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Karen Menatti: poesia e música na construção do teatro

Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Criada num ambiente em que a música e a poesia sempre estiveram presentes, Karen Menatti chegou ao teatro através do grupo teatral Ventoforte. Algum tempo depois, foi uma das fundadoras da premiada Cia do Tijolo. Cursou jornalismo na UniSantos, filosofia no Centro Educacional Claretiano e teatro na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Suas poesias e crônicas estão no blog Filicantos. Em 2017, lançou seu primeiro livro, Quintal de miudezas.

Quando a descoberta da arte?
Que pergunta! Fiquei pensando muito a respeito dela. Se realmente tenho a resposta com precisão. Acredito que não. Tenho uma lembrança de quando vi um espetáculo de teatro em Santos e tive um “sentimento pensante”: é isso que eu quero fazer da minha vida!” Uma sensação de encaixe do ser. Porém, esse é um recorte do que é arte e da descoberta dela. Como profissão, meio de vida e expressão.      

Pode nos contar um pouco sobre a experiência com o grupo teatral Ventoforte e o que ela significou em sua formação como atriz?
Cheguei ao Ventoforte em 2005. Rodrigo Mercadante foi o culpado de me abrir essa possibilidade profundamente transgressora no modo artístico e de um despertar para um modo de ser e de olhar o mundo. Despertar, porque esse jeito de lidar com a arte e com o mundo já estava imerso em mim e em vias de tomar forma. O Ilo Krugli é uma figura essencial, necessária no caminhar da arte para todo mundo, público e  artistas. Um homem que passou por algumas ditaduras latino-americanas, que conviveu com a política e a poesia como modo de sobreviver ao mundo acachapante. Uma poesia nos pés, sabe? Como estrada pra caminhar. É um artista que mora no quintal-teatro, no quintal-palco, em sua casa-palco-quintal. Sua maneira estética de criar, como uma espécie de caldeirão em que é tudo um pouco misturado e eu me identifico muito. E embora lá no Ventoforte a dramaturgia seja do Ilo ou ele escreva com inspiração em alguma obra, existe uma criação possível do ator, da atriz. Pelo menos minha experiência foi essa e sei que as experiências são muito individuais e com várias perspectivas. Lembro do primeiro ensaio do qual participei. Foi lá no próprio Vento e era a peça Bodas de Sangue, do Lorca. Assim que terminou o ensaio, perguntei ao Ilo o que ele tinha achado, se era por aí que ele pensava e ele me disse: “Querida! Se você está fazendo com seu coração, então é por aí. Faça com seu coração!” E colocou a mão no peito e fez como que um desenho  saindo se perdendo no ar, um caminho do dentro para fora. Seria lindo poder ter sotaque argentino aqui na palavra escrita. Porque o sotaque dele é carregado, bonito e muito dele. Desde esse dia, entendi que ali as formas estéticas de criação passavam por esse vértice poético também. Assim como a maneira dele pedir que fizéssemos uma cena com “mais azul” ou uma cena que precisasse “de ar”.  E sua maneira de lidar com a música é igualmente maravilhosa. Além das canções criadas para cada espetáculo, sempre tem as citações musicais como uma maneira artística de manutenção de memória, de lembrar de onde viemos. Esse caos criativo do Ilo fez eco dentro de mim.                     
A chegada à Cia do Tijolo, como foi?
Em 2008, Dinho Lima Flor nos convidou a começar essa pesquisa, esse aprofundamento. Na realidade, não tínhamos ainda a ideia de que seria a fundação de um grupo, mas sim de um grupo de pessoas que se apaixonou pelo mote trazido pelo Dinho: o poeta Patativa do Assaré. E também um grupo de pessoas que tinha e tem a música e a poesia mais sob os pés do que sobre a cabeça, a maioria filhos do Vento também. Elas, música e poesia são meios de construção, de dramaturgia. É através delas que nos aproximamos dos temas. Dinho ia montar um solo e mudou de ideia pela necessidade de que fosse uma voz coletiva a dizer o poeta. Começamos com o show Cante lá que eu canto cá, músicas do cancioneiro brasileiro e poesias do Patativa. Cheguei na segunda apresentação, que foi em Juazeiro do Norte, no Sesc, durante a inauguração do Teatro Patativa do Assaré. Uma parte da família dele lá. Foi uma emoção aterrorizante e linda. Foi como ir pedir a benção, pedir licença. Ali nasceu meus pés e voz na Cia do Tijolo. Nessa ambiência. Essas terras do Cariri... Tinha estado um ano antes lá, com o Ventoforte. Dinho trouxe a vontade, o desejo durante uma estada artística em Nova Olinda. O Cariri batizou nosso início. Soprou a gente e na gente. No ano seguinte, 2009, fomos para a pesquisa do espetáculo Concerto de Ispinho e Fulô, já imbuídos de histórias, grávidos.

