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Bárbara Zampol e Isabella Veiga e o teatro como reflexão, transformação e emoção

*Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos

Bárbara Zampol e Isabella Veiga são duas jovens atrizes, que após uma bem sucedida experiência em importantes produções teatrais contemporâneas, fundaram uma companhia teatral e como primeira produção acabam de remontar uma peça que, apesar de escrita há 40 anos, permanece extremamente atual, mostrando que se avançamos socialmente, essa avanço foi muito menor do que se apregoa, pois continuamos a viver numa sociedade predominantemente machista, moralista e dissimulada. A Rainha do Rádio, de José Saffiotti Filho, estrelada, nos anos 70, por Cleyde Yáconis, volta aos palcos num momento oportuno, questionando valores e posturas que há muito deveriam ter desaparecido, mas permanecem mais vivos do que nunca entre nós.

Podem nos contar um pouco sobre a trajetória profissional de vocês e como se conheceram?

Isabella: tanto eu como a Bárbara trabalhamos há mais de 15 anos com teatro. A Bárbara é atriz, arte-educadora, cantora e produtora, formada pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) e pela ELT (Escola Livre de Teatro de Santo André). Atuou em grandes espetáculos, entre eles: Osvaldo Raspado no Asfalto, com direção de Georgette Fadel, Antonio Rogério Toscano, Claudia Schapira, Juliana Monteiro e Gustavo Kurlat; O Zoológico de Vidro, com direção de Bete Dorgan;  Eles não Sabem o que É o Brasil , direção de Antonio Rogério Toscano,  e Léo Não Pode Mudar o Mundo, direção de Georgette Fadel, Antonio Rogério Toscano e Gustavo Kurlat. Eu, além de atriz, sou arte-educadora, jornalista e locutora, formada pela UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), pela ELT (Escola Livre de Teatro de Santo André) e pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Também atuei em muitas montagens teatrais, entre elas: Avaros – Um Estudo Barato sobre a Mão de Vaquice, contemplado pelo Proac e com direção de Georgette Fadel, Newton Moreno, Gustavo Kurlat e Cuca Bolaffi; Relatos de um tempo de homens partidos, direção: de Renata Zanetha, Alexandre Matte, Gustavo Kurlat e Juliana Monteiro, e  Sobreolhares, direção de Edgar Castro. Nos conhecemos em 2005, éramos parceiras num projeto de arte-educação da Prefeitura Municipal de Ribeirão Pires. Neste trabalho criamos um forte laço, composto por vontades e pensamentos artísticos em comum.

Como surgiu a Cia a Quatro Mãos?

Isabella: nossa parceria, em 2005, foi fundamental para que a Companhia a Quatro Mãos fosse criada. Enquanto trabalhávamos juntas, dando aulas de teatro para crianças e adolescentes, começamos a sentir uma admiração muito forte uma pela outra. Um respeito tão grande que fazia com que quiséssemos desenvolver muitas coisas. Nós ficávamos por horas dialogando sobre arte e cultura. Essas conversas fizeram nascer a vontade de estudar temas que considerávamos importantes e instigantes, sempre tendo como base a experiência teatral de ambas. Os encontros, cada vez mais frequentes, fizeram surgir o desejo de dar forma concreta e artística às nossas pesquisas, o que resultou na união das quatro mãos e na criação da companhia.

Que montagens da Cia a Quatro Mãos destacam como definitivas na formação de vocês?

Isabella: A Rainha do Rádio é a primeira montagem da Cia a Quatro Mãos.  De qualquer maneira, acreditamos muito que essa montagem é resultado da história de nós duas e do quanto compartilhamos o que vivemos e o que aprendemos. As montagens teatrais em que a Bárbara atuou fazem parte do que ela é hoje e, portanto, estão presentes no que nós somos juntas e vice versa. Durante todo o processo de A Rainha do Rádio, usamos o nosso repertório para a criação. Muito do que eu vivi hoje posso ver na Bárbara e sei que muito do trabalho dela pode ser visto em mim. Assim, não conseguimos desvincular nossas montagens pessoais do histórico de nossa companhia, montagens sobre as quais falei em minha primeira resposta.

