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Sérgio Mamberti: o teatro como ato de doação

Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Ao longo de seis décadas de carreira, Sérgio Mamberti consolidou-se com um dos maiores atores brasileiros, não só por ter recebido todos os prêmios mais importantes do teatro brasileiro (Molière Saci, APCA e Mambembe, dentre tantos outros) mas, sobretudo, pela imensa empatia com o público, por ter encarnado personagens inesquecíveis da dramaturgia nacional e estrangeira, no teatro, televisão e cinema. Paralela à incansável atuação como ator, encontramos a sua atuação política, no Ministério da Cultura, durante os dois governos do presidente Lula e sua militância no Partido dos Trabalhadores, desde a sua fundação.

Que recordações da infância guarda o filho de Ítalo e Maria José Mamberti. E irmão de Cláudio?
Minha infância em Santos foi muito rica de vivências marcantes. Não só através da minha vida familiar, por meio de uma mãe que era professora em escolas localizadas em bairros com população carente, que via na educação o instrumento decisivo para a construção de um novo Brasil. E de um pai que, como diretor social de um clube, considerava as atividades esportivas, culturais e artísticas sob sua responsabilidade como elementos formadores de uma sociedade mais justa e mais igualitária. Meu irmão Claudio participava de tudo e era meu parceiro nesse aprendizado. Apesar de termos nascido em meio à Segunda Guerra Mundial, justamente por isso participamos intensamente dos anseios de então, de vencermos essa luta e construirmos um mundo melhor.

Em que momento da vida o encontro com o teatro?
Sempre assistíamos espetáculos de teatro em Santos e São Paulo, levados por meus pais ou meus professores, mas meu encontro determinante deu-se na Aliança Francesa de Santos. Em 1956, fui convidado a fazer parte do grupo teatral ali existente, estreando com o texto Révélation, de autoria de Tristan Bernard, representando em francês. Foi um passo fundamental para que eu percebesse claramente que a partir daquele momento o teatro passaria a ter um papel determinante para o resto da minha vida.

Qual o significado da Escola de Arte Dramática em sua formação? Alguma lembrança especial daquela época?
Conheci a Escola de Arte Dramática de São Paulo mais ou menos na mesmo época em que comecei a fazer teatro, através de uma palestra ilustrada, ministrada pelo doutor Alfredo Mesquita, seu criador e diretor, que me deixou fascinado com a possibilidade de poder cursá-la, quando terminasse meus estudos em Santos. Em 1957, me formei no segundo grau, no Colégio Estadual Canadá, e fui morar em São Paulo, para fazer o cursinho preparatório ao vestibular da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), mas também prestar exame para ingressar na EAD. Em 1958, fui aprovado e ali estudei durante quatro anos no curso de interpretação, uma das experiências mais férteis de toda a minha vida, me formando em 1962. Na EAD convivi e aprendi com grandes mestres, compartilhando com meus colegas de turma desse aprendizado de alta qualificação, amadurecendo minhas perspectivas e direcionando minha carreira, que no ano próximo completa 60 anos. Ali, participei também de todas as atividades que compõem o ofício de ator. Além de estudar interpretação nas mãos de mestres como Alfredo Mesquita e Alberto D’Aversa, aprendíamos iluminação, cenografia, figurinos, tínhamos cursos de voz, esgrima, música e expressão corporal. Éramos preparados para enfrentar nossa árdua carreira. Foi inesquecível a minha participação como figurante em temporadas no Theatro Municipal de São Paulo, em companhias internacionais como a Comédie-Française o Teatro Nacional Popular, de Jean Villar, a trupe de Jean Louis Barrault e também de companhias italianas e americanas que por aqui passavam, ao lado de figuras exponenciais da cena teatral internacional.

