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Mariana Infante:  o talento e a excepcional formação de uma atriz
                                                                                                  

Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos

Nascida na Inglaterra, filha de pai italiano e mãe brasileira, Mariana Infante estreou no teatro aos 14 anos, em Gargantua, de Rabelais. No final dos anos 1990, formou-se pela Casa de Artes de Laranjeiras, passando também pela Escola Angel Vianna.  Em seguida, mudou-se para Roma, onde estudou no Centro de Teatro Ateneo, da Universidade de Roma La Sapienza, tendo por mestre e padrinho artístico Ferruccio Marotti, legendário diretor teatral que trabalhou, dentre outros, com Federico Fellini, Eugenio Barba, Peter Brook, Pina Baush e Jerzy Grotowski.

O que a levou tomar a decisão de fazer teatro, aos 14 anos de idade? Pode nos falar um pouco sobre sua família, sua formação inicial e as maiores influências recebidas nos primeiros anos de vida?
Vamos lá! Sou filha de pai italiano e mãe baiana, tenho tripla nacionalidade: brasileira, italiana e inglesa (nasci em Sheffield). Durante algum tempo, assinei profissionalmente Mariana Terra, em homenagem a minha nonna. Mas agora senti a necessidade de voltar a ser Infante, como no início de minha carreira. Aos dez anos, descobri essa arte mágica na Escola Parque, no Rio, um lugar abençoado para a educação, onde se abriu para mim o caminho do teatro. Inquieta, busquei cursos, formas de continuar essa estrada. Aos 14 anos, mergulhei de cabeça na montagem de um espetáculo, depois de ter participado de um curso de interpretação com Sérgio Machado e Gaspar filho, no Planetário da Gávea. Subi ao palco pela primeira vez em 1992, sob a direção do próprio Sérgio Machado, no Teatro Planetário da Gávea, na comédia Gargantua, de François Rabelais, me desdobrando em três papéis. Então, percebi que o tal bichinho do teatro já havia me mordido e não tinha outro caminho, senão seguir em frente. Em 1996, quatro anos depois de fazer um curso livre de interpretação com Ine Bauman, na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), ingressei no curso regular que a própria CAL oferecia, me formando em artes cênicas, em 1999. No meio do caminho, participei ainda de dois workshops com Gilberto Gawronski. Em seguida, tive minha formação em consciência corporal, na Escola Angel Vianna. A disciplina da dança e do movimento físico sempre me interessou muito, pois praticava ioga desde criança. Fiz acrobacia com o grupo Intrépida Trupe; balé com Jean Marie; dança contemporânea com Alex Neoral e tantas outras buscas por um corpo mais inteligente. Mas, um momento que me marcou profundamente foi trabalhar com meu pai, Raffaele Infante.  Fizemos um Pirandello na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que veio abrir caminho para o longo período de aperfeiçoamento como atriz que tive na Itália. O texto de Luigi Pirandello, Ciascuno a suo modo (De cada um a cada qual), deu vida a um espetáculo que nascia de uma investigação de meu pai, psiquiatra e professor da UFRJ . Raffaele Infante estava debruçado, na época, no desenvolvimento de uma espécie de derivação do psicodrama, a psicodramaturgia, que serviu como base para a montagem do espetáculo, encenado no campus da universidade. Através de um intercâmbio com o Instituto Italiano de Cultura, veio especialmente da Itália, para colaborar na fase final da montagem, Ferruccio Marotti, então diretor do Centro de Teatro Ateneo, da Universidade La Sapienza, em Roma, grande amigo de meu pai. Muito envolvido no meio teatral italiano, amigo pessoal de Dario Fo, Marotti foi um grande incentivador de minha ida para a Itália, no final do ano de 2000. Minha nonna, Elena Infante, mãe de meu pai, napolitana, foi uma grande referência em minha vida, mostrando o valor da disciplina, integridade, seriedade e respeito.  Aprendi essa bella língua que é o italiano e fui desbravar a Itália, onde tive a oportunidade de trabalhar com figuras que havia estudado nos livros de teatro.  Meu norte, Gal Melo, minha mãe, me orienta desde sempre, durante toda minha trajetória profissional e pessoal. Diga-se de passagem, ela é uma psicanalista baiana. Sempre conversamos muito, noites e noites sobre os mais variados assuntos, entre eles o comportamento humano que vai de encontro ao meu ofício como atriz.

