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Clarice Niskier: o teatro como guia e paixão

Jornalista por formação, Clarice Niskier encontrou no teatro sua grande paixão. Em 35 anos de carreira e mais de 40 peças encenadas, seu maior sucesso é, sem dúvida, a adaptação teatral do livro A Alma Imoral, do rabino Nilton Bonder, há mais de uma década em cartaz.

                                                                            Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Em que momento da vida a escolha do teatro como profissão e paixão?
Foi quando trabalhava no Jornal do Brasil, como repórter e ainda cursava a Faculdade de Comunicação, na PUCRJ. Entrei em crise, tive uma gastrite de fundo emocional, um gastroenterologista disse que eu deveria fazer análise. À noite, conversando com um amigo meu na faculdade, Carlos Nepomuceno, hoje professor e autor do livro Conhecimento em Rede, ele me disse que eu deveria fazer teatro. Fui com ele ao Tablado. Gostei, me inscrevi. Faltava à faculdade toda sexta-feira à noite, para fazer aula de teatro. Minha rotina era trabalhar no jornal pela manhã e estudar à noite. Meu sonho de criança era ser jornalista. Eu gostava muito de trabalhar no jornal, mas algo, de repente, ficou fora da ordem. O teatro foi uma paixão. Uma descoberta. Fiquei boa da gastrite. Em 1981, me apresentei no Tablado e em 1982, estreei a minha primeira peça profissional, Porcos Com Asas, e aí nunca mais parei. Completei 35 anos de atividades este ano. Já são mais de 40 peças encenadas. Não gosto muito de ficar contando, porque no teatro é sempre a primeira vez, mas são 40 peças e meu entusiasmo continua o mesmo, talvez ainda maior. Acho uma das artes mais bonitas do mundo, ao lado da música, do cinema, da dança, da poesia, da literatura, das artes plásticas e da fotografia. Quando comecei a ler os livros do rabino Nilton Bonder, compreendi que existem em nossas vidas os anjos que nos conduzem ao destino, anjos que nos apontam os caminhos que vem com força de destino, como o amigo Carlos. 

A criação, por vezes, mantém códigos indecifráveis. Como é ser uma artista multifuncional - escrever, dirigir e atuar? Há preferência por uma destas atividades?
A preferência é sempre pela atuação. O trabalho de atriz é a prioridade. Mas gosto tanto de teatro que quando não posso atuar, topo dirigir, topo ajudar no que for possível, topo escrever, enfim, topo me envolver do modo que for possível no projeto. E quando os projetos são meus, a multiplicidade de funções é uma decorrência natural do trabalho de atriz. 

Mesmo grávida de oito meses, você estreou, em 1999, um monólogo com textos de Clarice Lispector, marcados pela densidade e pela dor. Como foi esta experiência?
Minha gravidez foi muito desejada. Meu filho estava sendo gestado e amado. Puro teatro. Puro processo. A dificuldade inicial foi quanto ao fôlego. Às vezes, eu perdia o fôlego durante os ensaios. Mas isso foi passando. Trabalhei até o início do nono mês. Meu filho se expressa muito bem, é todo articulado, tem opinião sobre tudo, dizem que é conseqüência dessa experiência pré-natal. Quanto aos temas dolorosos que o texto abordava, não havia nenhum problema. A realidade é puro paradoxo. A morte não deixa de existir porque o nosso tempo íntimo se eternizou. Falar da angústia, plena de vida, de amor, foi uma experiência que me ensinou, que me marcou. As lembranças que tenho desse momento são um dos presentes mais bonitos da minha vida de atriz.  

Ser mãe e dedicar-se à carreira de atriz, que tanto absorve, traz algum sentimento angustiante?
Sim. Ser mãe já traz uma angústia inerente. Ser mãe e atriz, haja coração! Mas como eu disse, a realidade é paradoxal. Ser mãe também me trouxe muita energia e liberdade. A maternidade, para mim, é uma realização, então se gera o medo de perder, gera também a força para viver. Na realidade, eu vivo para o teatro e para a minha família. Minha vida agora é nesse tempo binário. Quase não freqüento a night, quase não vejo os amigos. Desde que o Vitor nasceu, tem sido assim. Sinto as culpas normais, que todo mundo sente. Mas sinto também muito apoio e compreensão por parte de várias pessoas. E o Vitor acompanhou por muito tempo a trajetória de A Alma Imoral. Agora, não viaja mais com a gente, porque tem outros interesses, mas por muito tempo ele viajou. Minha família é um pouco família de circo, onde vai um, vão todos. Quando não dá, a gente conversa e apesar de sentirmos certa tristeza por não estarmos juntos, há muito amor.  