Em tempos de pesada censura, como foi atuar em O Balcão e receber elogios de Jean Genet?
Foi um dos momentos mais importantes e criativos da minha trajetória teatral. Apesar da pesada censura imposta pelo regime militar naqueles anos após o Ato Institucional nº5, que se constituiu num aprofundamento mais radical do golpe de 64, com o fechamento do Congresso e imposições mais severas por parte dos mecanismos de censura do regime às liberdades fundamentais, conseguimos, apesar disso, tudo vencer com nossa firme resistência, ao arbítrio e à mão pesada e implacável da censura, realizando integralmente um dos espetáculos mais brilhantes do teatro ocidental no Brasil e no mundo. O Balcão, de Jean Genet, estreou, finalmente, em dezembro de 69, depois de uma longa batalha para concretizar sua montagem e liberar a obra perante a censura, sob a direção de Victor Garcia, um diretor argentino radicado em Paris. A  convite da atriz e produtora Ruth Escobar, ele conseguiu reunir um elenco numeroso, formado por artistas consagrados e jovens atores, atuando numa cenografia monumental e inusitada que praticamente demoliu a antiga Sala Gil Vicente, para erigir uma torre de ferro batido, no formato de um cone em posição invertida, criando no seu interior um espaço vertical para receber o espetáculo. Elevadores e balanços serviam de apoio para os artistas, diante de uma plateia atônita que ali se acomodava todas as noites, em torno desse espaço inovador, para compartilhar a encenação da obra de Jean Genet, que revolucionou a cena teatral do século XX. Durante a visita do autor a São Paulo, depois dele ter visto a peça, a atriz e produtora Ruth Escobar ofereceu uma recepção na casa dela e convidou artistas e intelectuais para conhecê-lo. Foi então que ele pediu a ela que eu fosse vê-lo numa sala onde se encontrava e privadamente me fez um comentário que foi de um dos maiores elogios que recebi como ator. Ele me disse que havia visto inúmeras montagens de seu texto pelo mundo, em várias línguas, mas que a minha interpretação do juiz ele considerava ser a mais próxima da sua concepção original e que o juiz era seu personagem favorito em O Balcão. Ouvir isso de um mito como ele, foi um presente de valor inestimável, que jamais pude esquecer.

Atribui aos prêmios que recebeu algum impulso na carreira?
Um artista trabalha e elabora seus personagens pela dedicação ao seu ofício e para oferecer ao público o melhor de sua criação. É quase um ato de doação, pois ele empresta ao personagem sua vivência, sua voz e sua emoção e manifesta sua absoluta entrega a essa missão. Os prêmios vêm como reconhecimento da qualidade do seu trabalho, a repercussão na crítica e no seu público, mas não são em si seu maior objetivo. No entanto, reconheço que os prêmios dão um brilho especial e um sentido de profunda realização profissional do ator e, sem a menor dúvida, podem impulsionar sua carreira.

Perdemos em 2015 duas figuras primordiais no teatro brasileiro: Barbara Heliodora e Antonio Abujamra, com as quais se vinculou estreitamente. Que recordações tem de ambos?
A perda de Antônio Abujamra e de Barbara Heliodora, recentemente, deixa uma grande lacuna no universo teatral, pelo destaque de suas criações e pela imensa contribuição que trouxeram à cena teatral brasileira. Pelo talento e suas brilhantes realizações em vários campos, a presença deles marcou toda uma época, pela importância cultural e artística de suas trajetórias. No meu caso específico, Abujamra foi um grande mestre, pois foi pelas suas mãos que estreei no teatro profissional, no espetáculo Antigone América, da autoria de Carlos Henrique Escobar, numa das primeiras produções de Ruth Escobar, ao lado de meu irmão Claudio Mamberti e de Dina Sfat, que ali também iniciavam suas carreiras. Fundamos, em seguida, o Grupo Decisão, onde permaneci por três anos, participando de todas as montagens como Terror e Miséria do III Reich, com Glauce Rocha, com quem fiz, mais tarde, Electr,  de Sófocles, que ainda contava no elenco com a extraordinária Margarida Rey. Mas foi a montagem de O Inoportuno, do autor inglês Harold Pinter e direção de Abu, que ganhei o Prêmio Saci de ator coadjuvante, em 1964, que era o maior prêmio para as artes no Brasil, dado pelo jornal O Estado de S.Paulo. Foi também através desse espetáculo, na sua temporada carioca, que conheci a crítica Barbara Heliodora, que escreveu favoravelmente sobre a qualidade do nosso trabalho, abrindo portas para a continuidade do Grupo Decisão e suas futuras montagens. É pública e notória a dedicação dela à obra de Willian Shakespeare, mas sua presença no universo artístico e cultural brasileiro, vai bem além dessa especialização na obra do bardo inglês. Foi também através de Abujamra, que iniciei uma longa trajetória de importantes atuações na TV Cultura, nos teleteatros, telecontos e telecursos, culminando com o magnífico Castelo Rá-Tim-Bum, sob o comando de Cao Hamburger, vivendo o inesquecível Dr. Victor, que formou várias gerações nesses últimos 20 anos. A exposição comemorativa do Castelo, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, movimentou por volta de 400 mil pessoas, no ano passado. A TV Cultura é pioneira em ter uma programação de ótima qualidade, voltada para a criança, em vários outros programas e foi também através da iniciativa de Antonio Abujamra que fez seu primeiro programa para o público infantil, o Curumim, realizado no final da década de 80, protagonizado por mim e pela atriz Nilda Maria. Barbara Heliodora e Antônio Abujamra, não por acaso amigos de longos anos, foram incansáveis na sua missão de criadores e pensadores do teatro brasileiro, deixando um legado expressivo que se perpetua pela importância de sua contribuição.

