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Maria Zilda Cunha: a literatura infantil e juvenil contemporânea brasileira

Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), Maria Zilda da Cunha traz oportunas reflexões sobre o momento atual da produção literária para crianças e jovens no país. Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), é autora de Na tessitura dos signos contemporâneos (Paulinas/Humanitas; 2010).

De onde a idéia para realizar, em 2010, o I Encontro Nacional de Produções Literárias e Culturais para Crianças e Jovens e quais seus propósitos maiores?
Na verdade, os diálogos entre a literatura e outros meios de produções de linguagem são as marcas desta nossa era, que parece querer nublar a consciência de que o livro foi o suporte privilegiado das literaturas que exploraram as possibilidades expressivas, cognoscitivas e imaginativas da linguagem escrita. Não é por acaso que nos interrogamos a respeito da literatura (arte da palavra), a respeito do livro (suporte tão privilegiado da palavra escrita), a respeito do ensino da literatura e do texto destinado à criança e ao jovem contemporâneo.  Eu tenho me dedicado a pesquisas sobre a literatura para crianças e jovens e às novas tecnologias e entendo que uma investigação, neste sentido, requer olhar esse objeto de estudo como fenômeno literário complexo, inseparável da cultura, da história e da sociedade. Assim, há a premência de sistematização de estudos e teorias sobre os diálogos e as relações que se estabelecem entre as novas tecnologias de comunicação, a respeito dos códigos e linguagens que tecem a cultura midiática e a cibercultura em que as literaturas, inevitavelmente, imbricam-se. Os desafios que o mundo contemporâneo impõem estão exigindo, na prática de cada educador, determinados expedientes criativos e lúcidos (iluminados pela teoria). No entanto, há a necessidade de um nível de pesquisa solidária e extremamente rigorosa que leve em conta os mecanismos de pensamento das crianças e jovens, o mundo em que vivem, a realidade que se metamorfoseia a olhos nus e traz, a cada instante, fatos novos, antes inexistentes. A consideração dessas questões é importante, quando nos referimos a qualquer área do conhecimento e em especial, quando lidamos diretamente com linguagem. Portanto, para avançar no âmbito do conhecimento, no terreno movediço da literatura, é imprescindível uma comunidade de investigadores e o movimento dialético da investigação. Assim, além de ser parte do meu trabalho investigativo, é um efetivo exercício de uma comunidade de investigadores que partilha princípios e preocupações. O grupo de pesquisa que formamos para o estudo das produções literárias e culturais e os diálogos que estabelecem com a sociedade, objetiva dar caráter acadêmico a essa discussão e o faz com o rigor científico que os trabalhos na universidade requerem. O nosso primeiro encontro é conseqüência desse conjunto de considerações e a oportunidade de ampliar o fórum para a discussão dessas questões, centrais da área, em especial se pensarmos na formação do jovem leitor contemporâneo.

O ambiente acadêmico tem contemplado com maior atenção a literatura destinada às crianças e aos jovens?
É no bojo de transformações estruturais bem expressivas que a literatura para crianças e jovens, antes considerada um gênero menor, vem se impondo como importante objeto de estudo. Seja porque é uma linguagem especial destinada àqueles a quem caberá a direção do mundo amanhã,  seja porque, tal como a literatura para adultos, esteja sendo descoberta como fator básico da própria dinâmica do conhecimento e do tecido social. A verdade é que no âmbito dos estudos universitários vem ocupando espaços cada vez maiores e assumindo novas configurações, em uma sociedade que tenta romper paradigmas e hegemonias. Tece-se por múltiplos códigos e linguagens, ganha novos e vários suportes textuais, desvela em sua tessitura uma nova consciência de linguagem, traz em seu constructo a exigência da participação ativa de seu receptor. Além disso, percebeu-se no universo da criança e do jovem um dos grandes espaços de transmissão de ideologias e os textos literários também se consubstanciam em veículos de transmissão e de tensões do pensamento da sociedade, daí o interesse dos estudiosos de letras, história, ciências sociais e outras áreas. A Universidade de São Paulo tem investido na expansão dos estudos nessa área, tanto na graduação como na pós-graduação. Mas vale lembrar o que diz a professora doutora Ana Lúcia Brandão: “a produção de literatura infantil e juvenil tem por volta de 900 títulos ao ano e entre um terço e um quarto dela é de grande qualidade. Claro que há muitas searas a serem pesquisadas e muitos meandros que merecem ser iluminados. Portanto, há muito ainda a ser feito nessa área. A universidade brasileira ainda sente dificuldade em assimilar a importância desse campo de estudos e como ele é fundamental, se percebermos que estamos formando leitores.

