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Mares trópicos
Flávio Viegas Amoreira (*)
Colaborador
“Ver é supremo bem. Eu insisto em
cismar
Se a alma será, talvez, uma função do olhar...”
Vicente de Carvalho
Oceano-Mar é metáfora-mítica da Criação. Ondas:
reverberação projetando sagrado instante. Bárbaros seguiam vales até
o Rio-sem-curso: ‘‘thalassa’’, o salgado, a passagem. Mar!
expressão gutural, uivo primal eivado de vogais aliterando. Mar símbolo
duplo: dissolução, saber, emocionalidade, culto arcano. 80% da
humanidade vive até 100 km dos Mares: diante evasão o Mar é Útero,
eco primórdio, incomensurável não-desmedido. Caos anterior às
cosmogonias e ulterior ao Tudo: retornalidades na rebentação delineando
recomeço sempinterno. Finitude é lapso-cansaço. Corpo-istmo entre algo
e qualquer, observante solitário doa-se ao irredutível Absurdo
significativo espreitando. Mirem desnudos Oceano: vem daí soberana
perspectiva, desse prisma as tramas cotidianas são espasmos ocos: a
‘‘urbe’’ persegue unificação dos sentidos no ‘‘Caosmo’’
de alentos respondendo fóton-essências. Mar que desvela, possui,
condiciona. Metafísica: discernível vão. Razão-real Poética: eleva
ínfimo ao universal, redunda o Uno: soar cargueiro na madrugada refluxo
das marés até ponto impressentido; a cristal morfologia das vagas
fazem-nos ‘‘surfistas do abstrato’’. Nenhum grande artista escapa
da dicotomia lunar/marinho: Terra moldada por matriz úmida que perpassa
em golfos, hidrografias, permeabilidades do abismo que se assenta.
‘‘Há anos campos de Ítaca, um porto, o ancião do mar. Dois promontórios
escarpados, avançando para a enseada, o protegem contra os vagalhões
suscitados pela violência dos ventos; à entrada do porto as embarcações
de sólidas bordagens podem manter-se sem amarras no ancoradouro.
‘‘Homero nos pressentia: efeito peixe-borboleta. Infindável calha
alheio aos detalhes, nós que particularizamos acidentes; a barra de
Santos é cais de homologias: Virgínia rumo ao farol, Lord Jim ao coração
das trevas. Armazéns, entrepostos, ravinas, pontilhões, mercancias, —
Santos é um atributo onde a civilização aproa para acercar-se de
Eterno: ante-continente, meia-ilha, terreno movediço, barco embriagado
ao léu de rizomas náuticos. O Mar não deita raízes, estabelece signos
reflexos. 1900, cartas de londres e Dublin; remetentes: Joseph Conrad e
James Joyce ao cônsul britânico, Roger Casement. Do passado mítico ao
futuro fabuloso, o Mar espelha silente desvario devolvendo rutilante imanência,
indivisível fluxo denso. Aqui num mântrico aconchego, caprichosa ondina
faz moradia: Mar repousa ao entendimento; o poeta não é praiano, é marítimo,
netuniana sinestesia epidérmica, dando ouvidos à maresia, mergulhos anímicos,
neodisséias. Trafegamos percepções ultrapassando dragões-rochedos:
galáxias são anti-lugares, estacamos coisas-pontos ao situar-nos na
esteira dum repuxo: só a Arte nos guia ancorando superfície-móvel,
palavra-sonda. Campos aquietam, Oceanos transtornam: fé dionisíaca que
não se assenta aquém do imaginado. Literatura é concha: ressoa longe.
Mediterrâneos, polinésios, vikings; opostos argonautas, sem folclore
rico ou mitopoéticas no Sul-Atlântico, nossos sacerdotes-xamânticos
foram modernos artífices telúricos, caiçaras eruditos louvando guarás,
urubus, parcéis, lajeados, ilhotas, alegres trópicos. Gestamos nossa
epopéia litorânea com dois avatares totalizantes: Vicente de Carvalho e
Gilberto Mendes. Sem cultura popular endógena, foi Alta Cultura que
imantou caráter cosmopolita e retraduziu as intermitências no lastro de
chegadas e partidas. Ao Mar voltaremos donde viemos: pedaços de empréstimo-luz.
Artistas criam modos/eras: estelantes. Cá, cult é pop.
(*) Flávio Viegas Amoreira é escritor.
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