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VALE DO ANHANGABAÚ É

PALCO DE MEDUSA concreta

 

 

Montagem da Cia Les Commediens Tropicales e do quarteto à Deriva percorre durante duas horas a região entre os viadutos de Santa Efigênia e do Chá, no centro de São Paulo. Banda ambulante com bateria, teclado, sax e baixo acompanha toda a encenação que conta também com um carro dourado

 

 

A Cia. Les Commediens Tropicales e o Quarteto à Deriva estão completando 13 anos de trabalhos contínuos na cidade de São Paulo com seis espetáculos em conjunto e agora rumam para estreia de sua nova criação: MEDUSA concreta, uma montagem de rua em pleno Vale do Anhangabaú – de 24 de agosto a 9 de novembro com sessões as sextas, sábados e terças-feiras, sempre às 17 horas –, que começa na Praça Pedro Lessa (ao lado do prédio dos Correios) e termina ao lado do Teatro Municipal de São Paulo.

 

Projeto contemplado na 30ª edição da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo MEDUSA concreta se debruça sobre o mito de Medusa a partir da versão do poeta Ovídio. Com canções autorais e uma banda que acompanha toda a peça, pois a música perpassa todas as cenas, a montagem parte do mito de forma não linear para falar sobre diversos aspectos da contemporaneidade, entre elas, o patriarcado na literatura e mitologia, a cultura de estupro e a culpabilização da vítima, da mulher. E falar também da destruição dos mitos, especialmente na concretude paulistana, com suas narrativas e contradições num diálogo com o centro da capital paulista.

 Com criação, dramaturgia e direção coletiva MEDUSA concreta é o primeiro trabalho da Cia Les Commediens Tropicales onde a mulher é a protagonista da pesquisa e da cena, que contou com encontros abertos ao público sobre aspectos diversos da mitologia com as pesquisadoras Beatriz Perrone, Helena Vieira, Maria Rita Khel e Suzane Jardim. As três atrizes da montagem – Michele Navarro, Paula Mirhan e Tetembua Dandara – ficam em cena durante as duas horas da peça e carregam uma cabeça (réplicas de seus próprios rostos) durante todo o percurso.

 

“Pela primeira vez temos a mitologia grega, de fato, como ponto de partida, uma vez que ela está sempre nos ecos, no imaginário. Mas como já havíamos dito desde nossa primeira peça, é preciso instaurar um pensamento antimitológico. É preciso superar os gregos, nem que seja dando voz a Medusa, nessa linda contradição”, explica a atriz Michele Navarro.

 

A Medusa de Ovídio

Na versão do poeta Ovídio, Medusa era uma sacerdotisa do templo de Atena e para isso, tal como a deusa, deveria manter-se casta para sempre. Porém ela é estuprada dentro do templo por Poseidon, deus dos mares. Atena, deusa da sabedoria, vê tudo pelo reflexo do seu escudo e ao invés de apoiar a vítima agredida, a culpa pelo fato. Poseidon é perdoado, sai ileso e a condenação recai em Medusa.

 Para a atriz Tetembua Dandara esta lógica ensinada pelo mito é a expressão de uma sociedade na qual a mulher é vista como um objeto (propriedade do homem) e não como um ser independente, com vida própria. “O deus do mar recebe a absolvição da deusa da justiça! Poseidon é um homem, então sua atitude é totalmente aceitável em um contexto misógino no qual narrativas míticas como estas tinham força de verdade e, assim, eram usadas como justificativa para o discurso de inferiorização da mulher.”, conta ela.

 

Já a atriz Paula Mirhan acredita que existe um simbolismo enviesado por detrás desta crueldade de Atena. Segundo ela, Medusa é extirpada da relação humana, como um mal que precisa ser eliminado, assim como deve ser destruído tudo que fisicamente representa sua feminilidade e sexualidade. “Qual foi o crime de Medusa? Ela é culpada só por existir. Mesmo na versão que diz que Atena invejou a beleza de Medusa. Ou seja, Medusa não pode existir. E que razão torta é essa que perdoa homens irracionais que não conseguem controlar seus instintos?, questiona Paula.