Como foi sua passagem pelo Centro de Teatro Ateneo?  
Ferruccio Marotti é meu padrinho artístico. Mas no início, logo que cheguei ao Centro de Teatro Ateneo, fiquei muito apreensiva, pois estava frente a frente com um mito que trabalhou com muitas de minhas referências, como Fellini, Gordon Craig, Eugenio Barba, Dario Fo, Grotowski, Peter Brook e Pina Baush.  Depois da minha primeira apresentação em Roma, fui surpreendida com um recado que ele havia deixado para sua mulher, Luisa Tinti, que dizia: “Luisa, devo dizer que a Mariana estava estupenda! Uma presença cênica inigualável! Uma grande capacidade física, vocal e interpretativa.” Guardei esse elogio como um prêmio que me estimula até hoje a seguir em frente.

O que acrescentou no seu trabalho de atriz o contato com o Workcenter of Jerzy Grotowski, com Eugenio Barba e ainda com Thomas Richards?
Não existe opção. A entrega é a única maneira de se trabalhar com eles. Estar presente na totalidade é fundamental para que o processo aconteça. Vi essa relação ligada diretamente à ioga. E quando me vi, estava num convento, na Toscana, cercada de atores e de um grupo de chineses. Esse foi um período em que trabalhei muito o canto como forma de expressão. O estímulo era buscar interiormente os sons que ecoavam pelo convento. Ressoavam cantos tribais e ancestrais que vinham do mais íntimo de cada um. Para tanto, a disciplina, o risco e o ritual se faziam essenciais. Absorvi muita técnica que me deu segurança para me lançar sem rede de proteção. Como diria Peter Brook: “a técnica liberta.”

Em Amsterdan, você aprofundou seus estudos em teatro, aprendendo a técnica somatic moviment. Em que consiste esta técnica? 
Somatic moviment consiste numa busca de retorno ao nosso movimento primário. Começamos deitados no chão e vamos descobrindo como nos mover com o mínimo necessário, equilíbrio do tônus, até engatinhar e ficar em pé, andar, correr, pular, mas sem perder a memória corporal.

A convite de Bruce Mayers, parceiro de Peter Brook, você protagonizou a montagem de Sonho de uma Noite de Verão, em Roma, muito elogiada pela crítica. Que análise faz dessa sua experiência internacional? Trabalhar com atores estrangeiros é muito diferente de trabalhar com atores brasileiros?
Foi simplesmente incrível! Oportunidade de vida, sonho mesmo. Estudávamos muito o texto em línguas diferentes, pois Bruce é inglês e mora na França, onde trabalha com Peter Brook. Fizemos a peça em italiano e, além disso, ele me pediu para ensaiar com a tradução em língua portuguesa. Ele amou o resultado e me pediu para inserir trechos poéticos em português, que como ele e o público diziam, é um canto. Aliás, outra contribuição que dei, foi sugerir Villa Lobos, com a inserção da Melodia Sentimental em dois momentos do espetáculo.  Por conseqüência desse trabalho, fui selecionada para integrar o stage/ laboratório com Lilo Baur, assistente de Peter Brook. Trabalhei como assistente de Claudio Di Maglio, uma das maiores autoridades de Comedia Dell’Arte no mundo, que me convidou para protagonizar a peça Il Finto Marito. Porém, não pude aceitar, pois já estava envolvida na fundação do grupo Aion Teater, onde realizei o espetáculo L’Epopea Del Quotidiano, no Teatro Di Documenti, em Roma. Acredito que existem no mundo dois tipos de atores, os comprometidos e os não comprometidos com o ofício e isso serve para qualquer país.

A motivação para dirigir é a mesma de atuar?
Não. São coisas diferentes em alguns aspectos. Quando eu recebi o convite para ser assistente de direção foi surpreendente. Porque eu sendo uma atriz do Brasil, país que não tem tradição na Comedia Dell’arte, foi uma mostra que não existe obstáculo para que cheguemos a qualquer lugar que desejamos. Ao mesmo tempo, me senti muito lisonjeada, pois o meu empenho, entrega, estudo e dedicação valeram à pena. O mais interessante foi o respeito e confiança que os atores italianos depositaram em mim. Isso me deixou mais segura para atuar em uma técnica tão específica, enriquecendo a nossa troca. Ao final, recebi como presente a máscara da strega.

Em 2011, você participou do longa-metragem Mea Culpa, de Julio Lellis. O que você diz desta experiência? Foi a sua primeira incursão no cinema?
Eu havia feito uma minissérie intitulada DNA, que passou na TVE. No filme Mea Culpa fiz uma psicóloga e tive de trabalhar muito a interpretação através do olhar, pois as cenas exigiam isso.  No cinema, o ator deve conter os gestos, o que difere, e muito, do teatro. Imagine uma psicóloga no cinema(rs)! Foi ótimo, pois nesse período eu estava morando na Ilha Grande, em Angra dos Reis e vinha para o Rio só para filmar. E numa ilha se aprende muito a estar presente, quieta, escutando os sons da natureza, as vozes internas, a enriquecer o olhar. O filme Mea Culpa foi selecionado para o 9th Cine Fest Brasil-New York, sendo premiado como melhor filme no Cine Fest Cascavael-PR e no Festival Internacional  de Cinema de Arraial D'Ajuda, na Bahia. Foi ainda selecionado para o I Festival Brasil de Cinema Internacional, do Rio de Janeiro. Fiz ainda outro longa-metragem, o documentário Olhar de Nise, sobre a vida e a obra da doutora Nise da Silveira. No filme interpreto a psiquiatra em todas as fases de sua vida, até seu envelhecimento e morte. A direção é de Jorge Oliveira e Pedro Zoca.

