Meiotom - Contos


 

título

flávio viegas amoreira

‘’Freud: o esquecimento da desistência.’’

 

‘’Fui cientista por necessidade, não por vocação.

Fui capaz de vencer meu destino indiretamente

e realizar meu sonho: permanecer escritor sob

as aparências de um médico.’’ Freud à Papini.

 

 

Nada se explica mais total e definitivamente: o fundamental não se fixa num ponto, a certeza é

um estilhaço da razão à ser reajuntado. Dizer de Freud hoje é tão pertinente ao artista quanto pela voz da psicanálise: o freudismo é hipermoderno ao literato.

 A farmacologia e terapias cognitivas podem ter feito avaria na teoria, mas o método e o sentimento da busca pela linguagem são ferramentas multiuso. Nos permitam ainda o primado da subjetividade, a perspectiva onipresente do ‘sujeito’ diante avassaladora  multireferência pelos signos e não por idéias: a dessubstanzialização, o fracasso da marcha pelo ‘desencontramento’ de flashs chamativos e vãos. Poeta, refleti o ‘pensar’ com Platão e repensar com Nietzsche e Freud: o gramático da inconstância, arqueólogo de mitos, decodificador da paixão, Freud, o espreitador de universos avessos, íntimos, o guia pelos desaprumos da Alma. A Arte tomou de Freud aquilo que tinha lhe emprestado: o infindável campo por semear do imaginário. O livre fluxo de consciência, a escrita automática, o expressionismo, surrealismo, a Literatura de antes ( Dostoievski, Machado) e sempre  (Proust, Clarice), em tudo pode-se (entre outros olhares)

perceber pré-consciência e intelecção de conflitos elucubrados pelo Prometeu de Viena. Sartre, Hitchcock,

Barthes, Bergman, em qualquer instância do pensamento

e expressão nota-se desdobramentos de Id, Ego e Superego. Freud foi às sombras da caverna da imanência alçando a luz dos significados apenas intuídos,

impercebidos; não inventou, alumiou o que toldava os hieróglifos primevos: onde a Poética de Sófocles e Shakespeare, agora edificara um monumento fluído de

entendimento, neo-poiesis e diagnoses. Arte também vai ao divã, corresponde mil enigmas ao interlocutor: Freud

extrai seus moldes donde o artista opera líbero-lúdico, sugere conexões, re-faz o software do Homem com a remoção de preceitos totalizantes e preconceitos impeditivos ao Desejo legitimado. Pulsões ou instintos, - persiste buscar o Nirvana terreno possível: a Civilização, a Cultura, a coesão da dúvida no saber, a Arte feito espelhamento de nossa heróica precariedade.  A Catedral de Chartres não é só a justaposição de pedras, mas a soma compostas pelos interstícios não mais divisíveis apósda formatação : o legado de Freud é ouriversaria, experimento, desconstrução, o cinzel da escritura, deciframento incessante.  Auden, poeta ímpar, atribui a Freud nossa Fé ‘desiludida’: estarmos cada vez mais juntos na profundidade de sermos livremente sozinhos. Não me imagino escritor sem Freud, seus estudos sobre Da Vinci, suas cartas à Fliess... restituiu senso trágico ao drama corriqueiro: Prazer refletindo.’’