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Sérgio Sartório: o teatro como transformação


                                                                                     Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Aos 19 anos, o ator e diretor teatral brasiliense Sérgio Sartório resolveu abandonar o comércio para se dedicar integralmente aos palcos. Em 2007, foi num dos fundadores da Cia Plágio de Teatro, que em onze anos de existência recebeu mais de duas dezenas de prêmios por suas montagens, dentre elas Cru e Noctiluzes, largamente consagradas pelo público e crítica, mostrando o vigor e a inventividade da dramaturgia produzida na capital do país.

Quando e como o encontro com o teatro?
Com 19 anos eu já era comerciante há seis e estava cansado da rotina. Fui fazer uma oficina de teatro para me divertir e no primeiro dia algo me disse que seria aquilo para o resto da vida. Em seis meses, abandonei o comércio. E 17 anos depois ainda me lembro muito bem das primeiras aulas, cada vez que estou construindo um personagem ou uma encenação.

Pode nos contar um pouco da história da Cia Plágio de Teatro?
A Cia Plágio nasceu em 2007, mas só ganhou nome em 2009. De lá para cá, passamos por 50 cidades brasileiras e ainda por Milão, na Itália. Hoje, o grupo é formado por mim, André Deca, Chico Sant'Anna, Daniela Vasconcelos e Vinicius Ferreira. Ainda temos Chico Sassi como diretor técnico, além dos parceiros de cronografia e trilha.

A peça Cru, o maior sucesso da Cia Plágio, com 13 importantes prêmios, traz como personagens centrais vítimas da exclusão social. Acredita que o teatro possa contribuir para a inclusão social?
Acredito que o que fazemos pretende espelhar-se no humano. Por vezes nas mazelas, por vezes no belo. Sempre há um pouco de um no outro. Acho que quando nos identificamos com o que vemos em cena ou na vida, é sempre transformador. Acredito que o teatro pode sim contribuir para inclusão social, mas é um trabalho bem mais profundo e delicado do que simplesmente levar uma estória, como a de Cru, à cena. Que certamente comove e transforma nosso olhar para estas questões. Mas existem grupos fazendo esse trabalho mais específico, como a compannhia hispano-brasileira, La Casa Incierta, que acaba de apresentar um trabalho com meninos em situação de rua, chamado Meninos de Guerra. E é certo que esse tipo de trabalho muda a vida desses meninos e as de quem o assiste.

Noctiluzes, do dramaturgo argentino Santiago Serrano, com rara densidade psicológica aborda os desvãos nas relações humanas, os medos tantas vezes inerentes ao homem, os preconceitos que mecanicamente assimilamos. O que tem sentido de mais significativo nas reações do público à peça?
Medos, solidariedade, preconceitos, solidão, entre vários outros, são sentimentos inerentes ao ser humano. Acho que Noctiluzes tem três personagens que trazem muito de tudo isso. Eles estão em um momento extremo em suas vidas. Acho que isso faz com que o público se veja muito em cena. Mas o que acho que emociona o público é como eles lidam com o problema do outro. É o que emociona o espectador. Uma relação que começa cheia de farpas e intolerância, mas que depois coloca uma lupa para vermos, bem de perto, como, mais do que tudo, é inerente ao ser humano a empatia, a vontade de ajudar. As pessoas se divertem com as trocas de ofensas e os conflitos patéticos, mas se emocionam muito com caminho que essas relações se transformam.

Como é o desafio de fazer teatro fora do eixo Rio-S.Paulo? Algo a fazer para descentralizar a produção cultural no país?
Brasília sempre produziu teatro de muita qualidade, mas realmente em relação à quantidade e demanda, é menos expressivo do que São Paulo e Rio. O que temos feito é construir aqui e depois rodar com as peças. Mas, sem dúvida, Brasília é uma cidade que nos inspira muito e acho que também nos mantém mais próximos da nossa essência artística. Nem independente, nem comercial. Mas muito pessoal.

O que dizer das leis de incentivo à cultura no Brasil? Elas têm cumprido seu papel ou acabam favorecendo o mercado, com gordos patrocínios a figuras com apelo comercial?
Acho que têm melhorado muito, mas com certeza há que se engordar os patrocínios aos trabalhos não que não visam apenas o apelo comercial. Esses podem sobreviver sem incentivos públicos. Já os trabalhos de pesquisa, os que não querem ser só entretenimento, só sobrevivem com subsídios públicos e são imprescindíveis à nossa cultura.

É possível sobreviver fazendo teatro de qualidade, à margem das produções comerciais, que visam o mero entretenimento, sem nomes televisivos?
Estamos vivos e acho que nosso teatro é de qualidade (rs). Então, acho que sim!

Tem acompanhado em festivais de teatro as produções de grupos estrangeiros de vanguarda?
Sempre assisto o que dá, mas festival é corrido. Gostaria de conseguir assistir mais.

Pode nos adiantar alguma coisa sobre os novos projetos da Cia Plágio?
Estamos trabalhando em mais três textos do Santiago Serrano. É bom encontrar um autor com quem nos identificamos. Acho que é um bom caminho para evoluirmos nosso discurso e nossa linguagem. Serrano vem da psicanálise e tem muito a dizer sobre a alma humana.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.