meiotom  poesia & prosa

e-mail: meiotom@uol.com.br

 

   meiotom.blog                                                 ENTREVISTA

 

ESPECIAL

 André Carneiro

 Eunice Arruda

 Leminski

 J. Cardias

 Jorge Cooper

 Poesia Cubana

 Poema Libai

POESIA

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 POESIA VISUAL

 Almandrade

 Carlos Pessoa Rosa

 Clemente Padín

 F. Aguiar

 G. Debreix

 Hugo Pontes

 José L. Campal

 J.M.Calleja

 Rafael Marin

 Poe-Zine

 Marcos Rosa

 Avelino Araujo

 Thierry Tillier

 FOTOGRAFIA

 Andrea Angelucci

 F. Pillegi

 Euclides Sandoval

 TITE

 GONDIM

ARTES PLÁSTICAS

 Lúcia Rosa

 Felipe Stefani

 Maria Domênica

 Lampros

 DIVERSOS

 Concursos

 Resultados concursos

 Resenhas

 Estatística

João das Neves: teatro e comprometimento social
                                                                                           Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
Dramaturgo, diretor e ator de sólido engajamento com as causas sociais de nosso tempo, muito bem definido pela crítica e ensaísta Ilka Marinho Zanotto como “homem de teatro total”, João das Neves reúne em seu currículo algumas das mais bem sucedidas montagens teatrais de nosso país, a partir de meados dos anos 50, quando iniciou sua carreira.
Quando a descoberta do teatro?
Muito cedo. Devia ter oito ou nove anos. Morávamos no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Isso na década de 40. Época de grandes transformações, a maioria das casas residenciais sendo derrubadas para a edificação daqueles prédios de dez, doze andares, que ainda hoje são uma das características mais marcantes do bairro. Ali, na praça Serzedelo Correia, havia, nos finais de semana, uma grande concentração de operários da construção civil, nordestinos em sua maioria. A ponto da praça ser apelidada de Praça dos Paraíbas. Ali se vendiam folhetos de literatura de cordel, violeiros se desafiavam e, de vez em quando, até apareciam brincantes dançando e representando o bumba-meu-boi e outros folguedos. Como se não bastasse, uma trupe de italianos fazia, todos os domingos, apresentações de teatro de marionetes, numa empanada de alvenaria. O ingresso devia ser bastante barato, mas grande parte da garotada - eu, inclusive - entrava por debaixo do pano que circundava o pequeno espaço. Ali, descobri, não apenas o teatro, mas aprendi a amar as manifestações populares, que até hoje se fazem presentes em meus trabalhos.

Pode nos falar um pouco sobre sua experiência no Centro Popular de Cultura (CPC) e as conseqüências que o golpe militar de 1964 trouxe para o grupo?
Extremamente enriquecedora, pois o CPC era para todos nós um desafio constante. Muito longe da visão distorcida que se tenta vender das suas ações e atividades, o CPC da Une e todos os demais eram centros de permanentes discussões, reflexões e reavaliação das suas diversas trajetórias. Obviamente, o golpe militar interrompeu todo este processo. E mais, conseguiu apagar a verdadeira história dos CPCs.  A tal ponto que até mesmo ex-integrantes daqueles centros dão hoje testemunhos extremamente distorcidos sobre os mesmos, atribuindo-lhes um maniqueísmo que jamais existiu.

E sobre o Opinião, ao lado de Vianinha?
De alguma forma, o Opinião deu continuidade ao trabalho do CPC da UNE. Vianinha, Ferreira Gullar, Paulo Pontes, Tereza Aragão, Pichin Plá, Armando Costa, Denoy de Oliveira e eu, éramos todos integrantes de uma corrente do CPC que travava uma grande discussão interna na entidade e que ao se reorganizar após o golpe, tentou por em prática os princípios artísticos e ideológicos que norteavam a nossa posição.

 

 

Dentre os vários prêmios que recebeu, como Molière, APCA, Bienal Internacional de
São Paulo e Quadrienal de Praga, algum deles teve significado especial?
Com toda a honestidade, nenhum dos prêmios teve significado maior que o apoio que o público deu a um espetáculo, O Último Carro, que, sem qualquer estrela, se manteve dois anos e meio em cartaz, entre Rio e S. Paulo, sempre com casas cheias.

Uma de suas peças de maior sucesso foi O Último Carro, que ficou dois anos em cartaz, no final dos anos 1970, tendo recebido mais de 20 prêmios.  Qual a razão de tanto sucesso, num período em que fazer arte era o mesmo que lutar contra Golias e nem sempre vencer? 
Talvez por ter demonstrado, na prática, que era possível, sim, lutar contra. E até mesmo vencer o Golias da intolerância, com as armas de uma obra de arte.