Todo ator está sempre em busca de um bom texto, que arrebate e ofereça  desafios. Foi assim quando você leu A Alma Imoral?  Poderia nos contar como foi a transformação do livro em peça teatral?
Foram dois anos estudando A Alma Imoral, do rabino Nilton Bonder. Dois anos transformando o livro em peça teatral. O livro A Alma Imoral é para mim um livro mestre. Ele me ensinou, me ensina e me ensinará sempre. Leio e releio. Faço a peça há doze anos e ela está vivíssima dentro de mim. Faço outros trabalhos paralelos e ela está vivíssima dentro de mim. Não tem explicação. Fui seguindo minha intuição e fui encontrando os caminhos. Eu não tenho um manual de como fazer nada, sabe? Eu vou seguindo um fluxo, olhando para frente, querendo aprender. Quando eu era criança, meu pai dizia sempre que eu fazia as coisas pelo método do confuso. Por esse método, fui me apaixonando pela Alma Imoral e fui adaptando o texto para o teatro. Meu método contém muita confiança e disciplina. Sou muito disciplinada. Tenho um caos interno intenso, sou um pouco atrapalhada e confusa, mas muito disciplinada. Amo arrumar minha casa interna. E eu arrumo a casa no teatro. O teatro me guia. Claro que a experiência contou. Meus trabalhos anteriores foram referências.  Mas continuo pelo método do confuso.  

Surgiu algum medo quando se propôs à empreitada de levar aos palcos a obra de Nilton Bonder?
Vários medos. Quando estreei, minha boca estava seca, totalmente sem saliva, meu sistema nervoso estava sendo colocado à prova. A grande atriz Camilla Amado me disse outro dia que o teatro é a arte de dominar o pânico. Teve esse lado, sim.

Alguma estratégia utilizada para se manter concentrada com plateias que exprimam uma reação conservadora, maliciosa ou irônica em relação ao espetáculo e à nudez da personagem?
Concentração, atenção e apreciação. Eu faço um bom aquecimento, sempre, antes do espetáculo, para afinar minha atenção. Estar atenta, aqui e agora. E  o próprio texto da peça me ajuda a superar qualquer dificuldade que aparece. Eu me apóio nele. Ele é o meu refúgio. Porque ele fala dessa tensão. Se a pessoa não gosta do que estou fazendo, ela tem todo o direito. Se ela me agredir, aí é na hora que saberei o que fazer. Mas é raro acontecer algo desagradável. Só uma ou duas vezes passei um aperto. Uma, foi quando uma mulher da platéia gritou: abacaxi. Ela gritou, no momento das repetições. Abacaxi! Eu não falo a palavra abacaxi. Eu pedi um tempo para pensar, pois eu ia ver se associava alguma passagem da peça com a palavra. Joguei de verdade. Deixei minha mente funcionar, fiquei no vazio, não veio nada. Aí disse: olha, eu não associei nada com abacaxi. Foi tão sincero que ela não disse mais nada e a plateia seguiu pedindo as repetições com o maior carinho e respeito.

Como você analisa a relação quase física estabelecida entre ator e plateia, com olhares,  gestos, respiração? Como foi sua experiência na Virada Cultural, em São Paulo, onde você se apresentou num palco externo, no Pátio do Colégio?
Foi legal demais. Ali eu dominei o pânico. Mais de mil pessoas, um frio tremendo, estava fazendo nove graus naquela madrugada. Quando tudo engrenou e todos nós ouvimos em plena praça pública o silêncio vivo daquela comunhão, ao lado de tantos carros, sirenes, buzinas, no coração de São Paulo, foi como ver surgir uma abóboda teatral feita de fios invisíveis, feita de sensibilidade, construída de atenção, de união, sei lá.  Foi muito bonito. Foi como fazer a peça grávida de meu filho. Ali fiquei grávida. Valeu todo esforço, toda adrenalina.
A tradição na cultura judaica muitas vezes é transmitida através de um senso de humor forte, que instiga questionamentos profundos. Concorda com tal afirmação?
Sim. O senso de humor é matéria-prima da sabedoria judaica. É a matéria-prima da sabedoria.

A Alma Imoral faz referência ao budismo. Que relação é possível estabelecer entre  judaísmo e o budismo? O que significa a religião em sua vida?
É possível estabelecer muitas relações entre o judaísmo e o budismo, ao menos para mim. É muito importante deixar claro que este é o meu olhar. Sou uma pessoa livre por dentro e faço trilhares de relações. Algumas são pertinentes, outras fantasiosas. Para mim, não importa, procuro discernir isso, mas todas as relações que acontecem dentro de mim são importantes. Minha imaginação voa, tenho um mundo de possibilidades dentro de mim, o teatro é o território das possibilidades, como ensina Amir Haddad. Então, eu tenho muito cuidado ao afirmar certas coisas, quero que fique bem claro que é a minha maneira de pensar, que é o meu olhar sobre as religiões. Para mim, é simples assim: quando não há intenção de dominar o outro, todos os saberes humanos são complementares. Quando há intenção de dominar o outro, os saberes se separam. Quando as religiões têm interesse na evolução do espírito humano, elas se completam e se complementam, se admiram e se respeitam. Quando não têm interesse na evolução do espírito humano, mas na dominação do outro, quando se atrelam a questões políticas,  elas servem à guerra.  É muito triste, mas é assim. E é muito belo quando o interesse é o homem e não a dominação do homem. As religiões podem ajudar na construção da liberdade. Mas o interesse tem que ser esse. Aí sim, elas são incríveis.  