     
O que dizer do teatro de cunho político do Ventoforte e da Cia  do Tijolo?
Bom, primeiro que a cada dia que passa tenho a sensação de  uma espécie de conforto e de força por me perceber ao lado dessas pessoas, meus amigos companheiros artistas, ainda mais nesse momento pelo qual passa o mundo e especificamente nosso pais. É nossa expressão político-afetiva, artística. E nossa necessidade imensa de buscar, de colocar em nossos trabalhos um desvendar de pedaços do Brasil, sob nosso olhar e suor.  E voz cantante também, pois como diz o poeta Mario Benedetti, “cantamos porque o grito já não basta”. Isso em relação ao Tijolo, mas ao Vento a aproximação política é também intrínseca ao modo como vive a companhia, que é uma extensão da figura do Ilo e dos parceiros artistas que passaram e passam por ali continuamente. Como disse Darcy Ribeiro, prefiro estar ao lado dos que perderam na história. No caso de nossa história atual, em que a desconstrução histórica é mola de manutenção de manobra, é necessário se juntar, conversar, chafurdar, rever e macerar as ideias. Vamos tentando e errando. E tentando de novo. Essa vontade estética e ética de nos colocarmos como artistas, através da dramaturgia, escolha de músicas, esse retalho que é complicadíssimo de lidar, mas que é uma forma também de abarcar algo em nós, que é o desejo de dar voz. Fora as aproximações de pessoas que para nós são como espécies de conselheiros, como o Frei Betto, Ivone Gebara, Carlos Moreira, Iná Camargo Costa, o próprio Ilo Krugli e tantas figuras que pensam e agem insistentemente numa busca talvez mais até de perguntas do que de respostas. Também as figuras que nos construíram no cotidiano, na avó que trabalhou na roça ou no mestre popular que ensina a força que o encontro e a coletividade tem. Da força e importância da continuidade das histórias. Na potência político - artística que tem a mestra Ana Maria Carvalho, que foi figura importante na história do Vento e que está conosco no Tijolo, através de suas composições. As trajetórias se ligam de várias formas. Não é simples destrinchar esse tema. A complexidade também nos acompanha, rodeia ou arrudeia, que é uma das palavras que acho mais bonitas. É uma eterna tentativa.

                       
Ao participar da criação de Concerto para Ispinho e Fulô imaginava o voo alto que o espetáculo teria com seu extraordinário sucesso de público e crítica?
Não sabíamos nem que seríamos de fato um grupo, até porque isso se deu na jornada, com o tempo e os encontros profundos. Estávamos ali descobrindo e despertando um jeito nosso (no que pode ser possível ser a expressão nosso), com todas as nossas influências do fazer teatral. A pesquisa de ter uma plateia próxima, que nos era comum, muito também das experiências do Ventoforte, mas não somente. Assim como nossas experiências pessoais e o reconhecimento de quem somos ( na medida do possível), do lugar onde estamos como ponto de partida para nos relacionarmos com o poeta. Nós estreamos e  fomos viajar logo na sequência. O Concerto é nosso trabalho que mais anda e no qual pudemos mais conhecer tantas estradas e pessoas , pelo menos até agora. E isso foi um alicerce imenso para nós, creio. A possibilidade de logo no início do trabalho caminharmos por tantos cantos do Brasil. Somos cada um de um canto na formação do Tijolo: Vitória, Belo Horizonte, São Paulo, Tacaimbó,  enfim, somos um pouco do Brasil também na espinha. A poesia do Patativa que tem essa chegança em todas as pessoas nos pegou pela mão e nos levou para andar. Desde que estreamos nunca passamos um ano sem apresentar o Concerto, exceto no ano de 2017. A poesia de Patativa, que é profundamente rica em sua construção, pois como diz o próprio poeta ”poesia sem rima muito me desanima”. Seus temas políticos, cotidianos, afetivos, têm uma importância grande nessa nossa andança. Assim como a música criada pelo Jonathan Silva para o espetáculo. A condução musical do William Guedes, a direção do Rogério Tarifa. Esse primeiro encontro foi e é como a paixão alegre de Spinoza, que aumenta a potência do ser. Romântico, eu sei. Mas penso assim mesmo. E potência no que diz respeito ao nosso pequeno mundo recortado. Talvez, nem tanto romântica assim.

