‘’ Stallone, a pândega e o
pederasta.’’ ‘’Eram uns braços hercúleos: o anúncio
de jornal indicava um site, o scort era cover de Stallone;- enfatuava lívida
timidez na apresentação: Adelmo tinha hábito pagar antes. Sentado numa
mesa ordinária verde rota acendia cigarrilha para estabelecer distância de
quem não se precipita: sempre um segundo entre o socorro e a entrega, a hora
da desfaçatez. Ele finge querer sair daquilo, não ser aquilo, fazer por
grana e Adelmo diz morar em outra cidade, estar alí de passagem e ter
curiosidade quarentona por algo diferente. Stallone sabe pelo vislumbre que a
maricona pode oferecer mais, fisgar a isca, manter alguns encontros naquela
semana da tal estadia. Adelmo revela-se ao acariciar uma tatuagem:
adivinha-se ( ainda na birosca ) dentro daquele desenho de pele dizendo:
‘Ana’. Não pergunta quem é Ana, só o significado da figa e do peixe
pouco acima. Nesses encontros sempre leva um envelope para simular negócios
e diz: ‘-Vamos ao correio, essa é a encomenda’. Essa é a senha prá ir ao local : Stallone
fazia 80 reais com local. Já na rua pede que o rapaz não dê pinta e vá na
frente: 2 quarteirões, uma escada descascada e uma velha gordinha : Adelmo
zonzo, a mulher era a cara de Maureen Stapleton . Lourdes, me chamo Lourdes :
fui crooner na PRB-J, cantei com Isaurinha Garcia e meu sonho é viver em
Jeriquaquara. O senhor tem cara de professor: é professor ou coisa parecida?
David tem amigos distintos. Stallone era então David, morava num cômodo e a
noite era mix de segurança e engolidor de fogo em boites. A velha não dera
toda ficha, dentro do quarto ele sonha ser ator e violonista. A cueca é
quase feminina, tem mofo no banheiro, uma foto do ‘Belle & Sebastian’
e isqueiro: ele também é veado e fuma, Adelmo sente parceria. Mais tempo
gasto de conversa que o dispendido em sexo: só amasso, Stallone oferece ser
passivo ( tranquilo, é veado também) e pede se era possível um cordão
fino de ouro no aniversário em setembro. Adelmo pega o gancho e enrola,
promete que sempre no porto vai ser fixo e contratar serviços mais tempo
jantar e dormir numa pousada na praia do Morcego. Quanto é o cordão? Esse
é o preço de 2 noites; quinta-feira que vem compra e fico ainda mais tempo
contando no teu peito de Marília, mostro apostilas do cursinho, tomamos um
vinho com Lourdes na esquina e vou ser sua putinha. Adelmo morava na margem
estreita da enseada, curtia turismo interno e assim que terminava um livro
tinha fome indizível de ‘bas-fond’. Pela porta estreita notava alguns móveis díspares
de furto, um aparador com Menino Jesus fora de época e Stallone mijando frágil
feito aménisico Guy Pearce. A hora do angelus tinha ritmo de adágio e
nada que evoca-se putaria: a superfície fria da Lua escondia paz de coração
quente. O dia devia ser fraco e deixava tudo ficar. Lourdes voltava da edícula
suspensa com um vaso e uma garrafa de conhaque fechada: reparava pelo lacre gris. A dona desapercebia que eram homens,
tinham feito sexo : há uma provocação na indiferença dizendo nada é
importante além do pequeno jantar. Os pés de Adelmo nús, meias no
parapeito, o chuveiro não dava choque além das gambiarras: sentia fé assim
que Stallone também se masturbava, assim como quem não paga. Tratava a velha dama como mãe, não
escondia nada mais do que o script da primeira abordagem e suas axilas eram
impecavelmente azuis. Absurdo não ser ele um companheiro: poderia ensinar um
ofício, empregar em repartição, tinha pena do desgaste com coxos e
assassinos. Era belíssimo de corpo num rosto apodrecido se visto no civil.
Sem manchas: bombado e ele mesmo passava vaselina, Stallone duram pouco.
Adelmo tinha flacidez da pederastia, óculos imaculados e carreira dupla:
quando gozava pensava escrever imundícies e apostasias. Fechava o cinto,
Lourdes soava o nariz na sacada, Adelmo anotou na agenda o celular: ligo
antes prá combinar, trago o cordão e espera prá passar dois dias. A dona
gosta de chocolate? lê revista antiga? O senhor me traz romance espírita?
Stallone era o Sr. Kurtz desse anonimato: um freio, tinha amarras em valores
curtos, apropriações estendendo objetivos, os olhos fechados quando chupa, dádivas
rio acima. Adelmo arriscava deixando endereço em último
caso: fui ao Bairro Chinês acertar uma querela:
esse é fone do agente. Seguia em frente com trepadas em julho e testes em
dezembro: seu rumo era Alexandria de livros e um só beco. Tinha manual-móbil
de concordância: esse é o último programa, durante a Bienal eu arranjo
compromisso decente. Se eu pago fica calado, mas durante depois eu quero alguém
que converse, entenda. Gostei do senhor, David disse que volta. O
barulho da barca entrava pela cabeça, era rum com tônica; o fecho de conto
tinha tudo a ver com mitos da Nova-Guiné, o sumiço de Paulo Roberto e gotas
de sêmen na calça. Ajusta a blusa, põe em pé os cabelos:
desembarcadouro. Tempos foram sempre sombrios, não é a
crosta de apatia, é neblina que nunca dissipa; Adelmo sentia agora que
persistir é saltar poças entre hiatos. Madrugada preparava enredos, vez ao
ano carecia uns braços. Quinta-feira quem sabe deixaria doces na
caixa de correspondência. Lourdes podia crêr em amizades. Matreiro riso de Burgess Meredith. Stallone
sempre ganha, é curto e ele mesmo gosta. Adelmo só precisa. Pândego e pederasta são usos tão velhos:
ser preciso for um clássico.’’
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