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Lenna Bahule: o melhor da música moçambicana no Brasil


                                                             Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Formada pela Escola Nacional de Música, em Maputo, Moçambique, Lenna Bahule iniciou aos cinco anos sua formação musical. Em 2012, fixou-se em São Paulo e tem-se dedicado a pesquisar os diferentes caminhos para o uso do corpo como instrumento musical e de expressão artística. Seu primeiro disco, intitulado Nômade, lançado em 2016, integrou a lista dos 100 melhores discos daquele ano, pelo site Embrulhador.

A beleza e a singularidade de seu timbre, somados a preciosos arranjos, fazem do seu trabalho algo único no universo musical. Como foi seu primeiro contato com a música e os instrumentos que toca?
Essa pergunta abre espaço para muitas histórias. Tenho a tendência a engajar ações com as quais tenho experiências afetuosas e inspiradoras. Quanto ao meu contato com a música, esse mérito vem dos meus pais. Meu pai era dj e colecionador de música, nos finais dos anos 80, começo dos 90, portanto cresci com muita música boa do mundo soando em casa. Posso dizer que foram as minhas primeiras aulas de percepção e análise musical. Com cinco anos de idade, minha mãe matriculou-me na Escola Nacional de Música, em Maputo, onde estudei piano por oito anos, além de outras aulas como coral, makwayela, flauta doce, timbila. Daí foi só ir escutando esse bichinho interior que foi me guiando na jornada.Quanto aos instrumentos que toco atualmente, esses vieram mais recentemente, todos inspirados na minha jornada de me apropriar das raízes culturais africanas, étnicas, raciais e históricas. Cada um veio de uma forma: o chitende, por ser um instrumento típico dos machopes, povo de onde minha família paterna é originaria; a tina (cabaça na água), de Guiné Bissau, vi pela primeira vez com um amigo, cantor guinense, Mû Mbana, e é um instrumento que simboliza o ventre da mulher, tocado tradicionalmente por mulheres; a cabaça (seca) é tocada pelos senegaleses.

Você vive em São Paulo desde 2012. O que a levou a sair de Maçambique? Como é viver no Brasil e numa grande cidade?
Saí de Maputo, porque queria expandir, buscar outras referências, explorar outros horizontes artísticos, criativos, ver outras formas de fazer esse chamado de viver música, adquirir experiência. Ver como os outros estão fazendo, no caso os brasileiros, pois eu já escutava e estudava a música brasileira há um tempo. E sempre tive interesse em saber o que andavam comendo esses brasileiros para fazerem música tão incrível assim! Têm sido bem transformador esses quase seis anos de São Paulo. Mesmo! É tão radical a transformação artística que vivenciei esses anos aqui, que, às vezes, nem eu mesma me reconheço. Muitas histórias. Campo para muita conversa sobre essas aventuras.

Que similaridades entre Brasil e Moçambique merecem destaque? Quais diferenças são mais marcantes entre as mulheres brasileiras e moçambicanas?
Como taurina, a primeira referência que me vem é a culinária que herdamos do nosso compartilhado parente colonial e a culinária que veio junto com as memórias dos meus conterrâneos ancestrais. Por exemplo: angu: xima/upswa; moqueca: tocossado de peixe; acarajé/abará: badjia, são alguns. Outra referência são alguns ritmos e danças: chula e maxixe são muito parecidos com a marrabenta e a majika. Semba, que é quase igual ao samba, quando se vê uma pessoa dançando. Aqui há também uma dança chamada Moçambique, que não sei se temos alguma parecida, mas que leva o nome de meu país, então assumo estarem relacionados.

Além da voz, você utiliza o corpo como instrumento musical. Isto ocorre em razão da makwayela, técnica que você afirma ser um gênero de música corporal? Como definir esse gênero?  
A minha relação com o corpo é de usá-lo como instrumento de expressão e comunicação. E dança e movimento são caminhos potentes e quase estruturais nessa relação, ainda que não necessariamente eu dance nos shows. Mas o facto de ter essa vivência como minha formação é importante para o meu trabalho. A makwayela foi uma grata cadeira que tive quando da Escola Nacional de Música, em Maputo, oferecida pela mestra professora Laura Magaia. Era uma experiência única dentro de todas as aulas que já fiz na minha vida. É uma música-dança que só pode ser passada empiricamente para que a essência dela se enraíze em quem vai interpretar as suas canções. As letras falam do povo e suas dores e promessas. Falam de dor, de esperança, de abundância, de prosperidade, de amor, de adeus. Makwayela é a transmutadora arte de celebrar nossas dores. A relação dos movimentos da dança e a letra, a percussão dos pés com a polirritmia das melodias, expressa na sua totalidade a narrativa que as letras trazem. Makwayela é vida! 