                 
Por que ainda conhecemos tão pouco as riquezas de nossa cultura popular, estabelecendo quase um divórcio entre as manifestações culturais dos grandes centros e do interior do Brasil?
Puxa, são tantas riquezas artísticas nesse país! Não chega para nós, aqui de São Paulo, a grandeza e a pesquisa muito potente que acontece no Norte do país, por exemplo. A imensidão que é nosso país, que por vezes teima em centralizar-se no Sudeste. A distância geográfica influencia, mas não é só isso. Há o hábito equivocado também de dizer que o que acontece na capital é melhor do que em outras cidades. As entranhas do Brasil são riquíssimas, poderosas. É aqui e lá. Vários grupos com trajetórias de pesquisas. A primeira vez que vi uma terreirada, lá no Cariri, foi inesquecível. Bacamarte, reisado, os diferentes jeitos do coco. O samba de bumbo de Pirapora, com Dona Maria Esther, que partiu ano passado, as rodas populares, o boi. O Ventoforte nos deixou sempre atentos e amalgamados a esse lugar popular, do que somos. Sair dos nossos umbigos e olharmos os umbigos dos outros também.                  

Em sua trajetória como atriz, a música tem largo espaço. Ela é paixão tão antiga quanto o teatro?
A música realmente tem largo espaço e chegou antes do teatro em mim. Aliás, música e poesia chegaram em mim antes do teatro. Em minha casa, às vezes aconteciam reuniões dos amigos de meus pais. Tinha roda de samba, de música e eu adorava. Minha mãe canta, meu pai tocava percussão. Ouvíamos muita música em casa. Meu irmão é multi-instrumentista e minha irmã sempre também canta. A música me toca profundamente. É sem fronteira. Cantava em coral na escola e tínhamos o hábito de sentar para ouvir música em casa. Coisa que eu faço muito. Ouvir coisas novas e ouvir infinitas vezes as músicas que gosto. Acho que a música tem esse poder de chegar ao outro com tramela aberta. Não preciso entender a língua, saber do que fala ou qual é o instrumento que está sendo tocado para acessar uma emoção. A música é poderosa para mim, transformadora. Esse ano estamos com o Núcleo Musical do Tijolo. Um encontro que teve início com 400 pessoas. Essa força cantante é uma maré, uma força natural incomensurável e, em algum aspecto, tão potente quanto uma voz ecoando solitária também. Embora tenha estudado um pouco de canto popular, a vivência com os músicos e cantantes do Ventoforte e da Cia do Tijolo foi e é um aprendizado primordial para mim, em minha formação e no jeito de interpretar as canções. Uma sorte estar perto de sabedores antigos. Porque não são só os ensaios das músicas para as peças, mas também a intimidade que ganhamos com o outro e o que ele dá e faz experimentar canções novas, brincadeiras musicais, improvisações. Isso é uma riqueza para mim.                

