UM CORREDOR ESTRANHO
(A respeito de uma novela de Chico Lopes)
Não é livro de fácil leitura, este último de Chico Lopes: O estranho no corredor São Paulo, Editora 34, 2011). Também não causa prazer imediato, aquele prazer que se busca numa leitura que apenas se limite ao entretenimento rápido, ao gosto pela ação carregada de peripécias, de brigas entre vilões e mocinhos de boa índole, entre malvadas invejosas e heroínas sofredoras, esse gosto pela superfície e pela estupidez que grande parte da televisão e do cinema alimenta. Todavia se tivermos propensão para a leitura paciente, atenta às representações da vida humana e aos seus aspectos desconfortantes ou estranhos, podemos gostar do livro.
A narrativa se apresenta como novela. “Novela” será se levarmos em conta o tamanho. Substancialmente, porém, o texto nos leva a pensar em “romance”, e romance de personagem, se quisermos um pouco de segurança nesse terreno de areia movediça conhecido como “gênero literário”. Fiquemos com a idéia de um romance cuja grande qualidade esteja na espessura significativa, e não estaremos longe de uma boa classificação. Esta espessura está sutilmente anunciada no primeiro parágrafo da narrativa, praticamente um guia para se compreender o modo (por esboço e correção) como se constrói o personagem principal e como, à medida que se avança, pouco a pouco vai ganhando corpo outra figura que sobressai.
Sem nome próprio, o personagem principal pode ser identificado pelo sobrenome, desde que o caracterizemos segundo o costume com que se registram pessoas em cartório. Podemos chamá-lo, portanto, de Paiva e, já que o pai tinha, como primeiro nome, Alaor, talvez o personagem seja Alaor Paiva Filho, ou Júnior. Esta minha digressão parece descabida, mas simplesmente cede à sugestão do autor implícito que deixa seu personagem na penumbra da caracterização, muito coerente, aliás, se levarmos em conta que na narrativa esse personagem cresce na medida de sua estranheza relativa ao mundo. Um órfão de pai e mãe, tão indistinto que fica sem primeiro nome.
Assim é o filho do Paiva: um homem de exceção negativa, um nauseado existencial, em desconcerto interior. Perseguido pela sombra da própria masculinidade, que rejeita, tem medo do amor e da amizade, não se ajusta nos espaços em que tenta viver; na cidade grande (São Paulo?) se desloca, pelas lembranças, à cidade do interior de onde veio; voltando a esta, só tem olhos para sua deterioração e decadência, sua perda de identidade. Uma configuração que nos fica desse personagem é a de um ser em
trânsito, sem referência de um espaço em que se sinta sólido como gente. Vaga por lugares: a casa da tia (Ema) na cidade natal, a pensão de dona Graça na cidade grande, bares, banheiros sujos, prostíbulos, o cemitério onde descarrega, inutilmente, o ódio contra o pai no túmulo. Em certo momento se chega a pensar que esse personagem realiza a peregrinação aos lugares infectos. Enfim, um condenado que sente a contrariedade de viver num mundo em que se percebe jogado e vivendo ao léu. Escrevi mais atrás que, à medida que lemos, uma figura sobressai acima do personagem central e, é claro, sobre demais personagens.
Esta figura é a mulher, ou melhor, o conjunto de mulheres que vão marcando a trajetória desse anti-herói masculino: a mãe que morreu louca, a tia que dele cuida, a proprietária da escola onde ensina inglês, a dona da pensão, a ricaça submissa ao marido, a conhecida de uma transa ocasional, as prostitutas, a velha vadia. Cada uma delas está delineada com signos sugestivos e com indícios que nos permitem descobrir seus gostos, seus medos, suas frustrações, sua irrisão, portanto histórias pessoais inteiras. Todas, sem exceção, constituem um pano de fundo contrastante que ajuda a compor o quadro sombrio de uma vida melancólica, sem esperanças e sem alegria, mas
sem a força da tragédia e sem a ousadia das decisões que vez ou outra poderiam dar corpo à rebeldia pessoal.
O autor fez uma escolha apropriada do narrador: alguém que acompanha o protagonista, sem nenhum cochilo que permita confundir a visão de mundo do personagem com aquilo que pensa Chico Lopes. Essa escolha também facilita a este escritor tratar ironicamente de assuntos que emergem da realidade social brasileira em sua situação de passagem para a modernidade reflexa, como, por exemplo, quando trata dos desajustes espaciais: as cidades pequenas como ilusórios paraísos de refúgio ou o deslumbramento do homem interiorano pela imaginada vida de agitação existente na metrópole. Uma variante temática desse desajuste se observa quando o personagem se dá conta dos lados falsos e enganosos da vida literária, sua corte de prestígios, seus segredos compartilhados por poucos que defendem seus territórios dos “intrusos” que sonham a glória precária da consagração. Esta variante, por sua vez, permite ao narrador que transcreva as anotações e os registros sobre o processo de criação literária e as lembranças de vida que costumam constituir a matéria da experiência que um dia pode se transfigurar em arte e, neste caso, em literatura.
