‘’Freud: o esquecimento da desistência.’’ ‘’Fui cientista por necessidade, não
por vocação. Fui capaz de vencer meu destino
indiretamente e realizar meu sonho: permanecer escritor
sob as aparências de um médico.’’ Freud
à Papini. Nada se explica mais total e
definitivamente: o fundamental não se fixa num ponto, a certeza é um estilhaço da razão à ser reajuntado.
Dizer de Freud hoje é tão pertinente ao artista quanto pela voz da psicanálise:
o freudismo é hipermoderno ao literato. A
farmacologia e terapias cognitivas podem ter feito avaria na teoria, mas o método
e o sentimento da busca pela linguagem são ferramentas multiuso. Nos
permitam ainda o primado da subjetividade, a perspectiva onipresente do
‘sujeito’ diante avassaladora multireferência
pelos signos e não por idéias: a dessubstanzialização, o fracasso da
marcha pelo ‘desencontramento’ de flashs chamativos e vãos. Poeta,
refleti o ‘pensar’ com Platão e repensar com Nietzsche e Freud: o gramático
da inconstância, arqueólogo de mitos, decodificador da paixão, Freud, o
espreitador de universos avessos, íntimos, o guia pelos desaprumos da Alma.
A Arte tomou de Freud aquilo que tinha lhe emprestado: o infindável campo
por semear do imaginário. O livre fluxo de consciência, a escrita automática,
o expressionismo, surrealismo, a Literatura de antes ( Dostoievski, Machado)
e sempre (Proust, Clarice), em
tudo pode-se (entre outros olhares) perceber pré-consciência e intelecção
de conflitos elucubrados pelo Prometeu de Viena. Sartre, Hitchcock, Barthes, Bergman, em qualquer instância do
pensamento e expressão nota-se desdobramentos de Id,
Ego e Superego. Freud foi às sombras da caverna da imanência alçando a luz
dos significados apenas intuídos, impercebidos; não inventou, alumiou o que
toldava os hieróglifos primevos: onde a Poética de Sófocles e Shakespeare,
agora edificara um monumento fluído de entendimento, neo-poiesis e diagnoses. Arte
também vai ao divã, corresponde mil enigmas ao interlocutor: Freud extrai seus moldes donde o artista opera líbero-lúdico,
sugere conexões, re-faz o software do Homem com a remoção de preceitos
totalizantes e preconceitos impeditivos ao Desejo legitimado. Pulsões ou
instintos, - persiste buscar o Nirvana terreno possível: a Civilização, a
Cultura, a coesão da dúvida no saber, a Arte feito espelhamento de nossa
heróica precariedade. A
Catedral de Chartres não é só a justaposição de pedras, mas a soma
compostas pelos interstícios não mais divisíveis apósda formatação : o
legado de Freud é ouriversaria, experimento, desconstrução, o cinzel da
escritura, deciframento incessante. Auden,
poeta ímpar, atribui a Freud nossa Fé ‘desiludida’: estarmos cada vez
mais juntos na profundidade de sermos livremente sozinhos. Não me imagino
escritor sem Freud, seus estudos sobre Da Vinci, suas cartas à Fliess...
restituiu senso trágico ao drama corriqueiro: Prazer refletindo.’’
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