‘’Arqueologia Literária’’ ‘’ Eles se encontraram: os personagens
em busca de livros. Judas ‘ o, Obscuro’ e Felicidade ‘a Clandestina’; praticavam prazer sexual das palavras,
tinham superconsciência entre o físico e mental das prateleiras e seus prodígios:
prímulas, vergônteas, rarefação lírica num emaranhado de situações
romanescas. Ted os conduziu pelos sebos de Signovo, alfarrábios três
encostados na ponta duma praia quando o farol abalroa laminados esmaecendo , acaso e ressureição
de idiomas. A luz dos avisos entra pelas presilhas em
linha das lombadas, as aranhas vagam nos mais grossos volumes: tínhamos intento de achar estórias curtas
lidas pelos avós dum domingo ao século. Éramos agora arqueólogos de
contos: havia na última sala uma reprodução de Daniel Senise e um arremedo
de Tunga: quanto mais recôndito o conto, a trama, bizarra a antologia,
melhor resultado do nosso faro para o inaudito gosto de estranhezas. Queremos
rir da sensação: ouriço bizonho, barato védico sob a a clareira
dum olmo arribado na contraface do espelho. Podia ouvir o cenário de
nosso vício impresso na folha aberta do armário. Pulsava a infelicidade da
fantasia: imaginava que ao findar seria feliz e seguia escopofilia do
universo morto de autores ressurreitos. ‘’Os chineses vêem as horas
pelos olhos dos gatos’’, não! Baudelaire é ‘’proesia’’ ( vide
Nelson de Oliveira);- Tchekov compôs o melhor conto do mundo! leia ‘’Angústia’’ Judas! o russo
nos conduz ao essencial da busca, discorremos pelos grandes entre olvidados: Felicidade arguta refestela numa rede
corrigindo a grafia: um conto dum poeta, ‘’Avatar’’ de Théophile
Gautier: pode dar-lhe outro título pós-moderno: ‘’Ensaio da Depressão
Profunda’’; não queremos estudo da contística, mas o achado do Conto: o
inefável ‘’Putois’’ de Anatole France, ‘’Horla’’ de
Maupassant, os desacolhidos da sorte de Miroel da Silveira , contos trôpegos,
contos viados, contos assassinados pelas vanguardas e por ora só
desentranhados: conto-não-conto, convertimento duma estampa, dum atiçador,
duma velha dama : Herman Bang! proscritos; Felicidade: acha-me O. Henry ,
Andreiv e Sherwood Anderson... segue ser isso arqueologia, onde em português
senão nas traças a tríade de acabrunhados ledores dessa sorte de estória.
escrever é ler ao meio. não quero nada com a linearidade, meu papo
é curtição da palavra: ler o mais sacana Pitigrilli ejaculando uma
escritura sem alento: desconstruir é limpeza sem mata-baratas: rouxinol mecânico,
grasno, grunho, recheio, desverbalizo, esparramo o que tem no ‘fim-começo’:
o que tem atrás e além do ‘fim-começo’ é mais que entrecho e curto o
entrecho como quem dança polca em Odessa: danço de encantamento. No catre
do filho morto caga um pombo de Coelho Neto: foi levando o ataúde até
acaimento num precipício de gramática e escorregar lento. Gertrude Stein e
Somerset Maugham não mais nos espreitam: leio, divirto, difuso e me estranho
vivendo inteiro. Posamos os três de Winckelmann visitando Pompéia e
Herculano do beletrismo, desapondo empecilhos, retocando a pena, desdizendo
que não nos sejam úteis ‘’O Terremoto no Chile’’ de Kleist e os
balbucios frívolos de Saki. O que seja escritor e invento? Não tem sono a voracidade de nosso despropósito: encher a pança do cérebro de estorietas,
cortazarias, pirandellismos, trazer de volta uma carta
de Mansfield como quem faz a ponte entre Thomaz e Clarice: vamos ao Messias
desencavar tramas que nos levem de bonde da Praça João Mendes ao Forte de
Copacabana. Signovo é uma aldeia de peregrinos que se reúnem
à beira do Oceano e arquivam esses clássicos que desfiamos em barroquismos
decassilábicos em setteletras. Ted,
Judas e Felicidade moram juntos na beira dum lago que não salga por
pouquinho que seja do Mar: catam contos moldando retalhos de conchas. Minha
palavra nisso é ostra... é
maio, outono, friagem azulamada: tomamos chá verde-indigo com riscado de plátanos:
na madrugada seguinte em voz alta desvendaremos quem foi Rafael Barrett: vivo
cheirando enigmas em tinta de chumbo preta. Minha senha é o percorrimento
saltitante de idéias. Saberemos num tantra quem foi Rafael Barrett. Um cargueiro largou um conto em fita:
‘’Deserto Vermelho’’ , assinado em película, Antonionni. Ver para
ler...’’
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