Neves, que me ensinaram a importância do silêncio como elemento musical, e também das nuances, das variações de densidade para evitar um padrão monocromático de interpretação.

Há mais de uma década você tem figurado entre as melhores cantoras de jazz do mundo, ao lado de Diana Krall e Cassandra Wilson. É possível  definir a sensação de estar entre elas?
Por dois anos seguidos, em 2008 e 2009, eu fui eleita a terceira melhor cantora de jazz do mundo na votação dos leitores da revista DownBeat, considerada a bíblia do jazz. Mas há vários anos eles me colocam entre as dez melhores. Às vezes em quarto lugar, depois em quinto, oitavo, décimo. A colocação não importa, porque música não é competição. Mas o legal é estar lá. É estimulante ver que a DownBeat segue apoiando minha carreira há mais de uma década, que publicou uma entrevista sobre meu novo disco, Got To Be Real, na edição de novembro de 2012. O reconhecimento de outras revistas, como a francesa Jazz Hot, a inglesa Jazz Journal, a suíça Jazz ‘n’ More, a japonesa Swing Journal e a coreana Jazz People  também foi muito importante para a minha carreira internacional.  Mas no Brasil o rótulo de cantora de jazz só atrapalhou. Foi e continua sendo de um prejuízo incalculável, porque serve de pretexto para certos produtores de shows taxarem meu trabalho de elitista ou impopular. É um inferno, uma maldição. “Vamos chamar a Ithamara para o festival de verão do Rio”? “De jeito nenhum, o trabalho dela é muito sofisticado”. “Vamos convidar a Ithamara para um show em homenagem ao Martinho da Vila”? “Nem pensar, ela é cantora de jazz”. E assim eu vou sendo excluída de tudo. O pior é que ainda acham que eu me auto-rotulei cantora de jazz. Eu jamais faria isso, embora admita que no início eu gostei, porque significava que havia alcançado um alto grau de respeito no exterior. Estar ao lado de Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald em compilações é uma honra imensa. Ser citada em vários livros de críticos importantes também. Mas no Brasil foi a pior coisa que poderia ter me acontecido, só restringiu a minha carreira. Eu preparo um show inteiramente de MPB cantando Dorival Caymmi, Baden Powell e Dolores Duran, que não tem nada, absolutamente nada de jazz, e sai na imprensa: “A cantora de jazz Ithamara Koorax apresenta hoje um tributo a Caymmi, Baden e Dolores”! Eu não aguento mais isso.

Diante do enorme número de cantoras surgidas nos últimos tempos,  que proporção delas têm qualidade para se manterem no mercado musical?
É uma questão delicada e não posso nem quero ser antiética. Mas qualquer pessoa pode fazer uma pesquisa para ver quantas cantoras que começaram na mesma época que eu restaram. Nove entre dez sumiram de cena, desistiram. A mass media (mídia de massa) faz questão de ditar modismos o tempo inteiro no Brasil, inventa uma nova revelação a cada semana, e não há quem resista a isso. Quem não está no esquema sofre muito, tem que matar um leão por dia. Eu faço uma média de 100 shows por ano, só esta semana, por exemplo, foram quatro, e este ano já estou no número 91. Gravei 15 discos em 22 anos de carreira, participei de outros 200, fiz oito trilhas para filmes, emplaquei dez músicas em trilhas de novelas da Rede Globo. Os shows estão sempre lotados, como você viu no Auditório Ibirapuera, em setembro. Até do Domingão do Faustão eu já participei. Me chamaram para cantar duas músicas, mas acabei cantando seis e ficando 17 minutos no ar, porque o Ibope não parava de subir. Só que ir ao Faustão uma vez não muda nada, porque tem gente que vai toda semana. Aí as pessoas, com as melhores das intenções, escrevem: “Pouco conhecida no Brasil...” ou “Apesar de não fazer o sucesso que merecia...” Eu não aguento mais ler isso. É um mantra negativo tremendo. Se as pessoas ficam repetindo isso o tempo inteiro, não adianta nada eu lotar 100 shows nem gravar mil discos. Posso até assumir a artilharia do campeonato brasileiro e ser ovacionada no Maracanã, que todo mundo continuará repetindo: “apesar de ter se tornado a artilheira do campeonato, Ithamara permanece pouco conhecida no Brasil...” É dose!  