“No ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos, antes de mais nada, de um teatro que nos desperte: nervos e coração.” O que dizer desta afirmação de Antonin Artaud?  Você concorda que com o pensamento de que o teatro não pode ser mero entretenimento?
Claro! Entreter é fundamental para acolher e despertar, mas para isso precisamos ter compromisso, estar presentes, como nos ensina a ioga. Então, a energia que circula entre o espaço da encenação e do público pode girar e mover algo que toque num lugar desconhecido. Assim a magia aparece.

Onde você buscou elementos para compor a personagem do monólogo dramático Nise da Silveira Senhora da Imagens? O que nos diz desta experiência?
Foi uma experiência única, catártica e fundamental na minha vida. Os elementos foram a vivência que tive na psiquiatria com meu pai, a observação no Museu de Imagens do Inconsciente, o estudo de Jung, as pinturas dos “camafeus” pacientes, muitas entrevistas, declarações e a biografia da doutora Nise. Outro ponto importante foi ter colhido depoimentos de pessoas que conviveram ou tiveram acesso à doutora Nise, como Martha Pires e Milton Freire.  A responsabilidade foi grande, por estar no palco representando essa persona tão intensa e importante, pois eu a conheci quando pequena e registrei em minha mente o olhar profundo e arrebatador que ela carregava.

A doutora Nise é a nossa maior referência no tratamento da esquizofrenia, ao utilizar-se da pintura e da escultura com os pacientes, em contraposição ao eletrochoque. Numa cena da peça, você retratou de forma dolorosa o eletrochoque. Ao protagonizar uma personagem com tamanha densidade, a exigir um trabalho de corpo e uma concentração extraordinariamente intensos, é certo afirmar ter sido o papel mais difícil de sua carreira?  
Difícil determinar o grau de dificuldade que cada trabalho requer, pois cada personagem exige um esforço específico, um desafio inerente. Sem dúvida, Nise me fez mergulhar num oceano desconhecido, o inconsciente. Retratar o eletrochoque me exigiu um trabalho corporal vigoroso. Além das técnicas que detenho, como ioga, dança e acrobacia, tive o trabalho minucioso do Alex Neoral e da bailarina e coreografa da peça, Ana Botafogo.

Poderia nos falar um pouco mais sobre Raffaelle Infante, seu pai?
Meu pai foi um grande psiquiatra humanitário, que acreditava na arte como uma possibilidade no tratamento das doenças da alma. Ele se utilizou, principalmente, do teatro. E a doutora Nise, das artes plásticas como forma de tratamento. Ele foi diretor do IPUB (Instituto de Psiquiatria da UFRJ), onde criou um grupo, a partir do psicodrama, chamado Andarilhos Mágicos.

Ana Botafogo assinou a coreografia do espetáculo sobre a doutora Nise da Silveira. Como foi trabalhar com este ícone da dança brasileira?  Que função atribui ao trabalho corporal de um ator, nem sempre levado em conta com a justa medida em nosso teatro?
Trabalhar com Ana é uma benção, além da grande bailarina, profissional e artista, é uma grande mulher, um ser íntegro que nos ensina a ter postura no palco e na vida. Ela traz delicadeza ao movimento, precisão e entrega. O corpo deve ser um canal por onde fluem todos os acontecimentos. Um corpo vivo, inteligente, atento, disponível, é um corpo presente, possível, como um canal desobstruído, pois a energia circula, o espaço é desenhado e a arte aparece.

Como vê o atual momento do teatro, televisão e do cinema para o ator em nosso país, bem como as leis de incentivo à cultura. Elas têm cumprido seu verdadeiro papel, fomentando novas companhias com projetos desafiadores?
Nossa! Acho um ponto muito delicado, pois ainda temos que caminhar muito para entender como seguir com a arte de atuar sem tanto sofrimento e dificuldade. As leis. Incentivo. Cultura. Educação. Pontos fracos em nosso país. Algumas coisas podem até acontecer, mas ainda acho pouco. E muito vem do esforço dos operários da arte. Um país com grande potencial em tantas áreas e com pessoas tão capacitadas precisa estimular a educação e a cultura. Essa é a única saída.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.