Meiotom - Contos


 

AION O VALE SEM RUMO

flávio viegas amoreira

‘’ Nesse tempo me chamavam só Aion. Traduzia trovadores de Provença e entornava sopa sem respingos. Olhava o mundo e revirava livro a livro. Costumava prolongar o banho cinco horas da tarde. Mirava tudo , menos o teto: detestável parar os sentidos.

Uma noite pronta saí. O bar era uma esquina cheia de graça: transeuntes de copo em punho falam, riem ao menor sorriso, ouvem dançando sobre próprio corpo instrumentista sofrível. Antes de mais nada dá um gosto tremendo passar ligeiro na soleira de um botequim e notar como o circo está se monta. Noto com malícia que Deus cometera crime perfeito. Deixo aos homens a irreflexão ingênua sem o açoite da complexidade. Seguira pela praia a ilha escarpada,- o mirante sobranceiro permitia notar contornos diáfanos: nunca como daquela vez distinguira colossal disparidade entre a cidade engolfada em ravinas e o Oceano. Em segundos o Mar destroçava o bulício.

Nunca fui dado ao desespero, essa marca de geração. Me acometia o desamparo. Desespero é tão diferente de desamparo... O vácuo recortado entre cidade e imensidão me dominara em cheio. Como onda, podia dar cabo naquela ‘coisa’ em par de segundos. A encosta

dava em cheio dez metros profundos só num pulo sem brechas ou eco. Ponho olhar, refletir é muito. Quando assim desvalido sinto desejo de ficar : é sexo. Nada de dengo ou remorso. Sexo mecânico

com objeto adorável. Ele estava alí alguns minutos,- a ocasião chamava intimidade. Pedi, assentiu. Me sentara na rocha. Passado extâse, me pus refeito ao caminho. O grande rio salgado se estende sem vales. O bar ainda fervia e gargalhavam ainda mais alto. Todos alí breve fariam sexo por amor ou sacanagem. Os mais simples não prescindem motivação para serem naturais. Dei de passar no alfarrábio por notar ainda aberto. Apanhei volume para madrugada e revi Artêmis na esquina do porto: - Quer casar comigo?

Casar é ficar de mãos dadas . Vem ouvir o que juntos disser-mos , Artêmis? Dizia me amar faz tempo ... só esperava um arranjo casto de ficar-mos unidos. Volto ao penhasco quando sinto mais que só ficar pensando.’’

 

Santos, 03 de agosto de 2.003.