Você recebeu o prêmio de cantora revelação, em 1990, pela Associação Paulista de Críticos de Arte, e, em seguida, o prêmio Sharp, como cantora revelação de MPB. Qual o significado destas premiações logo no início de sua carreira? 
Serei mais uma vez muito franca: todas as premiações atrapalham, muito mais do que ajudam. Depois do rótulo de “cantora de jazz” é a pior coisa que existe. Só provoca inveja, rancor, ressentimento. Quando o meu escritório recebe pedido de material para concorrer a algum prêmio, já sabe que é para polidamente recusar. Os maiores e únicos prêmios importantes eu já recebi: ter trabalhado com Jobim, Bonfá, Elizeth, Ron Carter, Dave Brubeck, Claus Ogerman, Edu Lobo, João Donato, Larry Coryell, John McLaughlin, Gonzalo Rubalcaba, Raul de Souza, Dom Um Romão, Jay Berliner, Sadao Watanabe, Mario Castro-Neves, os grupos Azymuth e Os Cariocas. A lista, felizmente, é imensa, uma dádiva de Deus.
Como é seu processo de escolha de repertório?
É guiado exclusivamente pelo meu coração, pela minha sensibilidade. Nunca corri atrás de gravadora, nunca alguém mandou na minha carreira. E, obviamente, conquistei mais alguns inimigos com esta postura. Quando assinei contratos com empresas como Universal e Som Livre, por exemplo, elas é que me procuraram, interessadas em distribuir, no Brasil, trabalhos já lançados e aclamados no exterior.

Em mais de 20 anos de carreira, em algum momento houve a ideia de parar?
Por enquanto, não. Ainda tenho muitos sonhos, embora seja uma pessoa realizada artisticamente.

Alguns artistas afirmam existir considerável diferença entre o público brasileiro e o estrangeiro. Dizem que o público brasileiro é  mais próximo e afetuoso. Você concorda?
Concordo. O público brasileiro sempre me tratou com enorme carinho e respeito.

Não podemos negar o grande avanço tecnológico de nossos dias, a ponto de permitir a prática do download gratuito de álbuns de artistas. Como vê as conseqüências disso e a questão dos direitos autorais?
Para mim não mudou quase nada. O problema maior é para             os compositores, que acabam muito prejudicados.
Vê alguma necessidade de mudança na indústria fonográfica?
Agora não há mais necessidade de mudança alguma, porque a indústria já acabou. Há algumas semanas a EMI foi comprada pela Sony, que já tinha comprado a BMG, que era a antiga RCA. Ou seja, agora restam duas grandes empresas: a Sony e a Universal. Uma delas vai acabar comprando a outra daqui a pouco, e se transformará em um museu de fonogramas. Todo o material que já foi digitalizado continuará sendo pirateado através dos downloads ilegais, e o que não chegou a ser convertido para arquivos digitais, irá simplesmente desaparecer.

Acredita na influência instigadora da música sobre a índole do ser humano, conforme defendem alguns teóricos da música?
Claro!

O que mais ouve em casa?
Bill Evans, Milt Jackson, Chick Corea, Eugen Cicero, Friedrich Gulda, Lalo Schifrin, Dave Brubeck, Hermeto, muito Miles Davis, sempre. Recentemente, tenho ouvido bastante os trabalhos fantásticos de Laura Finocchiaro, Rubens Lisboa, da dupla baiana Palmyra & Levita e nunca paro de aprender com as gravações que a maravilhosa cantora paulista Clélia Simone fez ao lado do Zimbo Trio, nos anos 70.

 Há barreiras entre a música clássica e a popular?
Não acredito em barreira alguma, em se tratando de música e de arte em geral. A chamada música clássica era a música popular de sua época. Eu mesma transito entre estas supostas fronteiras sem precisar apresentar passaporte. Amo fazer concertos clássicos, nos quais canto desde Vocalise, de Rachmaninoff, até Tagore Lieder, de Claus Ogerman. Adoro cantar com orquestras sinfônicas! E, muitas vezes, dispenso o microfone, se o teatro tem uma boa acústica. Mesmo nos shows de música popular, às vezes termino cantando Manhã de Carnaval, do Luiz Bonfá e Antonio Maria, ou Disritmia, do Martinho da Vila, sem microfone.

Vale a pena fazer música de qualidade no Brasil?
Claro que não! (rsrsrsrs).

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.