| Meiotom - Contos |
|
|
DESTERRADOS E VIANDANTES |
flávio viegas amoreira |
|
|
|
- contograma. ‘’ Prom, tentava à pouco classificar os artistas que lidam com signos e até mesmo os não-artistas da Ciência e dei de encontro ao que pensava no capítulo VII do Brás Cubas... - --- Fala de Machado de maneira evangélica! - admirado, o amigo ri de Bert como se fora borboleta azul num céu de fogo. -
- ---O delírio de Brás Cubas sobre o hipopótamo ! - Machado é tábua das Leis quando em dúvida sobre conteúdo e forma: note que cada desses - capítulos de ‘’Memórias Póstumas’’ é um contograma, Prom. Todas estripulias líricas, semióticas, psicanalíticas, ‘existenciosas’, todos rompantes pós-modernos eu antevejo viajando de rinoceronte à Corte novecentista. Olhe comigo esse trechinho : ‘’ sentia uma tais - ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo...’’ percebe o que implica historicamente essa dúvida entre - 1.865 e 1.900? Prom! O homem dividido entre - o dilema cósmico e o psicológico! Uns se debatem entre criação do Universo, as cosmogonias, o primeiro espanto e derradeiro encanto! A finalidade, o princípio, o motor primevo! Outros se debatem no historicismo, na obra e na condição humana, as profundezas da - Alma! Acho que os artistas mais profundos pouco se ausentam de seu gabinete: pesquisar - Deus é só entrando bem por dentro. - Os heróis intelectuais podem ser épicos ou românticos, místicos ou cartesianos, ontológicos ou metafísicos, empíricos ou contempladores, das esferas boreais ou de sentimentos ambíguos,- vulcão incontido ou calota polar se adensando. -
- [ sentados na rocha de restinga, podiam ver a serra mais ao fundo ]. -
- --- Bert, se bem entendi , uns correm prá dentro em solidão até alçar o infinito ou indizível; - já os telúricos inquietos observam pedras, erigem edifícios, querem sentir de perto localidades, sítios arqueológicos, viver com marinheiros, - dormir com putas de muitos continentes,- observando o íntimo do lado de fora! bom... não vou pedir exemplos depois de Homero, desde já saquei tuas medidas literárias: os aventureiros - do espírito e os que chacoalham esse espírito no Destino. Os palradores e os que cavalgam. - Uns se agitam, outros além perseguem o raio. -
- ---Prom, na verdade já falo em Machado por ser ele um símbolo do que digo: entre os criadores existem tipos e subprodutos desses tipos, - mas vou me ater à só dois arquétipos: Machado de Assis e Richard Burton,- o desterrado e o viandante. De certa forma todos somos um ou outro: Machado quando escrevia encerrado sobre as nascentes do Nilo , bem sabia que naquele momento um outro erudito arriscava a pele desbravando as profundezas do desconhecido continente. Machado sabia tudo do mundo , sem nunca ou quase nunca sair de casa, trocar de hábitos ou moradia! - - Me conte de Burton , Bert! -
- - Justoposto, Prom,- lutou nas Indias, amou no - Afganistão, era mestre na Pérsia, peregrino em Meca e seguiu o Nilo de Machado através das - Montanhas da Lua... lia 40 idiomas, erudito machadiano, vivia o que o sábio carioca só sabia e inventava. Eis, o mérito do bruxo brasileiro: não navegava além da praia, além do - lido, imaginava. Imaginar, Prom, é saber mil vezes desdobrado. Burton ia para aquele que avançava. O desterrado e o viandante não se excluem defitivamente... - Bert, pensei em Conrad... - Acho que já pescou o que te dizia: Conrad - começou o desterro viandando... - Proust? - Esse quase sempre desterrado... em quase tudo nos lembra Machado. - - Thoreau , esse desterrado natulíssimo. -
- -D.W.Lawrence, viandante incomodante, e por aí vão ou ficam tipos exemplares, matrizes de subclasses do espírito. - Prom, antes disso lembre Montaigne: esse encarnava todos os méritos; - conhecia Roma, - mas aprendia mesmo lendo Horácio quietinho na sua torre de campônio. Tudo é vantagem, não se mostra mérito e hierarquia em ser - viandante ou desterrado, o segredo é frutificar - o tanto lido ou observado. Prom, que diferença faria se o bardo fosse pessoalmente à Verona, Chipre ou Veneza, se antes não tivesse amado - os ‘’Ensaios’’ ou desconhecesse Ovídio? - Bert, você é foda ! lê e liga tudo ao tudo quase - igual ou mesmo! e o barato é que te sentes desterrado aqui na boca do Oceano! - Prom, se queres te animar ao assunto, note: - Vês, essa pedra onde pousamos o raciocínio - lógico? Algumas centenas de quilômetros de mar Rio de Janeiro abaixo... pois Machado nunca esteve em Guarujá ou Santos;e podes rir, - mas depois de Cambridge, Bombaim, Bagdá, - Zanzibar, de novo nossa amada Londres, e até Buenos Aires e Cuzco, Burton viveu cinco anos - entre o Atlântico Sul e as colinas onde nasce o Tietê... com certeza 150 anos antes Burton, o viandante mirou esse horizonte e cruzou num cumprimento aristocrático Machado, o desterrado sabedor de todos mundos : idos e impensados. - Bertie, choro alegria de ter te conhecido sem ter caminhado muito. - Me beija, então, e trilhemos entre sedentários e nômades. ‘’ Santos, 05 de agosto de 2.003.
|
|
|