Meiotom - Contos


 

VERÃO AZUL

flávio viegas amoreira

[ contogramas ] – I

 

‘’ Poetrix. Ligação, aliança, - o fraseado cotidiano é eco

insentido da arguição primórdia. O tal ‘pois é’: locução

explícita, enunciação carregada na audível sensaboria.

‘Pois é’ porra nenhuma ! esse protesto é inconcebível, não

surte efeito, - ‘pois é’definitivamente, rotundo diáfano.

Poetrix : ruminei no léxico que percorre acúmulo. Veja então, Tom...’’

II-

‘’ Óculos azuis, as calças folgadas no ajuste com o vento,

a bruma arrefecia na imaginação , - o poema moldava-se

em escrito noturno. A casa torna o linguista heterodoxo:

des-gramático. Saltimbancos sensualíssimos os que entretem outros de gozo: ser lido é mão na glande alheia,

intimíssimo enquanto percebido, sentido no paroxismo:

com-pre-en-di-do!! é foda anímica a compreensão. Entrecoxas espiritualizado: sabe o aforisma ou epigrama

que tu querias teu intuído!? Orgasmo, interpretar-se na antecipação casual de um Outro-de-Ti. As perguntas são imprestáveis quando não antevêm aos anseios de suas

resposta aguardando querendo-se respostas.  Toda resposta definitiva é anseio, Tom! Num tropo cosmificado, - a Vida é perspectiva. Até agora lamento não ter seguido aquele saquinho de pipocas flutuando

no aéreo ontológico , massa fluída, senso melódico da passagem... aquele saquinho de ‘’Beleza Americana’’ que revimos e revimos com as mãos dadas entre o colo, ainda sabe ? lembra? Lembrar é saber tanto, Tom!

Mundifico sentimentos : anuncio o continente na faixa estreita que o Oceano lega depois tanto empenho sedimentado. Toda praia é meio pérola: conchinha geológica. Platão pregava distância do Mar para bom governo; talvez eu seja mesmo desregrado-contido,

sou tão vizinho da água em iodo de molho em ondas:

essa rebelião lírica , ondas... poemas supérstites :

sobrevive outrem sobrevivente : a garrafa estaca mensageira na ilhota , laje granulada na esteira do Atlântico ; Deus é Gulliver , um sarrista de fábulas.

O universo percebe-se como voltar ser criança aos quarenta anos, e em algum tempo teremos ampla vista

da quietude veemente.

-         Gosto , Jimmy, quando me fala de nebulosas olhando nos ohos. Dá-me um beijo : descansemos esse ‘intrigamento’. ‘’

 

III-

‘’ As cartas são mais perigosas que confissões : elas sempre burlam o ocaso ao se diluirem. Arrostam períodos inteiriços, testemunham esquecimentos, resmungam atendimento sobre aspectos divergentes.

Conferem validade ao percurso : seriam assim mapas de longo curso.[ Busco o semiótico-lírico: ‘seriam assim’ é melhor que ‘ eu acho’.] Em Vermeer entendo a metáfora que compõem a Eternidade: terna tocadora de viola no íntimo sorriso de um aposento escuro; cotidiana atenção,

monismo detalhista. Leitmotif, o jarro branco, a natureza da conversa, o alaúde, copo de vinho rubro. O Criador padece de motomania : em sete dias quantos jogos desestruturam-se por pensamentos, gestualidade, tarefas auto-explicáveis? Não temo a desnecessidade de Tudo: o ritual retine ronronante; a esfera numinosa, a lápide insinuada no retrovisor beira-estrada, - o mergulho num trecho definido do Mar. [ trecho convencionado da máre  mutante]. Teimo na obviedade : sabemos o sentido quando mal-percebemos. Perceber para ser conhecimento, Jimmy, deve ter duração num átimo:

tudo se duvida se não desdobra-se abstrato. Vermeer é o

máximo! a lida prosaica é o limite : seja num rastro transatlético que escoa nas margens africanas em milhões de braçadas correspondentes ou a fixação do fenômeno físico em seu movimento. O destino dá-se em paradas de revezamento. O café em goles sapientíssimos: o Tempo pousa, também Deus recolhe resíduos. O Dia é a mais verdadeira das medidas cronológicas, - quando amamos ele se exalta inteiriço, - um após outro : o Sol subjacente alumia alternativas e bricolagens: acaso é um nome feio para entendimento subreptício toldado pela pressa / oculto numa concha galática que dá ouvidos à sensação de marulho mais além de ouvido. Mundo numa concha rosasa: sustenido

Uni-inverso.

---Tom, o solo mental de Proust pode vicejar sempre que regado de outra maneira. Vejo Vermeer, e creio no sempre de sempre com a ‘madeleine’ em disco rígido.’’

IV-

‘’Até os trinta anos retive em cadernos a Arte sobrevista.

Cadernos, esboços, - de Maiakóvsky nunca me esqueço a dica:

‘reservas poéticas’, ofício de escrever, saber-se escritor mesmo usando máscaras rentáveis durante o dia. Lembro, Tom, quando passei última vez por essa rua de tijolinhos aparentes estava lendo

Eugenio Montale. Era uma época de silêncio em 1.978 e eu tinha

13 anos; tentava entender poesia, o céu anódino pedia algo sem dano, e sei lá! pelo Nobel de Literatura ou banzo europeu de um caiçara,- seguia lendo italianos já velhinhos. Gramsci, Croce, Moravia, - mas um atordoa até hoje e tornamos eu e ele à juventude

do mundo: Pasolini. Antes de Ter te conhecido , Tom, era com tipos assim que conversava: Pasolini, Fassbinder, e aos 15 anos tive um orgasmo literário: ‘’Os Frutos da Terra’’... essa obra me fez gozar meses ininterruptos! Quando se lê Gide ou Nietzsche sem aparato

formal têm-se a Vida clamando venha ! e se redobram esforços até encontra-te amante... a excitação do homem de espírito, Tom,

é como masturbar-se com alvo duplo.

 

-Tim , você é mestre em casmurrice quando entoa meia-sentença;

para um próximo assunto ou argumento vê se dribla esses dois limites: focalização e universalização. Você cria disparates entrançados à verossimilhanças : e o barato é que todo teu absurdo

pop-erudito torna-se Literatura! Como na última viagem à Ilha Bela

você aventando hipóteses de naus celtas e vestígios saxões no caminho até Boiçucanga... delirava um sonho hirto,- e conhecedor de História, sabia ‘viajando’ não por estulticie, somente por lirismo

transcendente. Esse romantismo que voa sobre eras e possibilidades

até que traquinice do acaso se prove possível e quem sabe verdadeiro. Te amo só sendo escritor : para não desviar atenção de que te amo sempre! Do jazz no carro ao último Manoel de Oliveira,

tragando charutos xamânicos nas areias de Bertioga, te amo assim

tudo escrevinhando, Tim.’’