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Renata Carvalho: o teatro como luta e ativismo


                                                                   Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Segundo o crítico Anatol Rosenfeld, “o culto cristão original nada é senão uma espécie de compressão simbólica dos acontecimentos fundamentais do evangelho (eucaristia, crucificação, ressurreição), isto é, a narração simbólica da vida, paixão emorte de Jesus.” E é exatamente isso que encontramos em O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela dramaturga e atriz transexual escocesa Jo Clifford, no qual a atriz e diretora  Renata Carvalho protagoniza a história de Jesus Cristo como uma travesti.
Jo Clifford, que tem em seu currículo mais de 80 peças escritas, muitas delas premiadas, tem gerado muita polêmica com O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Todavia, como afirma a dramaturga, cristã convicta, “é um texto profundamente religioso”.
Verdadeiro libelo ao moralismo estreito acalentado por tantos, a humanidade do texto de Jo Clifford, somado ao talento da interpretação de Renata Carvalho, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu é daquelesespetáculos essenciais que nos permitem aniquilar preconceitos e nos encoraja a lutar por um mundo verdadeiramente mais fraterno.

Dentro do que chamamos construção subjetiva de identidade, quais são as dificuldades que você enfrentou desde que decidiu assumir um corpo feminino?
A maior dificuldade, com certeza, é a negação dos pais e a expulsão de casa. Essa é a mais dolorida, seus pais te negarem, pelo simples fato de você ser realmente quem é. Desde que me assumi travesti, automaticamente já fui vista como puta, promíscua e feita apenas para o sexo. A rejeição é muito dolorosa. Somos rejeitadas do seio familiar. Os convites para festas e casamentos diminuem drasticamente. Somos impedidas de freqüentar escola, banheiro de acordo com nossa identidade de gênero. Somos excluídas do mercado de trabalho e só as ruas nos acolhem de forma plena. Somos motivo de piadas e chacotas. Somos assassinadas e espancadas com alto grau de brutalidade. Um homem sair com uma travesti é algo abominável, terrível e vai diminuí-lo como homem, ao mesmo tempo em que permeamos os fetiches sexuais de muitos homens. Por isso, é tão importante que temas como travestilidade,  transexualidade e gênero sejam debatidos, conversados e discutidos. Precisamos desmistificar, humanizar e conscientizar as pessoas que nós existimos e queremos a normatização de nossos corpos e identidade. Essa é a nossa luta. Essa é a minha construção como atriz e travesti. Esta é a minha consciência artística e política.

O que a Renata guarda da drag Sandy Sabatelly, personagem que a tornou bastante conhecida, anos atrás?
Eu guardo as primeiras sensações da descoberta do meu ser feminino. Lembro o prazer que eu tinha em me maquiar, com tudo o que tinha direito , em usar roupas femininas , colocar um salto alto.  Era uma realização. Lembro que chegava onde eu “me desmontava” e demorava a tirar “aquela mulher” e voltar para a realidade. Sandy Sabatelly me fez enxergar, sentir e perceber que era isso que eu queria para minha vida. Até que “ser mulher” apenas aos finais de semana, não me interessava mais. Eu queria essa sensação para minha vida toda. Ela abriu os meus caminhos.

Quando surgiu o interesse pelo teatro?
Atuar sempre foi uma grande paixão. Quando criança, imitava, inventava cenas em frente ao espelho. Na escola, gostava de apresentar, escrevia, dirigia. Em 1996, li um anúncio, no Diário Oficial de Santos, sobre um curso de iniciação teatral com Valter Rodrigues, no Teatro Municipal. Um curso de poucos meses. E estou no teatro até hoje. O teatro me acolheu com tanto amor, com tanta verdade. Me aceitou da maneira como eu era, não pediu para eu mudar nada. O teatro é o lugar mais democrático que eu conheço no mundo. É nos palcos onde eu sou plena, inteira, completa.