E de Mauro Rasi, que lhe proporcionou um dos papéis de maior sucesso no teatro, em Pérola?
Falar de Mauro Rasi para mim é um prazer e uma tarefa que julgo ter como obrigatória, pois conheci o Mauro mais uma vez por recomendação de Abujamra, que fazia parte do júri do Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo, em Campinas, em 1963. Fui com Jorge Mautner assistir à peça da autoria do Mauro, em que ele trabalhava como ator protagonista e diretor. Saímos do teatro encantados com o talento, a irreverência, a rebeldia do texto e da encenação, que já revelavam sua brilhante trajetória no teatro brasileiro, com seu humor inconfundível. Nos conhecemos, então, pessoalmente e prometi um dia trabalhar em uma obra sua. Mas o tempo foi passando, eu conferia sempre suas peças e ele as minhas, mas só fomos trabalhar juntos, pela primeira vez, mais de trinta anos depois, em Pérola, em 1995. Essa peça me arrebatou desde a primeira leitura e além de ter me rendido vários prêmios, no papel de Vado, seu pai, ficou cinco anos em cartaz, viajando por todo o Brasil, lotando os teatros e recebendo ótimas críticas. Em seguida fiz O Crime do Dr. Alvarenga, peça escrita pelo Vado na vida real e adaptada e dirigida pelo Mauro. Logo depois, substitui Italo Rossi, na peça Alta Sociedade, ao lado de Fernanda Montenegro, sempre com direção dele, viajando pelo Brasil. Participei intensamente, nos seus últimos anos de vida, de seu processo criativo, realizando em todas essas peças uma colaboração como dramaturgo. Como seus textos eram muito ricos de situações, eu colaborava no trabalho de edição, para deixar o texto mais enxuto e objetivo para a montagem. Finalmente, acompanhei a criação de seu musical, ainda inédito, Ladies na Madrugada, que foi o último trabalho do Mauro, antes de sua morte prematura, com a qual nunca me conformei.

Remontar Visitando o Sr.Green, em tempos de fundamentalismos  ideológicos e religiosos tão explícitos, pode ser encarado como um contraponto ao conservadorismo por que passamos?
Remontar Visitando o Sr. Green passou a ser um sonho e uma meta, desde que li a peça, a convite do produtor Alexandre Doria, que, por volta de 2007, convidou-me para participar da remontagem desse texto que ele produzira para o inesquecível Paulo Autran e que permaneceu em cartaz durante vários anos. Infelizmente, não pude aceitar o convite na época, por me encontrar trabalhando no Ministério da Cultura. E só agora pude concretizar esse desejo. Deixei o MINC em 2013, fiz a novela Flor do Caribe, na TV Globo, como protagonista, com muito êxito e tive em seguida uma participação na série Doce de Mãe, com Fernanda Montenegro, na mesma emissora. Em 2012, aproveitei o período da Copa do Mundo e das eleições para reorganizar minha vida em São Paulo, depois de 12 anos em Brasília e me dedicar a preparar a produção de Visitando o Sr.Green, tendo como produtor executivo meu filho Carlos Mamberti, direção primorosa de Cássio Scapin, meu eterno companheiro do Castelo Rá-Tim-Bum, e compartilhar o palco com um dos atores mais brilhantes de sua geração, Ricardo Gelli. Compramos os direitos de montagem diretamente do autor, em Nova York, e nos dedicamos integralmente à sua produção, cientes de que seria uma excelente oportunidade para os dois atores desenvolverem sua linguagem. Dediquei essa montagem ao Paulo e à Judith Malina, atriz e diretora do Living Theatre, recentemente falecida, além de minha esposa, Vivian Mehr, falecida em 1980, com quem eu teria completando 50 anos de casamento. Na verdade, percebemos que nessa montagem teríamos principalmente a oportunidade de rediscutir alguns preconceitos, com o retorno de um fundamentalismo ideológico e religioso tão exacerbado, de reafirmar o respeito às liberdades democráticas, tão arduamente conquistadas, combatendo o conservadorismo cruel e preconceituoso que estamos vivendo hoje. A peça, sem ser panfletária, defende os valores humanitários, aparentemente esquecidos, contribuindo para solucionar conflitos e construir uma sociedade mais justa e um mundo melhor, além de emocionar e divertir o espectador.

