| Meiotom - Crônicas |
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Fátima Soares Rodrigues |
QUAL O REAL MOTIVO DA BIENAL?
Sou apaixonada pela leitura. Leio diariamente. Pela manhã, jornais e,
durante o dia, carrego um livro ao me dirigir a bancos, consultórios e
a todos os lugares onde sei que enfrentarei filas ou esperas em sofá
para ser atendida. Tenho sede de leitura, pois sei que morrerei antes
de ler todos os livros de que gostaria.
Na verdade, eu gostaria de ter ido à Bienal durante os dez dias, pois
vários encontros agendados nos espaços: “Arena Jovem” e “Café
Literário” me interessavam, porém, aconteceram em dias alternados, o
que me obrigariam, além da disponibilidade de tempo, a pagar R$ 10,00
por dia, o que seria inviável.
Para ir à Bienal, preparei o meu esquema, afinal, com um ingresso de
R$ 10,00, estacionamento a R$ 15,00, mais um pequeno lanchinho que eu
deveria fazer, além de alguns livros que eu gostaria de adquirir,
percebi que o desejo me sairia bem caro, principalmente, considerando
a fase financeira difícil em que estou atravessando, que não me
permite satisfazer, egoisticamente, algumas vontades, consideradas por
muitos como “supérfluas”. Assim, decidi que iria à Bienal, no sábado,
dia 22/05, um dia antes do seu término. Para tanto, deveria restringir
alguns gastos. Então, solicitei ao meu filho que me deixasse no local,
afinal, eu precisaria de tempo para visitar tão vasto recinto, e,
considerando que eu deveria fazer jus ao que gastaria, programei-me
para ir após o almoço, o que me economizaria com gastos para a
alimentação, reservando alguns reais para adquirir alguns livros que
eu esperava encontrar a preços mais módicos do que nas livrarias,
afinal, o evento também deveria ter essa finalidade. Entretanto,
sabendo que eu deveria andar muito para alcançar o meu intento,
afinal, estive na Bienal anterior e percebi que nem todos os estandes
estavam dispostos a baixar o preço dos seus livros só porque se
encontravam na Bienal, e, mais ainda, a Bienal não deveria ser um
aglomerado de estandes com livros, e, sim, um espaço aberto a leitores
para interagir com escritores, numa troca de aprendizados, conforme
anunciado pelos curadores em entrevistas aos canais de comunicação,
decidi que chegaria ao início da tarde e sairia no horário de
fechamento da Bienal. Então, para achar livros com preços melhores e
assistir aos eventos programados, cheguei à Expominas antes das 13h30
e deixei o local, perto das 22 horas, tempo estimado para que eu
fizesse jus ao ingresso de R$ 10,00.
De posse da programação, dirigi-me imediatamente ao Café Literário
onde aconteceria, às 14h, o primeiro encontro daquele dia: “Autor e
Narrador são a mesma pessoa?”, com as escritoras: Manoela Sawitsky,
Christiane Tassis e o ensaísta Francisco Bosco, filho do cantor João
Bosco. Porém, às 14h30, constava na programação que, no Arena Jovem,
estariam os poetas Fabrício Carpinejar, Rogério Miranzelo e Léo Cunha,
e eu também queria assistir a eles. Então, um pouco contrariada,
deixei o Café Literário por volta das 15h e dirigi-me ao Arena Jovem,
a fim de assistir um pouco ao encontro dos poetas.
Para a minha sorte, o próximo evento no Café Literário, “O autor pode
ser devorado pela própria literatura?”, com os escritores: Cíntia
Moskovich, Carlos Britto Melo e Lúcia Castelo Branco, mediado pela
professora Vera Casa Nova, que estava agendado às 15h30, começou com
atraso, após o final da apresentação dos poetas no Arena Jovem, o que
me possibilitou a assisti-los na íntegra.
Claro que no Arena Jovem nem sequer parecia que existia público,
porque, hora nenhuma ele se manifestou, afinal, ficou claro que a tal
interação com os escritores só existe para levá-lo ao evento, de
preferência de bico calado o tempo todo porque o tempo é curto e só
cabe aos organizadores e convidados especiais.
Não posso deixar de ressaltar que, até então, para adentrar no Café
Literário, novamente, conferi o relógio e percebi que se aproximava
das 16h e o meu estômago reclamava algo. Optei por um cafezinho e um
simples pão de queijo, pagando o absurdo de R$ 6,00 (o que daria para
comprar livros de R$ 1,00, R$ 4,00, R$ 5,00 disponíveis em alguns
estandes).
O assunto estava bastante interessante, quando, ainda antes de o
público se manifestar (conforme prometido o tempo todo nos canais de
comunicação pela curadora Guiomar de Grammond e organizadores), alguém
ciciou ao ouvido da professora Vera Casa Nova que era hora de colocar
o ponto final, o que ela fez na base do “infelizmente”.
