Meiotom - Contos


 

título

flávio viegas amoreira

‘’Arqueologia Literária’’

 

‘’ Eles se encontraram: os personagens em busca de livros. Judas ‘ o, Obscuro’ e Felicidade ‘a Clandestina’;

praticavam prazer sexual das palavras, tinham superconsciência entre o físico e mental das prateleiras e seus prodígios: prímulas, vergônteas, rarefação lírica num emaranhado de situações romanescas. Ted os conduziu pelos sebos de Signovo, alfarrábios três encostados na ponta duma praia quando o farol abalroa

laminados esmaecendo , acaso e ressureição de idiomas.

A luz dos avisos entra pelas presilhas em linha das lombadas, as aranhas vagam nos mais grossos volumes:

tínhamos intento de achar estórias curtas lidas pelos avós dum domingo ao século. Éramos agora arqueólogos de contos: havia na última sala uma reprodução de Daniel Senise e um arremedo de Tunga: quanto mais recôndito o conto, a trama, bizarra a antologia, melhor resultado do nosso faro para o inaudito gosto de estranhezas. Queremos rir da sensação: ouriço bizonho,

barato védico sob a a clareira  dum olmo arribado na contraface do espelho. Podia ouvir o cenário de nosso vício impresso na folha aberta do armário. Pulsava a infelicidade da fantasia: imaginava que ao findar seria feliz e seguia escopofilia do universo morto de autores ressurreitos. ‘’Os chineses vêem as horas pelos olhos dos gatos’’, não! Baudelaire é ‘’proesia’’ ( vide Nelson de Oliveira);- Tchekov compôs o melhor conto do mundo!

leia ‘’Angústia’’ Judas! o russo nos conduz ao essencial da busca, discorremos pelos grandes entre olvidados:

Felicidade arguta refestela numa rede corrigindo a grafia: um conto dum poeta, ‘’Avatar’’ de Théophile Gautier: pode dar-lhe outro título pós-moderno: ‘’Ensaio da Depressão Profunda’’; não queremos estudo da contística, mas o achado do Conto: o inefável ‘’Putois’’ de Anatole France, ‘’Horla’’ de Maupassant, os desacolhidos da sorte de Miroel da Silveira , contos trôpegos, contos viados, contos assassinados pelas vanguardas e por ora só desentranhados: conto-não-conto, convertimento duma estampa, dum atiçador, duma velha dama : Herman Bang! proscritos; Felicidade: acha-me O. Henry , Andreiv e Sherwood Anderson... segue ser isso arqueologia, onde em português senão nas traças a tríade de acabrunhados ledores dessa sorte de estória. escrever é ler ao meio.

não quero nada com a linearidade, meu papo é curtição da palavra: ler o mais sacana Pitigrilli ejaculando uma escritura sem alento: desconstruir é limpeza sem mata-baratas: rouxinol mecânico, grasno, grunho, recheio, desverbalizo, esparramo o que tem no ‘fim-começo’: o que tem atrás e além do ‘fim-começo’ é mais que entrecho e curto o entrecho como quem dança polca em Odessa: danço de encantamento. No catre do filho morto caga um pombo de Coelho Neto: foi levando o ataúde até acaimento num precipício de gramática e escorregar lento. Gertrude Stein e Somerset Maugham não mais nos espreitam: leio, divirto, difuso e me estranho vivendo inteiro. Posamos os três de Winckelmann visitando Pompéia e Herculano do beletrismo, desapondo empecilhos, retocando a pena, desdizendo que não nos sejam úteis ‘’O Terremoto no Chile’’ de Kleist e os balbucios frívolos de Saki. O que seja escritor e invento?

Não tem sono a voracidade de nosso despropósito:

encher a pança do cérebro de estorietas, cortazarias,

pirandellismos, trazer de volta uma carta de Mansfield como quem faz a ponte entre Thomaz e Clarice: vamos ao Messias desencavar tramas que nos levem de bonde

da Praça João Mendes ao Forte de Copacabana. Signovo

é uma aldeia de peregrinos que se reúnem à beira do Oceano e arquivam esses clássicos que desfiamos em barroquismos decassilábicos em setteletras.  Ted, Judas e Felicidade moram juntos na beira dum lago que não salga por pouquinho que seja do Mar: catam contos moldando retalhos de conchas. Minha palavra nisso é ostra...  é maio, outono, friagem azulamada: tomamos chá verde-indigo com riscado de plátanos: na madrugada seguinte em voz alta desvendaremos quem foi Rafael Barrett: vivo cheirando enigmas em tinta de chumbo preta. Minha senha é o percorrimento saltitante de idéias. Saberemos num tantra quem foi Rafael Barrett.

Um cargueiro largou um conto em fita: ‘’Deserto Vermelho’’ , assinado em película, Antonionni. Ver para ler...’’