O fato de você ser uma travesti reduz a oportunidade de atuação?
Ser e me assumir travesti também é um ato político. E acho importante ressaltar isso. As oportunidades para as travestis são difíceis em qualquer área, inclusive na cultura. É normal que quando vão falar de nós chamem atores ou atrizes cis para nos representarem. Olha aí a Gloria Perez querendo colocar uma mulher para fazer papel de um homem trans. Não, definitivamente, não! E chega de desculpas, tapinhas nas costas, apertos de mãos ou discursos vazios! Chega! Precisamos e necessitamos de representatividade. Atores e Atrizes cis, por favor, não aceitem representar papéis de travestis, mulheres e homens trans. Precisamos ser vistas, lembradas, afinal, nós existimos e queremos lutar pelo nosso lugar. E se a Natalia Mallo, tradutora e diretora do espetáculo de Jesus, tivesse optado por uma atriz cis e não uma trans? Quem falaria por nós? Quem nos representaria? Isso é preconceito sim, velado, mas é. Digam não à transfobia. Não nos excluam dos palcos, das escolas, de nossas casas, da televisão, dos hospitais, da nossa identidade, do cinema. Estamos aqui, permaneceremos e resistiremos. Desde Roberta Close, Rogéria, Phedra de Cordoba, Claudia Wonder,  Thays Bratz , Leonarda Gluck, Daniela Glamour, Barbara Aires, Maitê Schneider, Dalia Gil, Dandara Vital, Leo Moreira Sá, Thammy Miranda,  Mel Campus e tantas e tantos outros É só nos procurarem, pois queremos apenas uma oportunidade.

A peça Dentro de Mim Mora Outra é inspirada em sua história de vida. Como e quando surgiu a ideia do espetáculo? E porque narrar sua própria experiência?
Em 2009, fiz um espetáculo Nossa Vida Como Ela É... ,em Santos, dirigido por Maria Tornatore. Foi minha primeira vez como atriz nos palcos, pois passei dez anos apenas dirigindo. Nessa fase, me descobri drag queen e logo veio a travestilidade. Nesse espetáculo, baseado em A Vida Como Ela É..., de Nelson Rodrigues, pegávamos um conto ou mais e misturávamos com nossa própria vida. Escolhi o conto “O Delicado”. Era uma cena de cinco minutos, com duas falas e música de fundo. Eu mostrava meu conflito como travesti, meu casamento (casei em 2008) e minha família. Como a travestilidade ainda era algo novo e muito distante, as pessoas vinham cheias de perguntas e questionamentos, querendo entender mais do tema. Inclusive, alguns amigos muito próximos. Com isso pensei: isso pode dar um espetáculo. Em 2011, ganhamos o Proac LGBT. Em outubro de 2012, estreamos Dentro de Mim Mora Outra,  em uma boate LGBT em Santos , a Tribal Club , com direção da Maria Tornatore e texto de Ronaldo Fernandes. Eu acreditava que contando minhas experiências e vivências como travesti, ajudaria a diminuir o preconceito, a descriminação. Mas eu ainda estava descobrindo esse novo mundo, essa nova vida. Contava tudo, dramas familiares, preconceitos, transformação no corpo. Foi transformador e fundamental para o meu entendimento como artista. Esse é o papel da arte, do teatro, o da humanização. Fiquei em cartaz com o Dentro até o começo de 2016 e ele está em processo de (re) montagem e pesquisa. Vou contar outras historias de travestis, mulheres e homens trans, juntá-las à minha historia, costurando o espetáculo que agora se chamará Eu Travesti, dirigido por Kadu Veríssimo, um grande amigo e parceiro de trabalho, de quem eu sou completamente fã e admiradora. O texto e a direção da Princesa que Nasceu Menino, outro espetáculo meu, são dele também, assim como Zona!

Na peça Zona! há manifestações perturbadoras por parte dos personagens, pelo fato de viverem à margem dos modelos sociais pré-estabelecidos. Quais os pontos de intersecção entre sua personagem em Zona! e a do monólogo de Jo Clifford?
Os dois espetáculos são dramas femininos, falam de pessoas à margem, esquecidas ou rejeitas pela “sociedade do bem”.No Zona!, falamos da zona portuária, zona de prostituição e a zona que está o mundo, com direito a passeio pelas catraias de Santos, com cenas em alto mar e término no Bar Santa Madalena.  Abordamos o capital, a prostituição, o porto e seus personagens, a gentrificação, as drogas, a aids, a relação oprimido/opressor,  a desigualdade, a política. No Zona! eu represento todas as prostitutas e travestis . Em O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, a autora, Jo Clifford, por ser uma mulher trans, não entendia a posição da igreja com as pessoas trans. É um texto em que ela retrata o maior símbolo de injustiça que nós conhecemos. E com sua vivência pessoal trans busca uma ressignificação da história de Jesus, mostrando-o dentro de uma das populações mais estigmatizadas e marginalizadas da nossa sociedade, as pessoas travestis e trans. E Jo é brilhante, o texto é leve, não aponta, não julga, apenas mostra. Fala sobre amor, tolerância e respeito, sem ser piegas. A Jo tem uma alma grande e iluminada, é uma excelente escritora. Nesse texto,  vivo “a Jesus”, pois agora Ele é Ela. É um texto transfeminista. E se Jesus voltasse nos dias de hoje, como uma travesti?

