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´´´POEMA PORTO´´

´´Sobrevivi ao naufrágio da paixão

encerrei todas viagens além-mar esperando no mesmo porto de partida

o amor é um barco não mais ‘a deriva

agora tornei-me eu mesmo o cais

 

fugi ao fogo de minhas quimeras

não eram sonhos, eram tempestades sem murmúrio

que seja condenado mil vezes pela culpa que não carrego

mas nunca me julguem pelo arrependimento daquilo que deveria e não cometi por medo do desejo que hoje apontaria  o dedo sem mais Amor que vivido......

 

no verão quedei as velas

no verão estaquei as âncoras

no verão fiz-me  albatroz num penhasco tosco

agora tornei-me eu mesmo o cais e desterrado marinheiro

 

chegado o outono e quando soar o sino , não estiveres por perto

o templo ainda reverbera em ti o sentido daquele instante

não mais consolação /  ainda assim o silêncio compartido ecoa dum maio que também partia depois da magia duma noite sem retorno

não tens mais aquele maio / nem mais aquela precisa noite

 

volta-te ao mar da tua origem : a ele pede reflexos que retenham a lembrança: que as vagas contenham nas ondas o pó do teu destino

quando o inverno diz mais uma vez solidãoooooooo !!

mais uma vez solidão no inverno : responde terno ,

tiveste num maio pausa ao tormento;

foste o homem com seu amado

das ruas em silêncio / do vinho ainda em teu hálito;

cálamo num casto leito

paixão em teu repouso

 

a Vida não é entendível

compreender no vácuo do absurdo

no gesto donde escreve amor sem mais amor para ser lido

não mais carta que te chegam , quando outrora a linha do horizonte prometia aurora

 

foste apartado do meu tempo / mas desde o copo ‘a boca nenhum amargor rescende a ranço

poeto , esvoaço

é a manhã que me sopra e preenche o lastro

a fala dos anjos que crêem nas páginas ainda em branco

vai ! por quem quiseres e aceita que a folha siga

 

como o acaso que arde ainda em brasa

torna-te ode / elegia

eras um corpo, Amor

agora erra como poema na estante

só amanhece no rosto que move a escrita

 

longe é onde a ausência é menos que o desespero

impossível é o estado da desistência precipitado pelo medo

 

Poesia é a razão sobrevoando de asas soltas o Eterno

é amor de caso pensado;

se amas, mergulha, nada deve ser deixado pela metade

nem o naufrágio se tanto queiras....

hoje estou livre da paixão do teu corpo

embarcou um Oceano em mim....´´

 

 

[ FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA

Flávio Viegas Amoreira, escritor, jornalista e crítico literário , já lançou vários livros entre poesia, contos e romance:
´´Maralto´´- (2001)
´´A Biblioteca Submergida´´ (2002)
´´Contogramas´´- (2003)
´´Escorbuto, Cantos da Costa´´ - (2004)
´´Edoardo, o Ele de Nós´´- (2006)
todos pela editora ´´ 7 Letras ´´ do Rio de Janeiro, além de livros por editoras paulistanas como , ´´Oceano Cais´´, pelo selo editorial ´´Dulcinéia Catadora´´. Colaborador em vários sites, revistas literárias e jornais de São Paulo, Rio de Janeiro, já é cronista de ´´A Tribuna´´ por 12 anos, além de agitador cultural em São Pau lo e no Litoral Paulista.
Além de livros traduzidos para universidades norte-americanas e européias, foi incluído na antologia ´´Geração Zero Zero´´, reunião de 21 autores brasileiros selecionados pelo prestigiado crítico literário Nelson de Oliveira, como os mais inovadores autores da prosa nacional na primeira década do século. A antologia saí em maio pela Editora ´´Língua Geral´´´.  Sua obra tem repercutido nos mais importantes portais literários brasileiros como
www.cronopios.com.br
www.meiotom.art.br
além das suas leituras performáticas na ´´Casa das Rosas´´ e ´´Pinacoteca Benedito Calixto´´, onde é diretor cultural;
pensador da ligação entre Cultura e cidades, o autor é semiólogo e crítico de cinema na ´´Rádio Litoral ´´´de Santos.