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´´´POEMA DE OUTONO´´

 

´´E quando soar o sino , não estiveres por perto

o templo ainda reverbera em ti o sentido daquele instante

não mais consolação / ainda assim o silêncio compartido ecoa dum maio que também partia depois da magia duma noite sem retorno

não tens mais aquele maio / nem mais aquela precisa noite

 

volta-te ao mar da tua origem : a ele pede reflexos que retenham a lembrança : que as vagas contenham nas ondas o pó do teu destino

quando o inverno diz mais uma vez solidão

responde terno: tiveste num maio passado pausa ao tormento :

foste o homem com seu amado

das ruas em silêncio / do vinho ainda em teu hálito ;

cálamo num casto leito

paixão tão em teu repouso

 

a vida não é entendível

compreender no vácuo do absurdo

no gesto donde escreve

 

foste apartado do meu tempo / mas desde o copo a boca nenhum amargor

ou ranço / poeto, esvoa-ço

 

é a manhã que me sopra e preenche a fala dos homens que crêem nas páginas em branco / vai por quem quiseres e aceita que a folha siga

como o ocaso que arde ainda no fogo

torna-te ode / elegia

eras um corpo

agora queda na estante / só amanhece no rosto que move a escrita

 

longe é onde a ausência é menor que o desespero

impossível é o estado da desistência no bom acaso mal percebido

 

poesia é a razão sobrevoando de asas soltas

é amor de caso pensado ;

se amas, mergulha . nada deve ser deixado pela metade

nem o naufrágio se tanto queiras.....´´

 

Flávio Viegas Amoreira

Escritor e crítico literário

 

flavioamoreira@uol.com.br

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