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´´POEMA AO OLHO DE DEUS´´

 

´´A linguagem é quando rompemos sodomizados

por um Deus imagético de estrelas em sustenido

só Deus é capaz de gozar ejaculando

adjetivos reticentes

 

essa paixão epidérmica pela palavra

me puxa feito quem se deleita

fornicando entre as ondas dum mar bravio de violáceas escamas

 

resisto mesmo naufragando de mim

 

se somos rosto fugaz do Devir

que seja o Verbo rebento

um rosto que resta diluído pelo acaso passageiro das esferas

na água oca dos espelhos opacos

 

Deus penetra-me sem estrofes

réstia / fresta

trepadeira da alma em tronco

fungos entrecortados de veios de açucena

permeiam o pulmão do mundo exalando arbóreo oxigênio por alvéolos incandesdentes

que estiletam o ar de setas trespassando o acaso....

 

duas forças competem entre minhas costelas dilaceradas de significados exangues : longe e nunca.....

toda poesia de minhas entranhas nisso se contêm quedas da violação de meus sentidos eviscerados: longe e nunca...

 

ai emasculado do divino : escrevo

orgasmo cósmico entre a rosa túmida

entre minhas ancas tortas como a órbita de Urano

 

 

criar é um ato anti-natural

viver é apenas passar por apuros entre a dor lúcida entre o vazio e o nada

 

 

existir é um travo semântico de nossos membros e células consumindo-se

no esforço insano de desatar o absurdo

poesia é então o elaborado sêmen infértil dum vício solitário perpetuado por signos / gestos ou insondáveis rebentos de galáxias distantes dum agora contínuo mesmo sem mais o meu e teu gosto....

é preciso mastigar o que escreve nas coisa por nós

o pensamento criativo liberta : o ex-pensamento é o encontro da palavra

com o mundo: Poesia

não esquece a bagagem , mesmo que o destino seja o nunca

ele nasce com o invólucro sedoso e nos despacha com pano sem nenhum apuro

esse amontoado, esse chamado, destino......

a vida é um nada imperdivel nascer ao lado do mar , desde os mais antigos ancestrais, foi a sina  de ser vocacionado para a sondagem ...a inquietação alternando profundidade : todo disparate me soa verdade do Oceano em mim.

Eu ´´causo-me´´ espécie as vezes.

Não saber quem sou foi meu primeiro estalo para sentir-me escritor, para fazer-me poeta. A vida para mim ? é fazer tudo por acreditar / tudo está por acreditar

Esse esforço insano por crer / ainda assim nessa lida nunca me senti tão bem convivendo mais comigo...estava disperso até de minha sombra, essa sorrateira que também deve ser trazida e tragada ao conversar com minha luz.

Três horas ... a madrugada é uma senhora deflorada parindo mil auroras...

Imagino alguém pensando num hotel em Adis-Abeba ou Tókio que eu também exista... sempre há alguém para vibrar nosso tempo: esse amor longínquo diz-me com intuição voltada ao hemisfério ocidental do meu corpo e toda vontade de meu dorso , que terei um inverno afetuoso aquecido pela face doutro rosto

onde a entrega só é possível depois de feito nosso acerto de contas...eu chamo o ponto P dentro de mim : meu cerne por aflorar. Quanto mais desaprendo é o recomeço do sentido . amas? é o enigma / respondes? anúncio do desacerto

o desejo vem na emergência de um esvaziamento extremo. Tenta o oco de ti:

encontrarás um fóssil recheado de resquícios do que não foste. O homem sem alma foi descoberto nas ruas...um poeta o identifica pela senha dos olhos de quem vê longe...de repente era uma multidão de desalmados...enjaularam o poeta que sopra cantos como Orfeu : versos sem preocupação mais de se libertar. Você é a medida de quem ama / do que.....busco o pássaro da noite / afasto-me dos espectros que ofuscam o paraíso terreno. A elaboração do luto nasce da fala / o que se perdeu recomeça no reinvento das cinzas.´´

 

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