De que maneira O Evangelho chegou às suas mãos? Como foi seu contato com a Jo Clifford?
Foi através do Facebook, de um flyer de um projeto chamado TransBiografia, procurando atrizes trans. Fui marcada por dois amigos nessa postagem, o Kadu Veríssimo e o Rodrigo Eloi. Mandei email, depois um vídeo. Em seguida, a Natalia Mallo, diretora do espetáculo, marcou um encontro e, no meio da conversa, me entregou o texto, dizendo: “você será a minha Jesus”. De lá pra cá, passou quase um ano até a estreia. E entraram no projeto a Gabi Gonçalves, como diretora assistente, e sua produtora, a Núcleo Corpo Rastreado. Em maio deste ano, a Jo veio ao Brasil, junto com a diretora Susan Worsfold e a produtora Annabel Cooper, e ficamos juntas durante toda a temporada que ela fez aqui no Brasil. Fui ao Rio de Janeiro, à FLUPP, a Belo Horizonte, ao FIT BH, à parada LGBT, em São Paulo. E passamos juntas um final de semana, em São Sebastião, no litoral de São Paulo. Natalia faz parte da Cia. Queen Jesus Plays e hoje somos uma só. Jo é extremamente doce, inteligente e muito humana. Estar com a escritora e atriz que faz a Jesus foi fundamental para o entendimento e conhecimento real do texto. Susan e Annabel conversaram muito comigo, elas me deram a força necessária para vivenciar essa Jesus brasileira. 

Em Londrina, O Evangelho seria apresentada na Capela Ecumênica da UEL (Universidade Estadual de Londrina), motivo pelo qual o Conselho de Pastores Evangélicos e a arquidiocese da cidade tentaram censurá-la. Entidades religiosas emitiram notas de repúdio contra a encenação da peça. O que você diz daquele momento?
Londrina foi bem importante para nos mostrar o preconceito e a transfobia. Lembro-me de que quando tudo começou, olhei para as meninas e disse: bem- vindas à transfobia nossa de cada dia. Vivo esse preconceito diariamente. O episódio da capela ecumênica nos mostra a hipocrisia estampada nesses falsos moralistas e conservadores. Eles esqueceram o que significa uma igreja ecumênica?  Fomos resilientes e nos adaptamos no maior anfiteatro da UEL, dobrando o público. E quando chegamos ao FILO (Festival Internacional de Londrina), os ingressos para os três dias de apresentações já estavam esgotados. Tivemos muito mais apoio e demonstrações de carinho. Uma mulher grávida e outra com uma crianças de 28 dias foram à porta do anfiteatro colar cartazes contra a transfobia. A marcha das vadias foi fazer uma corrente na frente do anfiteatro, para que o espetáculo não fosse interrompido. Tivemos uma nota de apoio da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil,  diocese do Paraná,  através da reverenda Lucia Dal Ponte. Foi feita uma vigília com diversas pessoas de vários cantos do mundo.Tivemos um público presente, vibrante, carinhoso e muito receptivo. Padres, freiras e pastores evangélicos foram assistir e nos cumprimentaram ao término da peça. Muitas mulheres se emocionaram. No último dia, ganhei de uma moça, que veio com o namorado e a mãe, uma planta com um caderninho escrito: “Jesus é o caminho, e a verdade, e a vida. Ass: Uma família Cristã”. Voltei para São Paulo emocionada.

A expressão do estado emocional da personagem acaba por definir uma cena de maneira dramática ou cômica. Em O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, o sentimento de angústia e alegria se alternam constantemente. Você exercita essas oposições com maestria, indo da lágrima ao riso com grande facilidade. O texto e a técnica são os únicos facilitadores e responsáveis por tal desempenho ou é preciso alguma coisa a mais?   
Eu apenas vivo essa historia. 

Podemos dizer que O Evangelho é também um instrumento de ativismo e luta pelos direitos das minorias sexuais?
O Evangelho é um espetáculo transfeminista. A mulher, o fenótipo feminino, é a protagonista nessa historia. É corretíssimo falar que é um instrumento de ativismo e luta. Eu sou uma atriz travesti e militante. Não tem como separar a atriz da minha vida pessoal, de meu papel social. E isso acaba refletindo em todos os meus trabalhos. Seja em O Evangelho, seja no Zona!, no Eu Travesti ou na Princesa que Nasceu Menino , a temática da travestilidade e da transexualidade está presente, é inerente. Não acredito no teatro que não tem o que dizer, que não reflete algo, que não mude algo, que não transforme, não arrebate. O teatro é transformador. E é esse o nosso papel como artista. Eu acredito nisso. É por isso que sou atriz. Por isso que eu luto. Por isso que eu resisto. Juntos somos mais fortes.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.