A literatura infantil e juvenil responde atualmente por uma parcela bastante significativa do mercado editorial brasileiro. Credita isso ao fato das crianças lerem mais do que os adultos?
Essa questão traz algumas facetas diferentes. Em primeiro lugar, a criança lê mais sim.  Quando se apropria da linguagem que se escreve, o domínio autônomo da leitura leva-a fascinar-se pela decifração de alguns mistérios que a palavra contém. A novidade de pegar e ler um livro traz mais prazer que jogar um vídeo-game. No entanto, à medida que cresce, tal interesse pode se perder, e aí entra a mediação necessária para a leitura. Outro ponto a se abordar, diz respeito aos produtos destinados a esse público. Se um dia a criança, na história, viveu em total anonimato, se um dia foi vista como um adulto em miniatura, se já teve uma imagem na sociedade como peça fundamental de um núcleo familiar, ela hoje é descoberta como uma consumidora potencial (já é uma consumidora antes de nascer).  O mercado editorial (e o comércio de uma maneira geral) percebeu que esse é um filão essencial para se explorar, é um publico que consome.  Evidentemente, a produção e a compra de livros são absolutamente superiores à capacidade leitora das crianças. Por outro lado, se não houver a interface conhecimento para saber como consumir, teremos quantidade e não qualidade.

Embora extensa, nem sempre a lista de obras oferecidas por nossas editoras ao público infantil tem qualidade. Como selecionar os bons autores num universo tão amplo?
A discussão acadêmica é justamente para compreendermos o que são essas qualificações. O lúdico, o estético e o crítico são aspectos que devem caminhar juntos numa obra de arte, independente de qual seja seu público.