 

Ainda na versão de Ovídio, Atena não só ajuda o herói que ficou para a história, Perseu, a matar Medusa, como também posteriormente incorpora a cabeça do monstro ao seu peitoral como espécie de amuleto. Perseu retorna para casa com o “troféu” em mãos, exibindo a cabeça de Medusa como algo a ser temido por sua capacidade de petrificar quem a olhasse, mesmo depois de morta (no poema de Ovídio e em outras versões do mito, Medusa é morta enquanto dorme). “A nossa MEDUSA concreta rebatizou Perseu. O salvou da enfadonha trajetória do homem herói. Em nossa peça é possível tornar esses ‘heróis’, aliados da nossa luta. É a suposta monstruosidade de Medusa que faz isso, o que é para nós também uma forma de proteção, de amuleto”, destaca Michele Navarro.

 Diálogo com o Centro

Instalada no segundo andar do Cine Dom José no Centro de São Paulo desde 2009, a Cia Les Commediens Tropicales pretende com MEDUSA concreta abrir um diálogo com o entorno e transpor o que já fizeram no palco (como discurso, música, estética) na rua. “Queremos iniciar uma conversa com um público diferente, o imediato, desprevenido, desprogramado do acontecimento teatral, surpreendido pelo evento cênico, de iguais que rezam em cartilhas tão diferentes. Um acontecimento capaz de rasgar a normatividade cotidiana, uma provocação de afetos, um ato de violência cênica, que transgride o mundo interditado do real. O público que anda para ver (se quiser ver) e o público que vem ver sem saber de onde olhar, tendo a rua como imã”, explica Paula Mirhan.

 

Para que o diálogo aconteça MEDUSA concreta usa de vários elementos, como o coro grego, passando pelo funk, slam, poemas visuais, monólogos e stand-up. A direção de arte, assinada por Renan Marcondes e José Valdir Albuquerque, é pensada de forma a constituir uma espécie de carnaval dourado e capenga, fora de época, em pleno Vale do Anhangabaú, fazendo do espetáculo uma grande manifestação pública que brinca com o imaginário grego e com o contexto urbano do Centro. Entre togas gregas e bonés de aba reta, o elenco está adornado por diversos elementos que fazem parte do comércio local, como correntes de ouro, tênis de corrida, óculos de sol espelhados. O cenário dourado (tem até um carro) serve de locomoção para o grupo e também dialoga com o centro, com frutas e folhas falsas, anjos de isopor, confetes e serpentinas da Rua 25 de Março.

 

“Estamos no centro de São Paulo há dez anos. Medusa já passou por aqui. O concreto está aqui há muito tempo – alguns até caindo. Para nós, Medusa volta para refazer esse lar e destruir sua própria mitologia”, afirma Tetembua Dandara.