Que critérios levam em conta para seleção de textos que serão montados?

Isabella: antes de selecionarmos o texto para a montagem, conversamos muito sobre os temas que gostaríamos de tratar. Quais questões nos tocam? O que nos move? Qual estética seria interessante ser trabalhada? Depois procuramos uma obra que se encaixe em nossas ambições.Antes de escolhermos A Rainha do Rádio, sabíamos que queríamos falar sobre as relações de poder, as opressões às quais as pessoas são submetidas em seu cotidiano, a hipocrisia, a censura e a força da figura feminina.  Além disso, tínhamos o forte desejo de interpretar a mesma personagem, pela possibilidade rica de construção de uma personagem dúbia e complexa.

Como se deu o contato com a obra de José Saffioti Filho? Podem nos falar um pouco sobre o autor de A Rainha do Rádio?

Bárbara: nós estávamos pesquisando dramaturgias, cujos temas estivessem em sintonia com os nossos desejos previamente definidos. E foi a Isabella quem encontrou o texto de José Saffioti Filho, na biblioteca da Escola Superior de Artes Célia Helena.  Ficamos muito felizes e surpresas ao ler a obra, pois ela continha tudo o que procurávamos, uma vez que aborda o universo feminino, as relações humanas, as relações de poder e censura, além de ser um monólogo, o que nos permitiu interpretar a mesma personagem, ampliando possibilidades estéticas de espaço e tempo. José Saffioti Filho (1947-2006) nasceu em São José do Rio Preto, atuou nas áreas de produção cultural e dramaturgia. Construiu, a partir de 1974, uma obra teatral das mais expressivas. Suas peças, densas e dinâmicas, trazem uma abordagem realista e sarcástica de situações extremas. A fantasia e o delírio também permeiam boa parte de suas obras.

Apesar de escrita e encenada pela primeira vez há 40 anos, A Rainha do Rádio continua atualíssima, especialmente pelo momento político que enfrentamos. Isso foi uma surpresa para vocês?

Bárbara: a dramaturgia, apesar de contextualizada na década de setenta, em plena ditadura militar no Brasil, aborda temas que continuam atuais, como as opressões cotidianas que as pessoas enfrentam em seus locais de trabalho. Também as relações entre gerações, entre pais e filhos, o autoritarismo, o poder, o preconceito, a hipocrisia que permeia a sociedade. Além de falar da importância da arte, por meio de lindas citações de obras poéticas, intensificando o discurso de que a arte sobrevive e sobreviverá sempre.

Como é fazer sobreviver uma companhia teatral com projetos sérios que fujam a uma visão de teatro como mero entretenimento comercial?

Bárbara: divertir é uma importante função da obra teatral, porém, acreditamos que um bom espetáculo também proporciona reflexões, questionamentos, emoções e transformações.  Felizmente, na atualidade, estão se ampliando os espaços e os incentivos para companhias que escolhem espetáculos com finalidades sociopolíticas. Estamos atualmente em cartaz com o espetáculo no Sesc Consolação, em São Paulo e, em maio, vamos circular pelo interior, com a Virada Cultural Paulista. Além da companhia, eu e a Isabella também desenvolvemos outros trabalhos na área cultural. Eu sou produtora no Sesi-SP e a Isabella é proprietária do CO2 Espaço de Artes, em Ribeirão Pires.

Novas montagens esboçadas?
Bárbara: temos um projeto pronto, esperando apenas apoio financeiro. Trata-se de uma peça infantil. Desejamos também que novas parcerias sejam efetivadas, para que A Rainha do Rádio encontre novos campos de atuação, e para que as crianças possam, em breve, acompanhar o trabalho da companhia. Estamos muito empolgadas para concretizar este novo projeto.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e jornalista. Itamar Santos é mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), ator e jornalista.