Em 2016, você lançou o seu primeiro cd, intitulado Nômade. Como surgiu a ideia de gravá-lo? Ele está disponibilizado para download?
Em 2012, antes de me mudar para o Brasil, estava em processo de gravar um EP. Mas quando aqui cheguei, mudei de ideia, porque em tão pouco tempo minha mente criativa deu uma reviravolta que minha visão de música já não se encaixava com o que tinha preparado no EP. Queria que o meu primeiro disco fosse uma ideia clara (ou o mais próxima possível) de quem sou eu artisticamente e não uma versão incoerente de principiante, como era quando aqui cheguei (sem arrependimentos, apenas, um facto). Então, com os processos e estudos em que fui me envolvendo aqui em São Paulo, ligados à música corporal com Barba e sua vasta trupe de seguidores, minha nova estética musical foi se fazendo. Através de muitas praticas de improvisação e estudos vocais, fui criando um número considerável de composições e quando fui ouvi-las para a seleção do conceito do disco, observei que tinha ali uma coerência que levava muito para a música vocal e corporal, com gotas densas e coloridas de matriz moçambicana. E assim, em parceria com o Jonas Tatit, fiz o disco. Ele pode ser ouvido no meu site: e em todas plataformas digitais (Google, Itunes, Apple, Deezer, Spotify, YouTube, etc.).

Suas canções dialogam intensamente com o universo cultural moçambicano. Quais aspectos da cultura de seu país estão mais presentes em suas músicas?
Eu sou machope, porque meu pai é machope. Sou jawa, porque minha mãe é jawa. E sou maronga, porque nasci em Maputo.Os machopes são um povo do sul de Moçambique, especificamente Inharrime, Zavala, Chidenguele (províncias de Inhambane e Gaza), um povo consideravelmente grande. No disco, trago uma canção popular Kundaka Kambidi, que, por acaso, de acordo com o que foi revelado por minha avó e alguns conterrâneos machopes, é uma canção cuja história foi feita por um Bahule. No site e no encarte do disco tem a história. Tem também a timbila, tocada pelo Cheny Wa Gune, que é patrimônio cultural do país e prática pertencente aos machopes. Os jawas são do norte, Niassa mais especificamente. Sobre eles ainda estou me aprofundando, pois nunca fui ao norte. Minha mãe também já não se lembra de muita coisa da cultura dela, infelizmente. Então, preciso começar um pouco mais do zero. Dos marongas, interpreto Solomoni, canção gospel, a partir de uma história bíblica que teve sua composição original feita pelo maestro Tchemane, da qual, no disco, faço uma releitura. E tem também a Oração, que revela a herança das vivências religiosas católicas que fizeram parte da minha formação humana e social, vivências que guardo com muito carinho e boas lembranças, apesar de hoje não ser adepta de nenhuma doutrina religiosa. O Xithokozelo, interpretado pelo Tchaka Waka Bantu, que é poesia feita em língua local. No disco está em changana tradicional, falado pelos madodas (mais velhos). O resto são referências que não podem ser colocadas em palavras, estão na célula e na expressividade natural do que me acompanha na minha memória ancestral.

Algumas das faixas de Nômade são cantadas em línguas africanas, a nos trazer uma sonoridade harmônica e melódica. Em que línguas você canta?
Swahili, chope, changana/ronga e língua inventada, nômade. Porque, às vezes, a mensagem ganha mais sentido quando não entendemos o sentido literal dela e deixamos a nossa imaginação gerar suas percepções sensoriais do que está sendo dito. Esse disco é sobre isso também.