Como  analisa a escravidão de beleza para a mulher, sobretudo daquelas que estão na mídia?
Hoje em dia há escolhas. Há vários tipos de beleza. Outro dia, O Globo me convidou para fazer uma capa para o caderno Ela. Uma mulher de 50 anos que usa cabelos compridos. Estou na contramão da etiqueta, pois dizem que cabelo comprido em mulheres maduras envelhece. Mas eu uso e gosto. E dizem que em mim fica bem. A pressão é muito grande por um modelo, sim. Mas ao mesmo tempo, há escolhas e caminhos alternativos muito felizes. Hoje em dia a mulher é muito mais livre do que foi antigamente. Eu acho. A própria moda é mais flexível. Nós podemos escolher, às vezes parece que não, mas podemos. Como diz o Caetano Veloso: cada uma sabe a dor a e delicia de ser o que é.  Uma coisa eu acho bem séria: não acabe com a sua saúde em nome de uma beleza que depende de muito dinheiro para ser mantida. Embeleze-se com a própria energia criadora que há em você. Essa é a prioridade.

Concorda com  a idéia de que A Alma Imoral apresenta uma moralidade cordata, mas ao mesmo tempo transgressora.
Cordata, no sentido de educada? Sim. Nilton Bonder diz que precisamos ser muito educados, se desejamos realmente ser livres. Educação não é cinismo, nem hipocrisia. É educação, no sentido pleno da palavra. Educação é fundamental para nossa convivência em sociedade.

Que gêneros mais lê e o que está lendo atualmente?
Leio tudo, gosto de muita coisa. Atualmente, leio um livro incrível Bem Vindo ao Deserto do Real, de Slavoj Zizek. Recomendo.

Tivemos, pela primeira vez em 500 anos de história, uma mulher, de esquerda,  dirigindo o país.  Acredita que isso foi uma conquista importante ou ainda falta muito para a verdadeira igualdade de direitos entre homens e mulheres entre nós?
Muito importante. Muito, mesmo. E ao mesmo tempo, falta ainda muito chão para uma verdadeira igualdade, que será na realidade, o reconhecimento de nossas diferenças, com base no respeito a essas diferenças, com base na apreciação dessas diferenças. Quando a humilhação e a opressão não ameaçarem mais as mulheres, quando a força bruta não ameaçar mais as mulheres, aí sim, teremos um mundo mais justo. Quando a força bruta não ameaçar mais a natureza, as crianças, os idosos, teremos um mundo mais feminino, mais equilibrado, mais prazeroso. Quando a força bruta não intervir mais nas crenças das pessoas, o mundo será mais amplo. Quando a força bruta não impuser mais suas verdades absolutas, espalhando preconceitos, tudo estará bem melhor.

Quais os desafios em se fazer teatro num país em que uma parcela ainda tão pequena da população chega até ele? As leis de incentivo à cultura têm funcionado ou ainda precisam avançar?
Acho que o brasileiro adora teatro, só não vai mais porque é caro. O brasileiro é teatral, você não acha? É solto, é alegre, é ritualístico, é simpático, é comunicativo, projeta a voz normalmente, é também introspectivo, desconfiado, matreiro, faz rima de amor e dor. O brasileiro sabe refletir de modo simples, direto, ama a terra, ama o chão que pisa, é verdadeiro, é dramático, é engraçado, é inteligentíssimo, é tudo, tem quase todas as raças do mundo no seu DNA. O brasileiro é incrível. Amo o Brasil. Como judia, fui educada para aqui crescer e contribuir para a cultura deste país que recebeu tantos imigrantes. E acho que estamos num excelente momento cultural. Sempre teremos que avançar e aprimorar as leis. Leis foram feitas para serem aprimoradas. Ainda temos muitas coisas a fazer e vamos fazendo no dia a dia. De um modo geral, acho que a cultura está chegando mais perto das pessoas. Mas o orçamento para a cultura, educação e saúde tem que aumentar. É um fato. Tem que haver muito mais investimentos nessa área, tanto do setor público quanto do privado. Tem que ser uma área prioritária. Cultura, saúde e educação, três setores que andam juntos. 

Que leitura faz do baixo nível da programação das televisões abertas no Brasil? Alguma sugestão para mudanças?
Assisto televisão raramente. Não me sinto apta para falar. Adorei Avenida Brasil. Não assisti desde o começo, mas começaram a falar tanto que fiquei curiosa. Não deixei mais de ver, depois que assisti a alguns capítulos. Foi um trabalho excelente. Adriana Esteves estava incrível, todos estavam maravilhosos. Então, eu só vejo quando eu gosto. Mais uma vez, digo: temos opções. Se o nível está baixo, não veja. Se a programação é ruim e tem audiência, então é porque a sociedade está aceitando essa programação. Falta de opção? Acho que essa leitura é um pouco antiga, não?  Conseqüência do baixo investimento em educação no país? Há muitas questões envolvidas. A minha sugestão é a seguinte: não dêem audiência àquilo que não gostam. Não aceitem tudo de mão beijada. Cavalo dado não se olha os dentes? Olha sim.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo(USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparad apela Universidade de São Paulo(USP), professor, ator e jornalista.