Gostaria de compartilhar com vocês uma boa notícia! Como qualquer autor sem acesso às mídias, andava carente de resenhas argutas e inteligentes. A escritora paulista Cida Sepulveda mudou a situação, resenhando o meu livro recente Quarta-feira de Cinzas e outros poemas. Ofereço-lhes o texto dessa resenha na íntegra e aproveito a oportunidade para divulgar o Jornal Coruja em que são publicados os textos da própria Cida e muita boa literatura em geral: www.jornalcoruja.com.
A poesia de Oleg Almeida
Livro: Quarta-feira de Cinzas e outros poemas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011
Oleg Almeida é bielorrusso, mas escreve poesia em português. Poesia com P.
O poeta incorpora o português dos livros, o nosso tão propalado idioma culto e o matiza com seu olhar cortante de quem mergulha na língua do outro, na cultura do outro, enfim, no Outro.
Olhar que não rompe, não nega, ao contrário, reafirma a força da língua ao lapidá-la com as mãos de artista e com a poesia que emana do silêncio de sua língua original.
O poema de abertura Prólogo, que também poderia se chamar Autorretrato (http://www.olegalmeida.com/auto-retrato_8.html), é uma apresentação do poeta: “um híbrido de palhaço e filósofo”.
A ironia neste poema é também música (http://www.olegalmeida.com/poema_i_40.html):
“...Onde estarão
meu pequeno inverno, meu grande verão,
meu passado feliz? –
Não sei...
Meio palmo da virgem à meretriz,
e longe daqui Sião.”
No poema Quarta-feira de cinzas – esse dia de luto que subjaz ao espalhafato em pleno carnaval – basta fazer um recorte nas imagens festivas que a realidade emerge do barulho e das cores com tantos personagens quanto nosso olhar possa suportar: rainhas, artistas, garis...
Ser gari ou ser artista –
eis o lance!
(...)
Desse modo, ambos limpam:
fora um e dentro o outro;
não importa que não gozem,
ao contrário dos artistas,
os garis de muita fama.
Quando o lixo toma conta
do que foi naturalmente
limpo, é mister tolhê-lo
com vassoura ou catarse!
Poesia não é truque de gente mimada e egocêntrica. Poesia brota da experiência insana de romper limites internos e externos, e ir buscar a essência (que pode ser o lixo) – essa musa esquecida pelos homens, mas tão desejada por filósofos, cientistas e poetas.
O poema Meu nome é uma luxúria que desperta em qualquer leitor o desejo de criar o seu próprio poema e transformar seu nome no mote para a poesia.
Oleg envereda também para os Haicais. E aí temos uma porção deles – deliciosos (http://www.olegalmeida.com/poema_ix_43.html)!
Quem não agride,
ao sair do cárcere,
a liberdade?
Oleg só não foi feliz ao intitular seu livro, talvez por excesso de modéstia. O poema Quarta-feira de cinzas é apenas a porta de entrada para o prisioneiro recém-libertado, lúcido e valente que, em sua árdua e tonta caminhada, desafia a linguagem e arranca dela a poesia.
Para mim, este livro se chamaria Loucura em sol menor.
Há muito que se analisar neste belo livro, mas como não sou técnica em literatura, mas sim escritora e leitora ávida por prazer estético, só posso sugerir a quem nunca leu que procure conhecer este trabalho artístico que muito acrescenta aos nossos ouvidos fartos de tantos mirabolantes e presunçosos textos contemporâneos.
Cida Sepulveda
Um ótimo dia para todos vocês!
Oleg Almeida, Brasília/DF, Brasil
(www.olegalmeida.com).