Suas canções revelam uma espécie de poética da natureza, com grande destaque para os sons das águas. Como se dá seu processo de criação?
A prática da improvisação e dos jogos musicais em grupo foi um grande marco no meu processo criativo. Me vi ganhando mais autonomia e flexibilidade no jeito de compor. Há um tempo, costumava compor com piano ou teclado, portanto as ideias iam até onde meu conhecimento do instrumento me permitia. Quando comecei a usar o pedal de loop, essa limitação se expandiu, passei a compor mais ritmicamente. Comecei a pensar em células rítmicas e abertura de vozes de forma mais criativa. E quando passei a frequentar os grupos de estudos de percussão corporal que são embasados nos jogos musicais partindo do improviso, foi a grande virada para a minha escuta criativa interna. Comecei a pensar em naipes, em camadas, em estéticas, em timbres, em polifonia e polirritmia. Sem falar que como não precisava mais de instrumento, observei que poderia fazer música a qualquer altura, em qualquer lugar, de qualquer forma. Fiz muita musica lavando a louça, varrendo a sala e andando de metrô. Atualmente esse é o meu caminho de composição mais fácil. Do improviso, surge algo que se estrutura a partir disso. Mas estou buscando novos caminhos, pois estou agora querendo expandir meus horizontes harmônicos. Ver como posso caminhar melodicamente, harmonizando. Resumindo, cada momento é um momento diferente de processo criativo. Varia do humor, da inspiração, do que há para ser aprendido, do que quero comunicar.

A marrabenta, estilo de música moçambicana criada nos anos 30 e que alcançou seu auge na década de 50, influencia a sua música em algum sentido?
Acho que sim. É meio difícil não se influenciar pela marrabenta. É muito groove. As melodias são bonitas e dizem muito sobre a história. E isso para mim é importante. Música que conta uma história. Além da marrabenta fazer parte da minha infância, ela me representa.

Você afirma que algumas de suas canções fazem parte   do cancioneiro religioso e que relatam histórias, fatos reais naturais na vida de todo ser humano.  Considera-se uma pessoa religiosa?
Se nos basearmos no significado etimológico da palavra, sim, sou religiosa. Religare, quer dizer religar, reconectar com algo divino, transformador, regenerador, amoroso, potencializador, energizador, abundante, acolhedor. Todos nós nos religamos. É inerente a todo o ser vivo. Então, sim. Sou bastante religiosa. Valorizo muito estar conectada com o que é divino, transformador e potencializador.
Há uma composição sua baseada numa história de Mia Couto, em seu livro O Bebedor de Horizontes. Como se deu o encontro com o escritor e como foi o processo de musicar o texto dele?
Puxa, essa história é longa! Mas foi um grande encontro, do qual sou muitíssimo grata. Eu acredito que os encontros são feitos antes de acontecerem fisicamente. As pessoas cujas afinidades criativas batem e confluem se conectam antecipadamente por uma energia que se revela quando o encontro físico acontece. Acho que foi isso com o Mia. Seus livros sempre me encantaram e me moveram muito criativamente. Portanto, foi super-fácil fazer a música de O Bebedor.A música especificamente surgiu de um convite para fazermos juntos o evento de lançamento do livro aqui no Brasil.

O que dizer do trabalho de artistas como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e do grupo Barbatuques? Como tem sido seu contato com a música brasileira?
Revolucionário e Inspirador. Para ambas perguntas.
E a experiência de trabalhar com o músico brasileiro João Taubkin?
Bem prazerosa. A gente se dá muitíssimo bem musicalmente e criativamente. Então fluímos quando estamos juntos. Ele é um ótimo músico. Sensível e suingado. Então o encaixe foi bom. Mesma experiência que relatei sobre o encontro com o Mia. Sinergia antecipada.

Pode nos falar um pouco sobre os projetos que estão por vir?
Já pensando num novo disco, ao menos abrindo as portas da mente criativa, do ouvido cósmico e do coração para ouvir o chamado de qual é a sonoridade que esse disco terá. Paralelamente, entrando em novo processo criativo para ele. Alguns projetos em Moçambique, usando a música como ferramenta de transformação e ação social. Turnê com o Nômade, meu projeto de música vocal, que leva nome e conceito do disco.Lançamento do livro de jogos e brincadeiras de Moçambique, ainda neste ano, se tudo der certo. 


Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.