Qual o papel dos quadrinhos na produção literária para o público jovem?
Aqui, não posso deixar de citar a professora doutora Maria Cristina de Oliveira, para quem é sempre importante ressaltar que as histórias em quadrinhos não são literatura, apesar de serem uma arte que se aproxima muito da literária, por trabalhar com elementos da narrativa como personagem, ação, tempo, espaço, etc. A arte dos quadrinhos, ao estabelecer diálogos com a literatura, pode produzir obras que desempenhem papel muito importante na produção cultural, não só para o público jovem em especifico, mas para o público em geral. No caso das crianças e dos jovens, acostumados ao mix de linguagens e com os aspectos visuais de nossa cultura, os quadrinhos são muito acessíveis. Contudo, vale lembrar que a produção de histórias em quadrinhos, como toda produção de arte, tem subjacente uma complexidade, que se não compreendida, não permite uma fruição qualitativa do leitor com a obra em si. Assim, em uma obra em quadrinhos, o que vai acrescentar qualidade e permitir uma interação produtiva com o leitor é justamente a forma como ela gerencia os aspectos lúdicos, estéticos e críticos, da mesma forma que uma obra literária. Quando esses aspectos interagem de forma criativa, por meio do uso habilidoso dos recursos dos quadrinhos, a obra certamente contribuirá para a formação do leitor de uma maneira geral (leitor de letras, de figuras, de espaços, de movimentos, de cores, etc.).  Desse modo, ao propiciar a interação com essa modalidade de texto, investe-se também na formação da competência leitora, via processo complexo de acionamento de estratégias de leitura, interagindo com diferentes níveis de conhecimento e isso possibilita desenvolvimento de sensibilidade perceptiva, estabelecimento de relações e posicionamento crítico. A produção de quadrinhos vem se dedicando à adaptação de clássicos da literatura, mas uma parcela pequena em relação ao universo dos quadrinhos como um todo. Vale lembrar que o fato de a história em quadrinhos tomar como ponto de partida um texto literário consagrado não garante o nível de qualidade ou de literariedade da obra.  Não são muitas as que como Moon e Bá angariam um prêmio, como a adaptação de O alienista, de Machado de Assis. Há algumas adaptações de obras clássicas muito bem realizadas, mas ainda são poucas.  As chamadas grafic-novels estão no mercado há pelo menos vinte anos e somente de uma década para cá começaram finalmente a serem comentadas por não aficcionados. A Flip, por exemplo, já trouxe Neil Gaiman e Robert Crumb. Existem grupos apaixonados por quadrinhos que frequentam os nichos e que trocam informações sobre seus escritores e ilustradores preferidos. Como comenta Ana Lúcia Brandão, esse é um universo que vivencia a globalização há bem mais tempo do que o do livro infantil. Os mangás, por exemplo, ao virem para o Brasil, mobilizaram toda uma geração, a ponto de se querer desenhar mangá e aprender japonês. Um fenômeno incrível. Tão forte a ponto de Maurício de Souza criar a Mônica jovem como um tipo de mangá brasileiro. Na verdade, tem sido um sucesso de público e venda. Se a Conrad que trouxe o mangá era uma editora alternativa na época, hoje ela tem expressão no mercado editorial, contribuiu com a cultura dos quadrinhos no Brasil a ponto de o gênero, hoje, fazer parte da seleção de títulos do governo.  Isso, inclusive, levou a Cia das Letras a dedicar uma coleção a esse gênero com o trabalho de brasileiros como Spacca e estrangeiros como Art Spielgman,

Que intercâmbio podemos estabelecer  com outros países lusófonos no âmbito da literatura infantil e juvenil?
Creio que isso temos efetivamente feito em congressos, simpósios nacionais e internacionais de que participamos. Nossa literatura e os artistas brasileiros que operam com diferentes mídias e tecnologias têm colocado em prática uma ação (de examinador e especulador) que ilumina a experimentação artística, indo ao encontro dos princípios que fundamentam sua arte. Nesses termos, o lúdico vai sendo completado pelo lúcido, um saber do fazer que leva ao encontro da metalinguagem própria do artista. É nesse cenário que a literatura para crianças e jovens  encontra-se em franca ebulição. Manuel de Barros o faz com o verbo. Angela Lago destaca-se pela sua criação experimental com o objeto livro e também na hipermídia.  Compartilhamos com outros países as produções de nossos artistas e estudamos os diálogos que nossas literaturas (dos países de língua oficial portuguesa) estabelecem no âmbito das relações culturais, estéticas e sociais, via princípios dos estudos comparados de língua portuguesa.   

Como seduzir o interesse da criança e do jovem para o universo da leitura na era comunicação midiática?
Podemos começar por lembrar que a leitura pode ser um momento prazeroso de convivência, de conhecimento, de trânsito por várias mídias e pelos modos como os textos se consubstanciam em diferentes espaços e tempos. A leitura pode se configurar como momentos de troca entre gerações.  Para complementar, é necessário lembrar que se melhor compreendermos o modo como se configura  a produção cultural para o público infantil e juvenil  e como a literatura nela se insere, se compreendermos melhor as regras desse jogo, vamos  ter maior competência para  propor formas de leitura mais adequadas e novos jogos que trazem, em si, elementos e regras próprias, sem os quais não se consegue mergulhar nesse universo e sair dele transformado.Independente do ponto de onde a criança ou o jovem parta, nosso trabalho é propor vias permutacionais, por meio das quais eles possam acessar outros patamares de leitura e conhecimento. Caminhos pelos quais vão depreendendo formas, através das quais a humanidade se constitui pela linguagem, se expressando, comunicando, representando, em diferentes épocas, modos de exercer o poder, de sentir o outro, de inteligir os fenômenos, de amar ou odiar.
           