 obre a Cia. Les Commediens Tropicales

Criada em 2003, dentro do curso de artes cênicas da Unicamp, a Cia. Les Commediens Tropicales está hospedada na capital paulista desde 2005, quando realizou a transposição do romance Galvez Imperador do Acre, de Márcio Souza, para os palcos. Com encenação de Marcio Aurelio, o espetáculo estreou no Festival de Teatro de Curitiba e fez temporada no Centro Cultural São Paulo. No mesmo ano a Cia. foi contemplada pelo Prêmio Estímulo Flávio Rangel da Secretaria de Estado da Cultura para montar a obra CHALAÇA a peça, baseada no romance O Chalaça, de José Roberto Torero e dirigida por Marcio Aurelio. A montagem estreou em 2006 no Sesc Santana e já realizou oito temporadas em São Paulo, com mais de 120 apresentações e participação em vários festivais. Em 2007 adaptou o romance A Última Quimera, de Ana Miranda com provocação cênica de Georgette Fadel e Verônica Fabrini. O espetáculo estreou no Sesc Avenida Paulista. No ano seguinte, o grupo desenvolveu o espetáculo 2º d.pedro 2º com provocação cênica de Fernando Villar, que realizou três temporadas em São Paulo. Em 2009 foi contemplada pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz para criação do espetáculo O Pato Selvagem, de Henrik Ibsen que estreou em janeiro de 2010 no Sesc Santana, onde também foi realizada mostra de repertório dos cinco anos de atividades da Cia. Em 2010 foi contemplada pela Lei de Fomento ao Teatro do Município de São Paulo e desenvolveu o projeto O que fazer com isso? em que foram realizadas temporadas de quatro espetáculos anteriores, uma série de experimentos com artistas convidados que culminou na obra (ver[ ]ter), uma coleção de intervenções cênicas que dialogam com o artista britânico Banksy e que teve participações de Georgette Fadel, Tica Lemos, Andréia Yonashiro e Coletivo Bruto. (ver[ ]ter) fez temporada no CCSP, Oficinas Culturais Oswald de Andrade, participou do programa Cultura Livre SP, Circuito Sesc de Artes, Mostra Sesc de Artes e foi selecionado para o FIT Rio Preto e FIT Dourados.

Em 2011 foi contemplada pelo programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura, para realização da obra Concílio da Destruição. Com dramaturgia de Carlos Canhameiro, finalista do Prêmio Lusobrasileiro de Dramaturgia e provocação cênica do Coletivo Bruto, a peça estreou em janeiro de 2013 no Sesc Pompeia e fez outra temporada no Teatro Cacilda Becker. Em 2012 foi contemplada no Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, onde foram realizadas temporadas da obra (ver[ ]ter) em diversos pontos da cidade e o colóquio sobre teatro performativo. Em 2013 foi contemplada pela Lei de Fomento ao Teatro, onde realizou o Laboratório Permanente de Plágio, reencenação das obras Corra Como um Coelho (Cia. dos Outros), Petróleo e Quem não sabe mais o que é, quem é e onde está, precisa se mexer (Cia. São Jorge de Variedades). Em 2015 estreou a Guerra sem batalha ou agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores neste mundo, apenas vencidos em conjunto com o Quarteto à Deriva, a partir de textos de Heiner Müller. No mesmo ano, comemorando 10 anos de palco, o grupo realizou uma mostra de repertório e em 2016, estreou o espetáculo Baal.Material, inspirado em Brecht.

 

 Para roteiro:

 

MEDUSA concreta – De 24 de agosto a 9 de novembro, sextas, sábados e terças-feiras, às 17 horas, no Vale do Anhangabaú (início do espetáculo na Praça Pedro Lessa ao lado do prédio dos Correios). Criação e Dramaturgia – Cia Les Commediens Tropicales e Quarteto à Deriva. Música e Elenco – Beto Sporleder, Carlos Canhameiro, Daniel Muller, Guilherme Marques, Michele Navarro, Paula Mirhan, Rodrigo Bianchini, Rui Barossi e Tetembua Dandara. Pensamento Visual – Renan Marcondes. Cenário e Figurinos – José Valdir Albuquerque e Renan Marcondes. Pensamento Corporal e Dança – Núcleo Cinematográfico de Dança (Mariana Sucupira e Maristela Estrela). Estudos O Discurso – Beatriz Perrone, Helena Vieira, Maria Rita Khel e Suzane Jardim. Cabeças – Bira Nogueira. Cenotécnico e Costureiro – José Valdir Albuquerque. Programação Visual – Renan Marcondes. Arte Gráfica do Adesivo e Stencil – Milly Sánchez Sánchez e Zosim Silva Gómez. Fotos – Mariana Chama. Técnicos – Cauê Gouvea, Juliana Magalhães e Matias Arce. Produção – Mariana Pessoa e Cia Les Commediens Tropicales. Assistente de Produção – Mariana Dias. Duração – 120 minutos. Classificação Etária – Livre. GRÁTIS.

 

VALE DO ANHANGABAÚ – Praça Pedro Lessa ao lado do prédio dos Correios. Informações – (11) 97202-3597.