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foto folhapress: Felipe Gabriel - 2015

JOÃO SILVÉRIO TREVISAN, UM MESTRE LITERÁRIO

Quantas personas afinal tem um grande escritor, um inventivo romancista, um fabulador tem quantas faces ao grande publico?  Grande público em literatura é uma concessão quase hiperbólica, mas digamos que João Silvério Trevisan é mesmo um autor renomado mais como militante do que pelas razões que o fazem realmente imenso?  Tento distanciamento do quase amigo e referência geracional para chamar atenção nessa altura do campeonato a um tremendo autor ainda por ser melhor dimensionado.  Contista antológico que utilizo farol em minhas oficinas, mestre oficineiro pioneiro ele mesmo, dos primeiros a ir além dos muros da academia levar tesão visceral pela escritura, Trevisan é da estirpe dos ‘escritores absolutos´: entregue a esse ofício até quando cineasta, jornalista, intelectual público, um artesão obsessivo de livros que ficam em pé como dizia Rachel de Queiroz. Obras caudalosas, romances alentados, feito ´´Ana em Veneza´´ que deita ao lado de ´´Tia Júlia´´ em minha estante:   catedral literária que lê-se viagem, painel, texto amplitude.   Me referia acima ao conto ´´Dois corpos que caem´´: que perícia alinhavada feita para o deleite e mesmo pedagogia.   Descobri ainda adolescente ´´Interlúdio em San Vicente, o testamento de Jônatas deixado a David´´ em minhas incursões pela Augusta no começinho dos anos 80. Já conhecia Trevisan pelo mítico jornal ´´Lampião´´ e agora saboreava alta literatura falando do meu universo que via refletido em Wilde e Gide, mas queria dito aqui e agora em ´brasileiro´... que cara era aquele que abria seus contos com epígrafes de Octávio Paz e Lupicínio Rodrigues?   ´´A China está longe´´ ainda hoje me impacta:  narrativa em transe desse paulista do mundo onde todos clichês são falhos e preciso rememorar de ouvido tudo quanto me toca e recomendo: conheçam suas obras!! ´´Devassos no Paraíso´´ monumento de pesquisa sobre nossa trajetória homossexual brasileira emprestei duas vezes e nunca devolvido: mas tenho todo ele na cabeça personagens, ruas mencionadas, primeiros puteiros e antros libertários sem o saber libérrimos… Não que o considere injustiçado: quem faz a literatura que ele constrói exige maturação na percepção, assim creio. Os dados estão lançados e sinto que ´´O livro do avesso´´ especialmente vem chegando ao status merecido...´status´ termo tão anos setenta, mas é assim que as coisas acontecem.... volta e meia retorno as listas da ´´Veja´´ lá pelos anos Geisel e eis que quem sobrou daquele ranking?  Trevisan deita raízes poderosas e meio Clarice vai no boca a boca melhor do que nunca!

 Em 2017 a linda surpresa foi retorno de Trevisan em grande estilo e coisas que tal ele que agora na estatura exigida pelos fãs!  Nem por sonho poderia intuir algo tão rascante para ficar nesse adjetivo necessário: ´Pai, Pai´ editado pela Alfaguara é um açoite ao bom mocismo que por aí campeia, as obviedades e lugares comuns daquilo que denomino ´´literatura fofa´´.  Nem de cara reduzi esse meteoro a um ´acerto de contas´:  catarse, desnudamento, o que é ´´Pai, Pai´´?   Aquilo tudo que não lemos feito literatura mas redunda não só documental, confessional, vi entrecortado de poesia dilacerada ...enfim! Porque ufa! Um enfim que me faça definir essa ´tour de force´ sem aparato que não meu olhar.  Referências, evocações, traços de emocionalidades desde os anos 40, a barra da iniciação na grande cidade, os ritos de passagem, alternância entre família e seminário, (elemento recorrente em suas obras), toda ´porra-loquice´ dum existencialista tropical tardio e sem nunca descambar ao intelectualismo pentelho, João Silvério esbanja o tesão cultural de viver e a natural poeticidade de quem erotiza as veredas.  Paris, Berkeley, Cuernavaca  com direito a Clint Eastwood e Cesar Vallejo ao som de Schoenberg! Que labirinto donde não quero me desenredar definitivamente.... voltarei a Trevisan esse ano ainda.....ler ´´Pai, Pai´´ é um imperativo categórico....

[ Flávio Viegas Amoreira
Escritor e jornalista
flavioamoreira@uol.com.br ]