A homossexualidade parece continuar sendo um tabu, inclusive para muitos artistas que dela se escondem, quando poderiam contribuir para um debate lúcido. Será medo de não serem aceitos pelo público ou pelo mercado? Astros e estrelas ainda não podem ser gays?
A homossexualidade, apesar dos avanços conquistados mundialmente em relação ao respeito à diversidade sexual e à plena aceitação do direito de cada cidadão ter sua orientação sexual reconhecida, sem ser submetida a qualquer tipo de censura ou atos de repressão, ainda não é uma questão resolvida. Durante a primeira conferência LGBT, realizada pelo presidente Lula, durante seu governo, ele ponderou na sua fala de encerramento que justamente por causa dos avanços obtidos nessa direção,  poderiam haver reações contrárias proporcionais a essas conquistas. E isso é o que vem acontecendo, tal qual ele previu, com crescimento da homofobia e a contínua obstrução à tramitação de lei para punir esses crimes, por uma ala conservadora do Congresso Nacional. Na televisão, embora esses temas venham sendo cada vez mais abordados de forma a suscitar o debate e encaminhar soluções para a sua aceitação, ainda encontramos por parte da sociedade uma rejeição acentuada. Recentemente, o tema, quando abordado na novela Babilônia, da TV Globo, sofreu uma clara dificuldade de assimilação por parte do público, que se refletiu nos índices de audiência. Com relação à vida pessoal de cada um, seja ele um artista de teatro, de televisão ou uma pessoa pública, é uma decisão pessoal declarar sua orientação, pois ainda existe um risco claro de ser prejudicado profissionalmente ou mesmo nas suas relações pessoais. O tabu, infelizmente, ainda permanece, a partir do momento em que constatamos ter havido e uma elevação do nível de intolerância em nossa sociedade, nos últimos anos.

A maioria dos brasileiros nunca pisou num teatro. Reverter tal situação é possível?
A formação de plateia e o hábito de ir ao teatro faz parte de uma estratégia que deve ser construída desde o início, com a criança na sua formação, através da educação aliada à cultura, para conseguirmos chegar a resultados palpáveis. É possível, no entanto, a longo prazo, reverter o quadro, bem como também a médio prazo, através de políticas efetivas de divulgação e de acesso, como barateamento de preço do ingresso ou através do benefício do Vale Cultura, que permite ao cidadão gastar R$50,00 reais por mês em atividades culturais.

Algum antídoto para o baixo nível da programação de nossa televisão? O ator tem nela o espaço que merece?
A televisão comercial está implacavelmente submetida à uma lógica de mercado, que praticamente inviabiliza qualquer preocupação relacionada à qualidade cultural de sua programação. A única saída é o fortalecimento das tvs educativas e das tvs públicas, sem compromisso de lucro, buscando alternativas e pesquisando linguagens adequadas aos diferentes públicos a que se dirigem. A TV Cultura, em São Paulo, apesar de ter sofrido restrições orçamentárias e administrativas que relativizaram seu importante papel no cenário da tv brasileira, mostrou que com programas como o Castelo Rá-Tim-Bum,  entre outros, pode evidenciar os excelentes resultados obtidos nessa direção. A situação do ator, tanto do ponto de vista das oportunidades do mercado de trabalho, como na relação patronal, está submetida a essa mesma contingência.