Através de uma bolsa de estudos, você foi para a Alemanha, em 1979, estudar Ciências
 Teatrais. E lá você também trabalhou com peças radiofônicas na WDR (Westdeutscher
 Rundfunk). Como foi essa experiência?
Fascinante. Me abriu novos horizontes. Até mesmo porque não fui só para a WDR. Fomos juntos, eu, Fernando Peixoto e Germano Blum, dois parceiros queridos, com quem pude durante um ano e meio trocar experiências diárias, avaliando em conjunto a prática tão
Enriquecedora que estávamos vivenciando.

Há um trabalho radiofônico produzido por você na WDR, ainda inédito no Brasil, pois foi censurado pelo regime militar, chamado A Pandorga e a Lei. Qual o tema deste trabalho e qual foi o motivo alegado pelo governo da época ao censurá-lo?
Este trabalho, A Pandorga e a Lei, me foi encomendado pela direção da campanha da Anistia.O tema era a luta contra a ditadura e a denúncia da tortura institucionalizada, após o famigerado Ato nº 5. Precisa citar o motivo alegado pelo governo para censurá-lo?
Atentado contra a Segurança Nacional.

Transferindo-se para Rio Branco, em 1986, e lá fundando o Grupo Poronga, você encenou
Tributo a Chico Mendes. Que motivos o levaram a deixar o Rio de Janeiro e ir para Rio Branco? E por que razão decidiu encenar Tributo a Chico Mendes

Minha ida para Rio Branco, no Acre, se deu por uma espécie de saturação do meio artístico do Rio de Janeiro, que começava a ter seus destinos dominados pelo monopólio de televisão, tudo ou quase tudo girando em torno dela. Achei que, ou me rendia, ou procurava outros caminhos, onde pudesse exercer com mais liberdade uma linguagem teatral, desvinculada de interesses tão determinados. Surgiu uma oportunidade para ministrar uma oficina para atores, um convite da Fundação Cultural.  Fui para ficar dois meses e acabei lá permanecendo por quase oito anos. Tributo a Chico Mendes surgiu através de um convite do Conselho Nacional de Seringueiros, para a realização de um documentário teatral denunciando o assassinato daquele grande líder da luta dos seringueiros, nações indígenas e ribeirinhos pela preservação de suas culturas contra os interesses econômicos e predatórios das frentes madeireira e pecuária.

Em 1988, você dirigiu A Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento, Pedro Tierra e D. Pedro Casaldáliga, apresentado no centro histórico do Rio, com 300 participantes e um público de aproximadamente40 mil espectadores. Como foi encenar este que é um verdadeiro marco da história do teatro de rua no Brasil?
Emocionante. Impossível descrever. Gostaria de ter tido a possibilidade de ter realizado uma filmagem aérea do espetáculo,mostrando os  muitos  grupos de artistas negros se deslocando de diferentes pontos da cidade e dando conta da riqueza e diversidade  das manifestações  artísticas da cultura afro-brasileira, conduzindo o público através das ruas do centro da cidade para os Arcos da Lapa, onde finalmente se realizou a encenação dessa missa , verdadeira epopéia de nossa nação, emoldurada pelo gênio musical ímpar de Milton Nascimento .   

E remontar Zumbi, após quase 50 anos de sua estréia? Que diferenças significativas destaca entre as duas montagens?
A remontagem de Zumbi foi uma iniciativa de Cecília, viúva de Augusto Boal. Ter sido escolhido para dirigi-la foi, para mim, grande admirador da obra de Boal, Guarnieri e Edu Lobo, motivo de grande orgulho. Houve muitas diferenças. Os tempos são outros que não os da ditadura, quando da primeira montagem. Pudemos dar mais destaque a aspectos particulares da cultura e organização social extremamente avançadas dos quilombos. Além disso, foi possível dar uma atenção maior à riqueza e sofisticação da música de Edu Lobo. Nestes aspectos não posso me furtar de citar as contribuições decisivas de Rodrigo Cohen (cenário e figurinos) e de Titane (direção musical), cujos, talento e dedicação em muito contribuíram para que nós, diretor e elenco, realizássemos este espetáculo-homenagem de que muito nos orgulhamos.   

Que leitura faz do atual cenário de nosso teatro e das leis de incentivo à cultura?
 O teatro brasileiro passa por um momento muito rico e promissor, com a volta da prática da atividade de grupos expandindo-se país afora. Quanto às leis de incentivo, lamento dizer, mas se tornaram reféns de interesses comerciais, onde os artistas estão a mercê de regras
Ditatoriais e nada artísticas dos departamentos de marketing das empresas. É necessário que se estabeleça uma grande e aberta discussão em torno delas, para que sejam reformuladas ou até mesmo abolidas, criando-se um fundo sem a ingerência de interesses alheios à criação artística. Um bom exemplo a ser observado com carinho é a lei de fomento, que por iniciativa do movimento Arte Contra a Barbárie e da Cooperativa Paulista de Teatro, acabou por ser acolhida pela Prefeitura da cidade de S. Paulo. Valeria a pena estudar a trajetória do movimento e dos resultados por ele alcançados.

 

 

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.