Meiotom - Crônicas


 

 

flávio amoreira viegas

 

‘’ AIDS: ANTES DO AMANHECER.’’

 

‘’ A Síndrome teve gênese enigmática, entendimento conflituoso até o atual controle sem catastrofismos apocalípticos. O Mal impôs terror pânico antes da visão libertadora : a interpretação reacionária à Aids foi último suspiro do medievalismo morimbundo. Faz vinte anos o espanto obscurantista desse desespero mutante: um cardeal brasileiro falava em ‘punição aos pecadores’; médicos condenavam sutilmente antes de diagnosticar. A Ciência provou ser suscetível perigosamente às ‘estruturas’ linguísticas: falava-se em ‘grupo de risco’ até corrigir-se em ‘ comportamento de risco’. A Natureza não é distribuidora benevolente de privilégios. O Mal era hóspede da ignorância. A História confirmava-se cíclica em ‘diástole’ liberadora e ‘sístole’ puritana;

 movimento cardíaco avessas: depois da liberação , a restrição do desejo.

Adolescentes que não curtimos 68, restringimos ímpetos no pós- 1984.

O temor rondava, sofismava, nossos ídolos resistiam , Arte era trincheira.

Vocábulo mágico em qualquer idioma, o Desejo padecia todas culpas infundadas por uma patologia maior que a orgânica: o preconceito. O poeta Cazuza dizia ‘’ meu amor agora é risco de vida’’; Foucault sucumbiu como mártir de sua obra; Rock Hudson anunciava o declínio da hipocrisia: o desenrustimento coletivo. A Medicina começou a lidar com as sutilezas heterodoxas da Alma: o desregramento de todos sentidos não podia ser satanizado pela precariedade do conhecimento diante do mundo novo.

Catarse pós-desbunde, o lado sombrio do ‘Studio 54’. Temer era perder antes.

Minha geração recém entrada no redemoinho da existência aspirando os primeiros ares da Democracia , defrontava a interdição de afetos mais profundos: muita tarde alcançamos a ascese pela carnalidade, o Nirvana do corpo não mais infectante por gestos de ternura. Ainda hoje a religião neurotizante prega ‘abstinência’ como possível fosse privar-se da expressão fisiológica do encantamento.  A Medicina rende-se ao avanço das mentalidades: somos antes de tudo ‘desejantes’ intercalando Espírito aos chamados da epiderme. As Igrejas conhecem bem o resultado da repressão: o desviante assédio a objetos ilícitos de prazer, o abuso como escape do erotismo adulto impeditivo pelo dogma anti-natural. Quando ‘mal do prazer’, a Aids gerava segregação, condenação introjetada, o abjeto resultado da moralidade como padronização e não-convergência humanista das diferenças. Hoje, alastrada como pandemia africana ou das camadas desinformadas, a Síndrome soma o desserviço das interdições vaticanas à indiferença orçamentária dos não-mais atingidos. A homofobia transmutou-se em descaso socio-racial. Vendamos olhos ao que não mais nos atinge: a intolerância substituiu-se pela omissão diante das alteridades. A oferta de preservativo, a consciência sobre sexualidade e reprodução e o engajamento na pesquisa e tratamento são imperativos categóricos aos governos e corporações. Prevenção é um ato de inteligência: a Ciência quando imbuída de Ética deve calar a neo-medievalização do discurso das direitas descerebradas. Muitos tombaram ouvindo ladainhas mistificadoras em seu leito de morte: os heróis perdidos pelo advento desse vírus devastador de talentos e afeições foram nossos rapazes numa Normandia entre escombros de enfermarias, ressentimentos mal-disfarçados, calvário epidemiológico, despedidas sem testemunhas, o abandono feito uma profilaxia consentida, o sofrimento com gosto acre de advertência. Atravessamos a Mancha das prescrições desatinadas e das proscrições acovardadas. Nós que passamos fisicamente incólumes pela batalha devemos a busca da cura como redenção tardia em nome de tantos abatidos em combate. Depois do ocaso passageiro, o Desejo triunfará, ele sempre triunfa antes de sufocado. O amanhecer será o legado desses anjos jamais olvidados. Nureyev, Caio Fernando, Reinaldo Arenas. Vivemos para contar os anônimos caídos no caminho.’’