Meiotom - Crônicas


 

a história de um pianista nervoso

FELIPE BETSCHART

Ontem foi dia de audição musical: um piano de cauda da marca Kawai, posicionado de maneira estratégica para que todo o auditório visse a performance dos pianistas. As mãos dos músicos à mostra. Os pés também. Os nervos aflorados, a mão suando, tosses e mais tosses, além da incontinência urinária provocada pelo nervoso.

Tudo isso que vocês leram aconteceu comigo durante a audição. Mas não foi à toa. Minha missão no evento não era das mais fáceis: interpretar o Noturno Opus 9 No. 2, de Fréderic Chopin, e os "benditos" três movimentos da maravilhosa Sonata Patética, de Ludwig van Beethoven. Seis músicos (entre pianistas e violinistas), mais um coral e uma pequena orquestra estiveram se apresentando. Tivemos Bach, Haydn, Mozart...

Lá vou eu. Era a minha vez de me apresentar, e uma surpresa: o pedal de expressão (o último do lado esquerdo) fazia com que todo o teclado do piano movesse à direita! Aí meu nervoso começou a piorar. Pensei: "Diabos! O que é isso?! Nunca vi piano assim! Calma, é só esquecer de apertar este pedal... Toque as músicas e finja que ele não existe". Já pensou se, por instinto, eu apertasse o tal do "pedal de expressão"? O teclado de moveria para direita e eu tocaria as notas um tom abaixo!! Seria um desastre!

Fixei em minha mente então que não podia apertar o tal pedal. Estabelecida a solução para o problema, surgiu outro impasse: o pedal de sustentação (o último, do lado esquerdo). Ele era extremamente duro e só funcionava ao ser pressionado com força. Eu estava acostumado com pedal molinho, no qual bastava as pontas dos pés para acioná-lo. Cheguei então à conclusão de que deveria apertá-lo sempre com força durante a música.

Diante dos dois problemas (os dois benditos pedais), resolvi então começar a minha apresentação. Havia umas 50 pessoas lá, e eu não podia abortar a missão. Era uma questão de honra!

Primeira nota: Si bemol. Era o Noturno de Chopin. "Como esse pedal está duro", eu pensava. As minhas mãos trêmulas então começaram a suar; as teclas estavam escorregadias; sentia as primeiras gotículas de suor formarem em minha testa. Mas o pior ainda não havia acontecido. Até aqui, eu ainda conseguia me concentrar na música, mesmo diante de todas as adversidades. E, por fim, lutando com meu sistema nervoso, consegui uma boa atuação do Noturno de Chopin. Recebi aplausos: até que a performance não foi ruim... não errei, só achei que faltou um pouco de expressão. Mas até aí, tudo bem. Não houve erros crassos.

Havia chegado a tão esperada hora. Me deparei com minha maior inimiga: a Patética! Como era forte! Diante de 50 pessoas, parecia que eu havia entrado em um ringue para lutar com a monstruosa sonata do soberano L. van Beethoven, o grande maestro alemão! A Patética estava toda na minha mente, frase por frase, melodia por melodia. No entanto, sabia que tocá-la sem erros era uma missão árdua e praticamente impossível de ser concretizada. Voltada a alunos do nono ano de piano, a sonata me deixou enfurnado em casa durante meses. Horas e mais horas de estudo, e eu consegui terminá-la em aproximadamente 6 meses, mesmo assim com algumas imperfeições.

Depois de tanto trabalho, aquela era a hora de mostrar ao povo que eu tinha condições de apresentar decentemente a música. Então comecei. Primeira nota: um acorde grave em Dó menor. BOOOOMMMM! Senti o acorde vibrar pela sala... a platéia de repente se calou, sentindo a força de Beethoven. Senti um calafrio na espinha, sabia que as atenções estavam voltadas a mim. "É agora! Não posso mais parar", pensei.

Uma gota de suor então começou a escorrer pela testa. Um minuto do primeiro movimento já havia se passado, quando de repente senti meu pé direito tremer. Tremia mais que vara verde. O nervoso, aliado à rigidez do pedal de sustentação, fez com que meu pé tremesse mais que avião em turbulência. "Não, por favor, não! Agora não!", pensava. Agora o primeiro movimento da música já estava na metade e eu não podia nem pensar em parar.

Lutando com meu pé direito, que parecia ter sido atingido por um ataque súdito de "Mal de Parkinson" (lembrei-me agora mo Michael J. Fox, do "De Volta para o Futuro"), vi a platéia de soslaio (com o "rabo do olho") e notei que o pessoal da primeira fileira estava espantado com a situação na qual eu me encontrava.

Sem me desligar da música, pensei desesperadamente num jeito de fazer com que meu pé parasse de tremer. Neste momento, olhei para meu professor e vi que seus olhos não se desprendiam dos meus pés. Ele estava abismado e, assim como eu, desesperado com a situação. Tive então uma idéia, talvez genial: encostar o calcanhar no chão, inclinando o pé levemente à direita. Funcionou! A "turbulência" havia passado. De vez em quando eu esquecia do truque, e o pé voltava a tremer, mas eu o corrigia imediatamente. Ufa! Que sufoco...

Terminei o primeiro movimento. O segundo, mais lento, me acalmou um pouco e meu deu forças para o terceiro e derradeiro. Com os nervosos domados e a testa enxugada do suor (eu a enxuguei no intervalo do segundo para o terceiro movimento) toquei a última parte sem maiores problemas e, por incrível que pareça, tudo terminou bem.

Na saída recebi alguns elogios. Todos viram que suei a camisa. Para minha alegria, notei que as pessoas reconheceram meu árduo trabalho.