Finda a leitura dessa novela, o leitor terá talvez a revelação de que o estranho no corredor não é o fantasma fugidio, mas persistente, que persegue o protagonista, cujo delírio o leva à loucura, mas qualquer um de nós que procura algum sentido neste mundo fragmentado e em desconcerto. Mundo do século XXI, que se transforma a cada instante e, por isso mesmo, se apresenta cheio de estranhezas.
Antonio Manoel dos Santos Silva (janeiro de 2012)
Thriller noir e psicológico, novo romance de Chico Lopes é mergulho nas sombras de um obsessivo
Vanessa Maranha
“O Estranho no Corredor” (Editora 34) é a primeira narrativa longa de Chico Lopes – a que ele prefere denominar novela. Um thriller psicológico com viés de romance noir de primeira grandeza.
Essa obra se manifesta, claramente, como um amadurecimento do que já se gestava nos livros anteriores, de contos, e deles conserva a aptidão do autor para a criação de atmosferas e a incitação aos sentidos: a prosa de Chico, e isto se confirma aqui, tem, nominalmente, cheiro, cor, música e é, talvez influenciada por sua paixão pelo cinema, altamente imagética, com ênfase na construção cuidadosa do anticlímax, na precisão da claque.
Há aqui também, numa perspectiva estilística, o uso comedido das metáforas, cujo transbordamento, aliás, tem sido incômodo em boa parte da literatura contemporânea de língua portuguesa, em que o leitor acaba por perder o liame de contexto em meio à profusão de figuras de linguagem. Também a contenção nos adjetivos, característica de todo texto maduro. O recurso à enumeração, que aparece em alguns momentos importantes do texto, dá sinestesia e um movimento paralelo à trama.
É no cotidiano comum, de tinturas algo sórdidas, que os personagens cheios de abismos, atravessados por dilemas existenciais e faltas as mais diversas, se movimentam. Haverá descrição mais assertiva da miséria humana em seu sentido mais amplo e não meramente material do que a da figura da loura oxigenada, batom (de palhaço?), mascando jujubas na escola de inglês, a mesma que atravessaria um punhal no outro com o sorriso postiço fixo no rosto?
Mas, “O Estranho no Corredor” enseja, sobretudo, a leitura psicanalítica, uma vez que o seu personagem principal (alterego do autor da obra?) é um exemplo clássico do conjunto de sintomas e traços da neurose obsessiva cunhada por Freud e que tem sua raiz, grosso modo, em conflitos de natureza sexual, comumente, numa estrutura edípica homoerótica.
A história se desdobra numa viagem pelos meandros internos de um professor de inglês angustiado, escritor bissexto, liberto apenas geograficamente de uma tia castradora; um jovem que, a partir de um desenho criado pela própria mão ( a sua masturbação?) – a figura escura de um homem - passa a se sentir perseguido por alguém com as mesmas delineações. Ficando claro aí se tratar de uma construção de seu próprio imaginário.
A maestria de Chico Lopes, contudo, é embaralhar significantes e ações ao ponto de colocar o leitor na dúvida sobre o quanto de real e o quanto de fantasioso há nessa persecutoriedade. O homoerotismo sugerido pela figura simultaneamente atraente e asquerosa de Russo; a tia nalgum ponto desejada, ao espelho (desvelamento narcísico?); a dona da pensão, doce e chantagista; mulheres remotas com quem não viabiliza a sua masculinidade, por fim, uma velha promíscua, a dentadura no copo, as mãos tão ossudas quanto cadavéricas como imagem.
Nessa dinâmica tortuosa de atração-repulsão-culpa-repetição tendendo ao bizarro quase mórbido, é que o caráter obsessivo do personagem anódino se manifesta vertiginosamente. A crítica à cultura interiorana e a demolição da idealização da metrópole. A observação afiada das relações do personagem com literatos velhacos, um beletrista empedernido como o Placídio (quem, entre os diletantes das letras, não conhece um?). Na paleta de Chico Lopes, os donos de botecos em pinceladas rápidas e eficientes evocados como seres soturnos, mercadores de alma. As putas com a sua mirada triste: algum elo desesperadamente amoroso ainda intacto.
Por fim, o título perfeito: “O Estranho no Corredor”, emparedado, perseguido por si mesmo.
-