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Marcos Loureiro: o teatro como leitura diferente do mundo


                                                              Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*


Ainda na adolescência, Marcos Loureiro descobriu que o teatro lhe dava possibilidade de novas leituras do mundo. Como ator, merece destaque sua atuação em Frida, de Ricardo Halac, com direção de Fauzi Arap, de quem, anos mais tarde, tornou-se amigo e assistente.
Fundador do Grupo Kuringa, cuja proposta é a investigação da linguagem cênica na dramaturgia brasileira contemporânea, foi ali que estreou como diretor, em Hotel Lancaster, de Mário Bortolotto.
Seus trabalhos mais recentes são a impecável remontagem do clássico Navalha na Carne, de Plínio Marcos e de outro texto do dramaturgo santista, O Bote da Loba, escrito pouco antes de sua morte, no final dos anos 90, atualmente em cartaz no Teatro Garagem, em São Paulo.


Quando sentiu que o teatro seria o caminho?

Quando comecei a fazer parte do grupo de teatro Os 16 Meninos da 13 de Maio, grupo de teatro e dança, dirigido pela Tia Penha, no bairro do Bexiga. Quando ia para os ensaios, tinha a impressão de que estava aprendendo a ler o mundo de uma forma diferente. Isso foi no começo dos anos 80. E na escola em que estudava eu também fazia teatro.

Da trajetória como ator, o que merece destaque?

O espetáculo Frida. Texto de Ricardo Halac e direção de Fauzi Arap. Foi nesse espetáculo que conheci o Bortolotto. Fazia três personagens: um médico, a morte e Ramon Mercader, o assassino de Trotski.

O Grupo Kuringa, fundado por você em 2002, estreou com a peça Hotel Lancaster, de Mário Bortolotto, momento em que você começa a dirigir. Como foi passar de ator a diretor?

Foi tranquilo. Na verdade, sempre me achei mais diretor do que ator. Eu trabalhava muito como técnico de teatro, para poder pagar as contas e desenvolvi um olhar mais apurado para direção. Ficava vendo os diretores trabalhando e ficava questionando as opções que eles faziam. Falava para mim mesmo: se fosse eu o diretor, faria assim, assim, assim e assim.

O Kuringa surge com a proposta de pesquisar a linguagem cênica textual na dramaturgia brasileira. Existe a intenção de retomada desse projeto?

Sim, essa é a proposta do Grupo Kuringa. Infelizmente, precisamos de apoio financeiro para dar continuidade ao projeto. Tenho me inscrito nos editais que existe e não tenho tido sorte ou as comissões acham que meu projeto não é relevante.

Você participou de vários festivais de teatro, dentre eles, dois festivais de Teatro Grotesco. O que eventos desse formato trazem de mais significativo?

Eu participei do 1º e 2º festivais de Teatro Grotesco. É um projeto bem bacana do Antônio Rocco, dono do teatro N.Ex.T,  também autor e diretor de teatro. Acredito que um festival como esse ajuda a enxergar outro tipo de linguagem existente no teatro e a ver o mundo sob uma ótica diferente, não só pela lente realista-naturalista.


Como foi a experiência de dirigir, ao lado de Fauzi Arap, a peça Chorinho? Que recordações guarda do grande dramaturgo e diretor?


Conheci o Fauzi numa montagem de um texto da Leilah Assumpção, Adorável Desgraçada (1994). Ele como diretor e eu como contra-regra e diretor de cena. A atriz Claudia Mello eu também conheci nessa montagem. Foi a partir desse encontro que realmente falei para mim que seria diretor de teatro. Vendo o Fauzi trabalhar, ficava fascinado pelo jeito que ele conduzia os ensaios. Ele tinha um conhecimento absurdo de dramaturgia, direção de ator, ritmo, andamento, soluções cênicas, que eu ficava encantado. Aliás, quando falei para ele que minha intenção era me tornar um diretor de teatro, ele me aconselhou a estudar dramaturgia, Aristóteles, Renata Pallottini, Boal e muitos outros, mais do que os livros técnicos de direção de atores. Fiz três assistências de direções para ele, antes de dividir a direção de Chorinho (nas duas montagens) com ele. Foi muito fácil dirigir com ele. Na primeira parte do ensaio, eu ia levantando as cenas com os atores e ele chegava depois e burilava o que tínhamos produzido. Às vezes, mudava umas coisas, sempre pelo bem do espetáculo, nunca porque não gostava do que tínhamos feito. Aí era um momento de aprendizado para nós, os envolvidos no processo. Ele provava ali, neste segundo momento do ensaio, o que realmente era importante para a comunicação do espetáculo.

Suas direções mais recentes trazem a concepção de espetáculos intimistas, que se contrapõem ao teatro de grande eloqüência, buscado por muitos diretores, que acabam por pecar por excessos cênicos. É por aí mesmo?

Não sei se é por aí. Acho que é o modo e as condições que tenho no momento para produzir meus espetáculos. Gosto de espetáculos intimistas. Às vezes, você produz grandes obras de arte em espetáculo mais simples. Artaud, que o Rubens Corrêa fazia, é um exemplo de espetáculo intimista e de grande impacto e potência. Mas adoraria ter uma grana legal para fazer um belo Fausto, um grande Shakespeare, um maravilhoso Artur Miller, Harold Pinter etc. Acredito que os excessos cênicos dos diretores estão mais atrelados à vaidade deles do que à grana de produção. Tem muitos diretores de sabem produzir imagens, mas não contar histórias. Uma ida ao grande livro do Martin Esslin, A anatomia do drama, seria bacana.

Décio de Almeida Prado costumava dizer que “os maus atores apequenam, amesquinham tudo o que tocam”. O que é um mau ator?

É aquele que tem uma leitura de mundo muito estreita. Aquele ator que não tem algo a dizer. Aquele em que impera a vaidade.

Stella Adler, ao se debruçar sobre Strindberg, afirma que ele “... nos mostra o confronto entre homem e mulher. É uma guerra, um combate mortal – com a sobrevivência do mais apto. É uma luta primitiva.” Fazendo um paralelo com Navalha na Carne, sua mais recente direção, não é exatamente isso que acontece? No texto de Plínio Marcos há algum vencedor?

Num primeiro momento parece que o homem ganha. Como a peça é de 1967, talvez ainda carregue essa leitura machista. Com o empoderamento da mulher, na minha encenação tento comunicar a ideia de que ela não vai mais aceitar esse tipo de tratamento, é quando a Neusa Sueli tem os embates com o Vado. Também peço à atriz Anette Naiman para mudar o semblante no final da peça, quando ela come o sanduíche de mortadela e assim deixar claro que a partir daquele momento, a relação dela com o Vado vai ser outra. E quanto ao Veludo, personagem que carrega os dois sexos, também peço ao ator Maurício Bittencourt não imprimir uma interpretação subserviente.

Como avalia a atual cena teatral e as políticas públicas para o teatro?

Temos uma avalanche de espetáculos, cerca de 250 por fim de semana e uns 50 durante a semana. Parece bom, sim parece. Agora, tem muita coisa ruim dentro desse montante. O importante é que está produzindo muito coisa para chegar à excelência. Espero eu. Quanto às políticas públicas em relação à cultura, ainda estamos engatinhando.

E televisão e cinema? Ambos têm conseguido cumprir minimamente seu papel em nosso país?

Acho que de uns cinco anos pra cá, sim. Com a nova Lei do Audiovisual, que exige dos canais pagos três horas de conteúdo nacional por dia, temos produzido muita coisa interessante. O cinema também está com gente nova, propondo novos temas e linguagens.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, jornalista e ator.