Meiotom - Contos


 

título

flávio viegas amoreira

‘’ Stallone, a pândega e o pederasta.’’

 

‘’Eram uns braços hercúleos: o anúncio de jornal indicava um site, o scort era cover de Stallone;- enfatuava lívida timidez na apresentação: Adelmo tinha hábito pagar antes. Sentado numa mesa ordinária verde rota acendia cigarrilha para estabelecer distância de quem não se precipita: sempre um segundo entre o socorro e a entrega, a hora da desfaçatez. Ele finge querer sair daquilo, não ser aquilo, fazer por grana e Adelmo diz morar em outra cidade, estar alí de passagem e ter curiosidade quarentona por algo diferente. Stallone sabe pelo vislumbre que a maricona pode oferecer mais, fisgar a isca, manter alguns encontros naquela semana da tal estadia. Adelmo revela-se ao acariciar uma tatuagem: adivinha-se ( ainda na birosca ) dentro daquele desenho de pele dizendo: ‘Ana’. Não pergunta quem é Ana, só o significado da figa e do peixe pouco acima. Nesses encontros sempre leva um envelope para simular negócios e diz: ‘-Vamos ao correio, essa é a encomenda’.

Essa é a senha prá ir ao local : Stallone fazia 80 reais com local. Já na rua pede que o rapaz não dê pinta e vá na frente: 2 quarteirões, uma escada descascada e uma velha gordinha : Adelmo zonzo, a mulher era a cara de Maureen Stapleton . Lourdes, me chamo Lourdes : fui crooner na PRB-J, cantei com Isaurinha Garcia e meu sonho é viver em Jeriquaquara. O senhor tem cara de professor: é professor ou coisa parecida? David tem amigos distintos. Stallone era então David, morava num cômodo e a noite era mix de segurança e engolidor de fogo em boites. A velha não dera toda ficha, dentro do quarto ele sonha ser ator e violonista. A cueca é quase feminina, tem mofo no banheiro, uma foto do ‘Belle & Sebastian’ e isqueiro: ele também é veado e fuma, Adelmo sente parceria. Mais tempo gasto de conversa que o dispendido em sexo: só amasso, Stallone oferece ser passivo ( tranquilo, é veado também) e pede se era possível um cordão fino de ouro no aniversário em setembro. Adelmo pega o gancho e enrola, promete que sempre no porto vai ser fixo e contratar serviços mais tempo jantar e dormir numa pousada na praia do Morcego. Quanto é o cordão? Esse é o preço de 2 noites; quinta-feira que vem compra e fico ainda mais tempo contando no teu peito de Marília, mostro apostilas do cursinho, tomamos um vinho com Lourdes na esquina e vou ser sua putinha. Adelmo morava na margem estreita da enseada, curtia turismo interno e assim que terminava um livro tinha fome indizível de ‘bas-fond’.

Pela porta estreita notava alguns móveis díspares de furto, um aparador com Menino Jesus fora de época e Stallone mijando frágil feito aménisico Guy Pearce.

A hora do angelus tinha ritmo de adágio e nada que evoca-se putaria: a superfície fria da Lua escondia paz de coração quente. O dia devia ser fraco e deixava tudo ficar. Lourdes voltava da edícula suspensa com um vaso e uma garrafa de conhaque fechada: reparava pelo lacre

gris. A dona desapercebia que eram homens, tinham feito sexo : há uma provocação na indiferença dizendo nada é importante além do pequeno jantar. Os pés de Adelmo nús, meias no parapeito, o chuveiro não dava choque além das gambiarras: sentia fé assim que Stallone também se masturbava, assim como quem não paga.

Tratava a velha dama como mãe, não escondia nada mais do que o script da primeira abordagem e suas axilas eram impecavelmente azuis. Absurdo não ser ele um companheiro: poderia ensinar um ofício, empregar em repartição, tinha pena do desgaste com coxos e assassinos. Era belíssimo de corpo num rosto apodrecido se visto no civil. Sem manchas: bombado e ele mesmo passava vaselina, Stallone duram pouco. Adelmo tinha flacidez da pederastia, óculos imaculados e carreira dupla: quando gozava pensava escrever imundícies e apostasias. Fechava o cinto, Lourdes soava o nariz na sacada, Adelmo anotou na agenda o celular: ligo antes prá combinar, trago o cordão e espera prá passar dois dias. A dona gosta de chocolate? lê revista antiga?

O senhor me traz romance espírita? Stallone era o Sr. Kurtz desse anonimato: um freio, tinha amarras em valores curtos, apropriações estendendo objetivos,

os olhos fechados quando chupa, dádivas rio acima.

Adelmo arriscava deixando endereço em último caso:

fui ao Bairro Chinês acertar uma querela: esse é fone do agente. Seguia em frente com trepadas em julho e testes em dezembro: seu rumo era Alexandria de livros e um só beco. Tinha manual-móbil de concordância: esse é o último programa, durante a Bienal eu arranjo compromisso decente. Se eu pago fica calado, mas durante depois eu quero alguém que converse, entenda.

Gostei do senhor, David disse que volta. O barulho da barca entrava pela cabeça, era rum com tônica; o fecho de conto tinha tudo a ver com mitos da Nova-Guiné, o sumiço de Paulo Roberto e gotas de sêmen na calça.

Ajusta a blusa, põe em pé os cabelos: desembarcadouro.

Tempos foram sempre sombrios, não é a crosta de apatia, é neblina que nunca dissipa; Adelmo sentia agora que persistir é saltar poças entre hiatos. Madrugada preparava enredos, vez ao ano carecia uns braços.

Quinta-feira quem sabe deixaria doces na caixa de correspondência. Lourdes podia crêr em amizades.

Matreiro riso de Burgess Meredith. Stallone sempre ganha, é curto e ele mesmo gosta. Adelmo só precisa.

Pândego e pederasta são usos tão velhos: ser preciso for um clássico.’’