Meiotom - Contos


 

bancando chomsky

flávio viegas amoreira

‘’ Queria dizer fome! Não compreendiam a sensação; inútil

dize-la , fazia-me sentir, esmelinguia-me penúria, esfalfava, nessa

nórdica fortuna o que pensariam ser Fome? Penei quilometros, gualguei muralhas de vilarejos, montanhas de Cristiânia, armazéns

e vozes esganiçando na frontaria de casebres brinquedotécnicos,

vacas mugiam em nórdico individido: tinha um Círculo Polar no

cocuruto e eu era impercebido assim famélico estado numa finestra de Siracusa. Fui de ponta à ponta estribilhando anacolutos: amava Hermann Bang relido no ladrilhado terraço de savana numa das siestas de Isak Dinesen. Tenho Fome! Edgar providencie almoço ajantarado, um drink num pouso refestelado

de acepipes literários. Vou jogando-te o tema, a trama entrecortado de absurdos temporários, urdiduras tênues, não tenho filosofia de composição: a contação recolhe conchas devolvidas pelo estuário ao mangue. Anoto, polindo, retirando escamas, toda prosa é sinal de mais depois de impreciso menos;

as notas : não sabia de valor de face das palavras, poveretas...

imaginei o porão da mente seguro caminho à Quirquizia / Abkhazia.

Edgar, tenho um punhado inteligível de coisas que deram uma novela esticando-se num romance: vão-me entre paralelismos, porfia rabiscada de arabescos; conceptismo; sermonário; moro

na linguagem do sonho, sei que entenderás com tempo a póetica como dialeto rupestre: tenho uma pedra fenomênica que destilo

em filetes de rosa, aurora, escaninho de palavra. Essa Fome é nosso esconderijo: diga-me onde pensas, escrevo a localidade de teu significado. Nada que passa aos olhos no papel antes se assenta: minha referência está no que traço; Edgar espero entenda a Fome de que não te esqueça; põe sentido no ardor da ausência, o que procuras é o que desdigo entre nós. Impossível que nosso coito seja mais preciso que meus garranchos; o ponteiro de nossos relógios é em sentido antigramatical. Aguarda eu desça até a tropicalidade de nossa conversa no beiral da rede:

ouvi um bater das persianas, assustei-me ser o ladrão das idéias:

era um postal das Ilhas Virgens de nosso anunciamento. Penso que esteja só, volto à ti Edgar, espero que compreenda hipóteses mais que aquilo que mal ou bem torna ser incerteza. Tudo pode ser mais que verdadeiro ou aproximado, repito a dúvida: ela é meu anço: parir a verdade escolhida duplamente em ti e em mim sem teu olhar de hoje. A saudade é rapto; Maurice me consola de ti não estar.’’