O que ainda falta ao cinema brasileiro?
O cinema brasileiro tem uma historia e um nível de realizações altamente qualificado, em relação à media do nível internacional. Por ser uma atividade ligada à industria cultural, sofreu, historicamente, de descontinuidade no seu desenvolvimento, pela necessidade dos investimentos e da obtenção de recursos e meios para sua plena concretização. As políticas de subvenção da Ancine e da Secretaria do Audiovisual, no âmbito  federal, por intermédio de incentivos, bem como políticas semelhantes em estados e municípios, têm contribuído positivamente, nos últimos anos, para uma visível melhoria dessas condições, no que diz respeito à produção.No entanto, a questão da exibição e da presença do cinema brasileiro na tv e outras mídias, ainda é uma árdua tarefa, pelas dificuldades inerentes ao universo mercadológico.Mas estamos no caminho certo para consolidar essa atividade e estimular a ousadia e a criatividade de nossos cineastas, à altura dos grandes momentos que já atravessamos, nacional e internacionalmente.

Valeu a pena a militância política e ter ocupado cargos de relevância no Ministério da Cultura, durante o governo Lula? A experiência do poder trouxe muitos desafetos?
Meus doze anos no Ministério da Cultura coroaram minha militância na área da cultura dos últimos 60 anos. Foi uma experiência muito rica de realizações, que só contribuiu para concretizar antigos sonhos e anseios da sociedade brasileira na conceituação da cultura como elemento estratégico para construção da cidadania e de um projeto de desenvolvimento democrático, colocando os valores humanitários como premissa para termos um país mais justo e solidário. Embora sempre tratando de questões polêmicas, durante todos esses anos de militância na política, e particularmente no Partido dos Trabalhadores, sempre fui respeitado em todos os meios de comunicação e na minha vida artística e profissional pelas minhas convicções. Salvo recentemente, quando uma fala minha, numa reunião interna preparatória para o V Congresso do Partido dos Trabalhadores, foi manipulada de modo intencional, provocando comentários inflamados na rede contra minha pessoa, que pelo fato de estar descontextualizada, apresentava uma distorção perversa de seu sentido original. Prestei esclarecimentos em matérias jornalísticas na rede, para corrigir essa aberração. E apesar dos aborrecimentos por que passei, espero ter superado esse momento infeliz.

O Partido dos Trabalhadores perdeu o rumo ou a mídia, representante do pensamento conservador, é a única responsável por sua demonização?
O PT, depois de 12 anos no governo, apresentou um saldo altamente positivo, caracterizado por mudanças estruturais na história do nosso país. A pobreza diminuiu drasticamente, o acesso ao ensino e aos bens e serviços culturais aumentou, em todos os sentidos. A economia cresceu sensivelmente, a transparência nas contas públicas favoreceu o controle social das instituições e a tolerância com a corrupção diminuiu sensivelmente. E todos nós ganhamos mais democracia e mais liberdade. Tenho absoluta certeza de que o Brasil mudou para melhor, apesar do momento de ajustes que enfrentamos no segundo mandato da presidenta Dilma Roussef, em face da nova ordem econômica mundial e de uma forte reação midiática, por parte da oposição que tem suscitado polêmicas, particularmente quanto ao rumo do modelo de desenvolvimento e à lisura na utilização dos recursos e da administração dos bens públicos. Isso tem provocado uma reação bem negativa junto à população, aos índices de aprovação do governo e uma atitude defensiva por parte do governo, que muitas vezes tem dificultado o bom andamento deste primeiro ano do novo mandato. O Partido dos Trabalhadores procura entender melhor seu papel nessa conjuntura adversa e procura readequar sua estratégia e sua tática de atuação, o que pode dar a ideia de ter perdido seu rumo, mas penso que é uma circunstância momentânea e que num segundo momento retomará seu papel histórico, em busca dessa árdua tarefa de fazer o Brasil avançar mais uma vez e assumir seu papel protagônico no panorama nacional e internacional.

Defender a volta dos militares ao poder é ignorância ou má fé?
As duas coisas. Jamais poderemos esquecer o longo período em que estivemos submetidos ao arbítrio de um regime totalitário, que só prejudicou e maculou as tradições democráticas, imprescindíveis para a construção de um Brasil para todos, com justiça e pleno desenvolvimento, com ampla liberdade de expressão.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.