Em mais de três décadas dedicadas ao magistério, que balanço é possível fazer sobre a atuação da escola na formação de nossas crianças e jovens?
Para responder essa questão eu teria de recorrer à minha dissertação de mestrado, em que os elementos de que disponho são efetivamente observados. Falar da atuação da escola implica falar da prática do professor em sala de aula, de sua formação,  das condições de trabalho nas escolas públicas ou particulares. E falar a respeito disso, sem dados concretos, pode levar a afirmações generalizantes e até levianas.

O que falta para chegarmos próximos aos níveis educacionais obtidos por alguns países europeus e asiáticos?
Em conversa recente com Ana Lúcia Brandão, a respeito desse assunto, compartilhávamos a idéia de que um investimento sério na formação continuada de professores, agentes culturais, bibliotecários, seria um ponto essencial para que a educação no Brasil tomasse rumos mais promissores. A valorização do professor e do conhecimento também contribuiria para o resgate do respeito para com esses profissionais. Podemos lembrar o investimento feito na Coréia do Sul e na China, por exemplo. O professor nesses países é visto como mestre que tem muito a ensinar na vida e pela vida. No Brasil, a profissão de professor deixou de ser objeto de desejo de nossos jovens, dada a desconsideração com a carreira e desvalorização do profissional. Os programas de governos transmutam-se não em função das necessidades, mas das mudanças de chave política. As ações educativas são curtas e não abarcam o tempo necessário para a abrangência e complexidade da rede de ensino. Mas aqui também é necessário ser cuidadoso, a questão é complexa, pois há variáveis que não podemos considerar sem uma pesquisa mais acurada e um tempo maior de discussão.

Os projetos governamentais de apoio à leitura têm cumprido seu papel ou ainda se perdem na esfera burocrática do poder?
Eu vivenciei na esfera de coordenadorias de ensino e mesmo como membro da missão do Banco Mundial a feitura, o acompanhamento de projetos voltados para a leitura, voltados para a seleção e compra de obras para composição de acervos de livros de literatura infantil e juvenil para serem distribuídos às escolas públicas.  Na época, participei de projetos de formação de mediadores de leitura. Tal vivência me leva a considerar que se por um lado há tentativas sérias, por outro, a efetivação das ações implica sistematização e continuidade, implica tempo para avaliação e re- planejamentos. Requer tempo para a ampliação das ações, atingindo o maior número possível de educadores e alunos. Verifica-se que isso não ocorre. Ao mudar a chave política, zeram-se as ações e outros projetos, até melhores, surgem, mas também por ordem da contingência política são abortados. Evidentemente, levar a sério a formação de leitores autônomos, competentes, críticos é algo de que não abrimos mão, continuamos a sonhar de o nosso grupo de pesquisa, a meu ver, é uma forma de sonhar acordado. Estamos em uma instituição pública. Continuo em uma instituição pública. Continuo a entender que projetos de leitura devem contemplar as esferas envolvidas nesse processo: o livro, o leitor, a escola, o professor, a sociedade. Como diz Cristina Oliveira, não bastam livros, se não chegam aos seus leitores, nem se eles não abrangem a realidade desses leitores e os levam a modificá-la. Não basta ter os livros se os professores não estão preparados para interagir com eles e com os leitores, se não conhecem o material com que estão trabalhando.Enfim, leitura não precisa de apoio, leitura precisa de projeto sério, consistente, de comprometimento profissional e resultados a longo prazo.  

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.
Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.