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O GATO DE GUIMA ‘’
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Pierre Ennui, era filho do cônsul nessa galheta concavada do Oceano: o porto era
puro vinagre, ferruginoso: olhando um passo descortinava do seu edifício
sobreondas imensitude que parecia levar até Estrasburgo sem escalas. Tornou à
Renânia: escreve-mos um livro de e-mails, isso é carta, minhas afeições são
impressas na pasta meus documentos arial black e gozam da perenitude dum site,
esse diário que vai além dos blogs. Sites são horas, blogs segundam. Te digo
hoje Pierre: lembra quando pensavas que o felpudo gato de Guimarães Rosa
soprava-lhe neologismos caídos da mais pura metafísica? Aquele homem de
borboleta alí acariciando todas as letras alfabéticas e o gato à fiar
conjecturas
sobre suas propriedades rumorejantes. Meu gato são os contos do velho Guima, por
eles assalto os significados que refestelam-se em outro patamar de minha
prateleira. Meu sertão é o Mar donde espreito veredas; sabe assim Pierre, teu
Ennui traduz-se angústia, tédio da inenpresença. Dou-te sentencioso Pascal e
volta-meia responde-me Montaigne: gosto de ti feito Burrinho Pêdres. Tuda
intitulação merece a fantasia existente dum dia: nesse que te escrevo: roletes,
cavilhas, caxinguelês do banhado, o roçado aqui mede-se em milhas do manguezal
às lingadas de sacarias de costas estivadoras. Bandeiras líberas são estandartes
dos marinheiros em comitiva outros-mundos rocinados. Ouvi o pianista Michael
Kieran Harvey, no quarto sou cosmopolita feito a beirada que diviso daquela ilha
equidistante leito donde o farol da
Moela sinaliza. O Farol remete à terra firme, flutua no próprio sem sentido
navegante. Pois entre um cargueiro e outro veleiro remeto aquela vez vímos
‘’Liliom’’ de Fritz Lang. Morar no porto pousando entre a memória e os lugares
que assentam tempos aprisionáveis.
Tenho
um olho no gato de Guima, o palavrio e outro no peixe: retiro-lhe as escamas da
discórdia e entrego armadura que compõem ele peixe embaralhado. Aos 40 anos já
perfilamos nossa linha de fantasmas sobre horizonte, o futuro já entoa
espantamentos: toda alma penada libertina se insinua eivada de maus humores
canhestra sobre nossas pequenezas de costumes que iludem verdades. Habituamos a
farsa se não deparamos o sonho em sua plenitude. Limitamo-nos despudorados: não
pressentir a Eternidade é uma vergonha da sensibilidade. Os
anjos
nos
assaltam menos que os fantasmas por temer nosso vício de tangências: com esses
dialogamos entre arroubos e hesitações;
visionários
seremos então brevemente se passarmos os fantasmas nas asas de anjos que voam em
cardumes assim surfando : é crítico o estado das ondas que badalaram no remeto.
A sílaba morre uma vez em mim, só em mim: essa literatura é suicídio gentil,
sacrifício generoso de milhares que falham no atento zumbido: a consciência é só
aparência dum enxame de cognoscências. Sei que nesse quarto andar estou altura
da palmeira, as rochas se desgastam para os lados da península e uma praia
milésima engatinha para novos paquidermes evolutivos.
Um
só fantasma basta por ser privilégio da maturidade, alguns outros sobrevivem por
teima da fortuna de nossa juventude. Crescemos naquela pandemia quando pretendia
ler Guimarães Rosa contigo : o desenlace ofereceu-me uma legião de espectros que
rotulo postumamente na escritura. Refiro-me já ao rock progressivo, um carece
técno de óculos esferográficos: Richie Hawtin dialogado em Mozart. Toda arte
dialoga, a literatura nos fala desse diálogo, ela é louca que fala primeiro
sozinho, precisa-se ao dizer. Obtive técnicas, um metaesquema quadriculado em
guache por Hélio Oiticica: dou ares à realidade presentificada e ouço o juízo
desses fantasmas como quem tem santinhos da guarda na carteira. Meu conto
chamar-se-ia Samuel Rawett : ter lido ‘’Guinguinho’’ me desabriu, nos revela-mos
aos poucos com mais inteireza para quem amamos; nessa cruzada de cavalgadura da
brigada ligeira dito ‘’ tempo atual’’ espanta desinteresse pela forma das
coisas: todos correm atrás da brevidade que dão nome
estranhíssimo
significado; nada presta além dessa hora onde tiro a casca e guardo-a
zelosamente través a polpa que inda ressente-se da antiga tessitura. Pierre
Ennui: nada vai além da hora do seu cansaço: nunca canso de ti e dessa prosódia
refestelada. Os fantasmas não nos visitarão posto que os anjos digitam as normas
dessas linhas. Volto ler ‘’Sagarana’’, o mestre viveu por aí nesse Hamburgo
donde podes vir me visitar navegando maquinalmente.
Contos
são sem matemática: escreve os teus sem operação de soma. O gato azul
transmigrou para ornamento etrusco: assopra
magicalidades noutra supercorda. É um barato atordoante enviar-te um arremedo do Universo: tudo aqui é o que esperamos dessa nada qualificado. Vou dar corda no relógio: recomendo acerte o fuso. Treina terminologia nossa íntima: escreve quando der nos nervos. Abraço, teu Frederico Paciência. O conto é o caso nosso. ‘’
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