Bem, até então, permaneci como mera espectadora, tentando sorver as
conversas, engolindo em seco as minhas perguntas e desejo de
interação. Aproveitei, então, para visitar os estandes e adquirir
algum livro, o que me consumiria algumas horas, devido à gama de
estandes, abdicando-me de assistir à jornalista Leda Nagle, no Arena
Jovem, já que o último evento, no Café Literário, às 19h30, também me
era de grande interesse: “Quais os limites entre o público e o privado
na literatura?”, com a presença dos biógrafos: Paulo César Araújo –
autor da biografia: Roberto Carlos em Detalhes (recolhida das
prateleiras do Brasil, segundo a vontade de Roberto Carlos); Cristina
Agostinho, biógrafa do livro “Luz Del Fuego”, e do jornalista Pedro
Maciel que lançou um contraponto ao criticar as biografias. Foi
chamado para compor a mesa, o poeta baiano Ruy Espinheira Filho que se
encontrava na Bienal.
Depois de entrar em quase todos os estandes, decidi pela compra de
dois livros em oferta, que me saíram no total de R$ 17,50, quando
faltavam 15 minutos para o início desse último encontro.
Busquei, novamente, abastecer o meu estômago, pois sabia que sairia
de lá, quase às 22h. Deixei exatos R$ 6,00 na compra de uma simples
empadinha (inha mesmo) e um refresco (não suco).
Eu havia lido as mais de oitocentas páginas de “Roberto Carlos em
Detalhes” (é um livro grande e duplo na confecção das páginas), além
de assistir a vários programas de literatura, inclusive, por três
vezes: “Umas Palavras”, no Futura, com a escritora Bia Correa do Lago
(filha do escritor Rubem Fonseca), entrevistando o tremendão, Erasmo
Carlos. Nela, a escritora pergunta ao amigo de Roberto, o porquê da
não autorização de Roberto Carlos à sua biografia escrita por Paulo
César Araújo. Além disso, chamava-me a atenção a biografia romanceada
da escritora Ana Miranda, “A Última Quimera”, na qual ela relata a
vida do poeta Augusto dos Anjos e, em determinado momento, cita uma
frase infeliz do príncipe dos poetas: Olavo Bilac, em relação ao jovem
poeta Augusto dos Anjos. Certa vez, no Instituto Moreira Salles,
diante da escritora Ana Miranda, perguntei-lhe se era verídica a frase
de Bilac e ela me afirmou que fontes fidedignas a confirmaram. Então,
até que ponto a biografia romanceada exime o autor de responder a
algum processo movido pelo biografado ou sua família?
Enfim, relato tudo isso para dizer que, finalmente, achava-me no
“direito de espectador” que me cabe, conforme tão anunciado pela mídia
da Bienal a fim de atrair o público, de me manifestar tão logo tivesse
oportunidade e fosse permitido o microfone para a platéia. Já no
finalzinho do evento, quando perguntaram se alguém queria questionar
os biógrafos, levantei a minha mão e me foi disponibilizado o
microfone, Segurei-o silenciosamente por quase quinze minutos até me
ser permitido falar.
Quando comecei, teci alguns comentários, antes de efetuar a minha
pergunta, o que eu faria em seguida. Porém, no meio da minha fala, fui
interrompida bruscamente pela curadora da Bienal, Guiomar de Grammont,
intimando-me: Qual é a sua pergunta?
Ora, eu não estava ali para falar nada sobre mim, já que nem me
apresentei: fui direto ao que me interessava. Creio que, de alguma
forma, estava também levando conhecimento pertinente à área. Esclareço
que não fugi do assunto. Esclareço, também, que, como participante de
diversos eventos, também pedagógicos, na UFMG, sei o limite que me
cabe e que cabe à mesa debatedora e ao público em geral, portanto, não
extrapolaria, nem cansaria público e convidados.
Fica, finalmente, a triste conclusão sobre a Bienal.
Dediquei nove horas do meu sábado àquilo que amo: leitura e
palestras, gastando, para tanto, o total de R$ 22,00, só para entrar e
“forrar” o meu estômago para dar conta de lá ficar por esse tempo. Ao
final, fui “despachada” rapidamente por ter me manifestado,
“gastando”, no máximo, nem dez minutos do precioso tempo do debate.
Conclusão: o público para a bienal é imprescindível só para engrossar
os números estatísticos e financeiros, porém, que não ouse abrir o
bico, pois, a sua presença só serve para meter a mão no bolso, meter a
mão no bolso, e meter a mão no bolso!
Fátima Soares Rodrigues
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