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flávio viegas amoreira |
‘’LITERATURA
URGENTE’’
‘’A
literatura está morrendo.
Não
por falta de bons escritores,
o
público é que morreu.’’
Philip
Roth
Outubro
mês do Livro, esse precioso bem escasso. Os números no Brasil denunciam a
indigência dos neurônios: 70 % de analfabetos funcionais;
1
mil dos 5.500 municípios sem bibliotecas públicas; 15% da
população
concentra
75 % de todos livros em acervos que podem virar lixo
reciclável
nas
mãos de herdeiros mentalmente deserdados. O governo federal desonera a edição,
cria-se um Fundo Pró-Leitura;o livro custa caro? mas a Burguesia que pode não
lê! Enquanto um alemão devora 9, os franceses 7, os anglo-americanos 5, o
brasileiro não usufrui nem de 2 livros em média ao ano!
consome-se
mais vinhos, charutos, gasta-se mais em academias de ginástica ou na pandemia de
celulares que em livros e similares. Onde os médicos de
cultura
humanista? os bacharéis eruditos? A Educação universaliza-se, enquanto a Cultura
mingua. A palavra escrita, o hábito da leitura, o prazer
das
páginas enfrentam 2 gigantes estruturais: o consumismo e o
hedonismo
facilitante.
O audiovisual fere de morte o esforço cognitivo através da paciente
compreensão
literária: se posso ver para que ler?
aos videotas ler cansa, Machado é um porre, Clarice uma mulher estranha.
Outro fator é o pragmatismo profissional, ausência de intertextualidade, a falta
de interesse
dos
formandos nas matérias técnicas pelo criativo, pela abstração enriquecedora,
pelo universo imaginoso. Nega-se a Poética em nome do utilitário, a profundidade
dialógica leitor-autor é sacrificada pelo que produz ao que consome na
ignorância fugaz ou na resolução rasteira. O mundo sem a palavra escrita é o
neo-primitivo, o básico high-tech, terra árida onde o Espírito não mais repousa.
Ao literato causa estranheza um catedrático que não leia, um jurista só atento
aos autos, jornalistas! sem a mesma paixão literária... não se exige um país de
intelectuais, uma Finlândia dos trópicos,
mas
dói imaginar que 70 % dos que tem acesso a esse jornal ou artigo
não
entendam
de modo pleno e autônomo o que se faz tão bem
compreendido.
As
saídas são as clássicas aplicadas de modo criativo: exigir boa
redação,
estimular
os desinteressados além do específico programático,
democratizar
os
acervos, propiciar aos talentos naturais a arte da escritura e do
pensamento.
Pessoas
nascem leitores compulsivos, outros tornam-se leitores
razoáveis;
necessário
é o denominador ao incomum: fomento às subjetividades.
Filosofia,
Ficção, Estética, tudo deve interconectar-se ao todo
cotidiano.
A
Internet seria aliada e não vilã se o cultivo fosse semeado. Ler e
navegar,
vivenciar
e virtualizar, o livro pede o filme que leva ao teatro e à fruição da música.
Livro é som, visualidade, sinapse, auto-revelação, desejo da
Alma.
Distinguir
escritores de escrevinhadores, literatura do besteirol
midiático,
privilegiar
o espaço permanente das livrarias, alfarrábios e bibliotecas em oposição a febre
de feiras, bienais, E-ventos. ‘’A leitura é a malhação do cérebro’’ , diz a
genial Bárbara Heliodora, façamos pois do Homem um curioso caminhante pela senda
do saber crítico, fascinado, animicamente incomodado, criativamente incomodante.
Sem Literatura seremos clones multiplicados dum idiota único: o conformista
tolamente embasbacado.
FLÁVIO
VIEGAS AMOREIRA
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