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Fernando Kinas: o papel de um teatro crítico

                                                           Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

O dramaturgo, diretor teatral, cineasta e professor Fernando Kinas nasceu em Joinville, SC. Graduado em Psicologia, é doutor em Artes Cênicas pela Sorbonne e Universidade de São Paulo. Professor de teatro, cinema, rádio e tv em universidades paulistas e paranaenses, fundou, nos anos 90, a Kiwi Companhia de Teatro, na qual encenou, dentre outros, textos de Samuel Beckett, Nelson Rodrigues, Franz Kafka, Pier Paolo Pasolini, Hilda Hilst, Heiner Müller e Shakespeare, além de vários trabalhos de sua autoria, como Manual de Autodefesa Intelectual, Casulo e R. No cinema foi premiado por Cartas da Mãe, sobre o cartunista Henfil. Sua produção tem sido marcada por profunda e contundente abordagem social do mundo moderno, trazendo ao palco e às telas questionamentos mais que oportunos sobre nossos descaminhos.

Quando a descoberta do teatro?
Na infância, assistindo a grupos amadores. Na adolescência, percebendo que o faz-de-conta era uma das formas de entender e responder ao mundo.

A formação em Psicologia tem colaborado com o dramaturgo?
É provável, afinal, foram cinco anos de formação (espero que não tenham sido em vão). Mas as conexões não são muito diretas. É possível que o cinema e até mesmo o xadrez, além dos cômicos populares, tenham mais importância.

Dos anos passados na França para estudar teatro, o que destaca como mais significativo?
Ampliar os horizontes, certamente. Mas, para além de conhecimentos específicos, uma forma de perceber a aventura do pensamento e de encarar os desafios intelectuais.

A experiência no magistério tem valido a pena?
Eu interrompi há alguns anos minha vida como professor regular, mas é uma experiência muito importante, para socializar, enriquecer e organizar o conhecimento.

Como tem sido levar alguns dos principais nomes da filosofia para os palcos?
Estimulante e eu espero que socialmente relevante. Pensar em cena pode ser uma divisa do nosso trabalho.

E ter adaptado Um artista da fome, de Kafka?
Foi um trabalho muito rico. Não apenas porque trabalhei com um dos autores mais complexos do século vinte, mas porque tive parceiros como o Clóvis Inocêncio, ator que vive na Suíça, um grande amigo que lamento não encontrar mais frequentemente. Kafka, para mim, e nesta montagem em particular, concentra alguns dos temas que são muito caros, como o debate sobre a necessidade da arte.

O cenário teatral no Brasil vive um bom momento? As leis de incentivo à cultura têm cumprido seu papel?
Decididamente, não! Embora haja muita gente trabalhando com energia e fazendo das tripas coração para não sucumbir às regras de mercado, à vulgaridade do gosto médio e à mediocridade política. Quanto às leis de incentivo, que são, em grande maioria, de renúncia fiscal, elas representam a vanguarda do atraso. Experiências, mesmo que pontuais, como a Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, são exceções que precisariam ser estudadas e tomadas como ponto de partida para a formulação de uma autêntica política pública cultural.

O teatro meramente comercial merece espaço?
O teatro com ambição artística e política merece espaço, não por ele mesmo e para os artistas que o produzem, mas para a construção de uma sociedade em que valha a pena viver.

Como surgiu a Companhia Kiwi de Teatro e quais seus objetivos maiores?
Surgiu no final de 1996, logo depois que eu voltei de um período de estudos na França. Nosso objetivo principal é o de pensar e fazer um tipo de teatro que investigue criticamente importantes temas civilizacionais, debata a formação social brasileira e ao mesmo tempo se interrogue sobre seu papel.

O espetáculo mais recente da Companhia Kiwi, Manual de Autodefesa Intelectual, pode ser entendido como bem-humorada resposta ao pensamento raso, movido pelo engodo, com que a humanidade tem caminhado? De onde a ideia de realizá-lo?
Uma delas foi responder ao que você chamou de ”pensamento raso” e ”engodo”.

Que papel tem tido o cinema na trajetória do dramaturgo?

Fundamental. O cinema é um manancial inesgotável de ideias formais e de conteúdo. Embora ultimamente eu vá menos ao cinema do que gostaria, continuo sendo um cinéfilo.

A crítica teatral produzida entre nós tem qualidade e dá conta do que temos feito de melhor nos palcos?
Não, de forma geral ela está atrasada em relação ao que está sendo feito nas outras áreas do teatro. O problema, é importante destacar, não é individual, não diz respeito apenas aos jornalistas, mas ao sistema geral de produção de informações (formação ruim, remuneração baixa, falta de espaço nos jornais, rebaixamento intelectual, pressões editoriais, espetacularização etc.).

Os prêmios teatrais têm sido idôneos?
Não tenho informação suficiente para avaliar. Mas posso dizer que premiação na área artística é algo muito complexo. Para além das aberrações, como o Prêmio Shell, uma multinacional que apóia ditaduras, destrói o meio ambiente e persegue sindicalistas, há sempre o risco de comissões menos felizes, do compadrio e das acomodações.

Considerando que mais de 80% dos brasileiros nunca pisaram num teatro, algo a fazer a curto prazo?
Se, de fato, arte e cultura são direitos sociais, porque respondem a necessidades fundamentais da população, é preciso investimento de verdade e continuado nestas áreas.

O que dizer da televisão em nosso país? Algum interesse em se envolver com ela?
Junto com as religiões e não apenas as neopentecostais, a televisão e o oligopólio da mídia são grandes problemas nacionais. Evidentemente, eles precisam ser compreendidos no contexto de uma sociedade capitalista com brutal desigualdade de renda e baixíssima qualidade da educação. Envolvimento com ela? Tá difícil…
 
Projetos novos em desenvolvimento?
Sim, especialmente um sobre a noção de desumanização
, a partir de textos que refletem sobre o colonialismo, o holocausto e as novas formas de exploração e opressão, vide a tragédia anunciada dos imigrantes e refugiados em todo o mundo.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.