Quando surge a poeta, cuja estreia em livro se deu recentemente, com o sensível e maduro Quintal de Miudezas?
Com a poesia sempre tive uma relação de pensar, enquanto lia algo que me tocava: “Nossa, me acharam aqui!” Como se estivessem me vendo, como se a poesia e a literatura também tivessem essa capacidade de expor o eu inominável, o eu escondido.  Não consigo me considerar uma poeta. Não sei ainda. Agradeço a palavra maduro. Ainda é um princípio de experiência. Creio mais escrever flertando com a poesia e com o outro também. Pois, se no teatro podemos alterar textos e cenas conforme os tempos forem mudando e nossa expressão idem, na poesia escrita não dá. Ela caminha por si e quem dá sentido a ela não tem a presença física do poeta escritor para interferir ou influenciar. E nem é a intenção. É um navegar diferente da atuação. Eu tinha alguns escritos antigos, alguns novos, escrevia no blog da Cia do Tijolo, especialmente durante as viagens, no blog Filacantos, que era uma delícia de exercício da escrita, de jogo, pois o tema devia sempre ser inspirado no texto anterior. Desenvolvi alguns textos no projeto Vidas Secas SP. Todo o viver poético no Ventoforte foi igualmente importante. Tive necessidade de dividir, de ter um livro. Quis também que estivessem mulheres comigo durante a construção dele. Chegaram as ilustrações da Eva Figueiredo, que é nossa parceira no Tijolo, a revisão foi da jornalista e comunicadora Lilian Assumpção, a editora Michele Navarro, juntamente com o editor Christian Piana, ambos da editora Lamparina Luminosa, foram muito parceiros nessa minha primeira experiência.               
Terá a poesia como uma de suas missões construir uma humanidade melhor?
Essa pergunta me acompanha tem algum tempo já. Talvez uma resposta esteja na desimportância que a poesia tem, talvez o fato dela não ser necessária, não participar dos salões principais, consiga desafogar dizeres à margem do que o mercado de consumo queira. Ao mesmo tempo, necessitamos do brincar com palavras que abrem uma metáfora, uma possibilidade ao dia a dia causticante, ao que não damos nome ou ao que precisamos que alguém reinvente. Talvez a ambiguidade da poesia, um acreditar transformador dentro dessa desimportância, seja a chave. Uma vez vi o poeta Miró da Muribeca falar. Uma vez não, algumas. Nos aproximamos. Ele se apresentou no nosso show do Tijolo Cante lá que eu canto cá, lá em Recife. Se apresentou não, ele esteve, ele é. Vou falar da primeira vez que eu o vi falar seu poema. Foi num restaurante, durante a jornada literária que fazíamos por Pernambuco. Quando esse homem começou a falar, no meio do restaurante, em voz altíssima, o mar se agitou, o alvoroço aconteceu. Dentro e fora. Eu comecei a chorar com sua força e fragilidade, com seu abismo escancarado de poesia latente. Como se ele tivesse jogado uma pedra num lago e as águas fizessem ondas. Sua poesia, voz, corpo causavam ondas em todos. Afetava verdadeiramente. A poesia e os poetas são avassaladores para a alteração do status quo.  Na delicadeza e na palavra-pressão também. A  poesia é capaz de aglutinar pessoas e transformar o entorno e o interno de quem vive com ela. Os slams, saraus, encontros poéticos, onde tem a palavra saltando de língua em língua, tem esse fio aumentando de tamanho entre nós.

E a cronista, cujos registros do cotidiano de S.Paulo, cidade em que vive, transbordam lirismo em meio à velocidade impressa em seus habitantes, como se manifestou?
Eu fiz faculdade de jornalismo, pois já tinha uma necessidade de expressão na escrita, principalmente nas crônicas. Não cheguei a me formar, pois o teatro chegou com força e percebi que nele poderia aprofundar outras expressões que estavam latentes também. O teatro foi minha formação. E ainda é. Fico com o poeta Miró da Muribeca, figura da poesia em forma de corpo, homem-poesia que não cabe no mundo e que diz assim num poema seu: ”Janela de ônibus é danado pra botar a gente pra pensar, ainda mais quando a viagem for longa.” Esse jeito de pensar escrevendo, diante do dia a dia, que é tão bonito e cheio de possibilidade de mundos. Um pouco isso de dividir e aliviar o olhar sobre o outro.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.