Meiotom - Crônicas


 

 

flávio amoreira viegas

‘’ IL CONDOTTIERE’’

‘’ Roland sonhara estar o Louvre em chamas. A malta turba irrompendoverde refletia-se na Pirâmide : por trás das câmeras um set de Bertolucci.

Magrebinos isolavam o Boulevard Saint Germain , - Deux Magots nãotinha mais o que dizer. Queria reproduzir numa caderneta o indizível:

o Louvre em chamas! Retorquia alvoroço, solecismos, citações, evocações;um conto pede acústica, sonoridade do tema, talento pensante, irrisão, supressão subjacente ao enunciado : as pernas rapaces que ainda montemas travessuras de menino; no banal ou prosaico: encontrar só procurar.

Escrever é mesmo composto do tesão; conteúdo da natureza mesmo serenae tranquila do poeta. A poesia do conteúdo: procurava artigos nesse emaranhado adverbial. A mulher dos sacos embrulhos: sorria vê estarsendo filmada : performer natural. A vida como queixa: tchekoviano hábito de alinhavar frases curtas, minutar. Contéudo com recheio para o mundo / feito em todos recantos/ descampado do longo à respirar / contéudo gordo como bochechas de Rembrandt / velhos sulcos contando para fora da forma explicar.

Contéudo máximo ainda vácuo para esperar; figurativo anseio, dilema do hieróglifo ao linear fragmento; escandir, decompor um verso em seus elementos métricos; o verso não se manifesta, subentende corporalmente.Surreal que insurge : não há consciência que diga estar certa cem por cento.

Todos eram gordos / massa / adiposos / pouco ou menos que paxás / eram gordos / abolidos / ossos na mesmice obesa das dobras/ surpeficial em forma.

‘(des-) atenuado / eram todos gordos de ódio aspergindo arabescos no Quai D’Orsay’ . A beleza era mais sutil: tinha que ser desvendada no rosto liso do irmão caçula de Brad Pitt. Joelho encontrara seu lugar no estúdio, meu joelho assentara / na forma da cadeira / aparando. Quando o jovem Mozart chegou a Paris, deu-se conta, - conforme escreveu ao pai- de que toda as sinfonias em voga, ali , terminavam com um rápido ‘finale’; assim , decidiu surpreender sua platéia com um lenta introdução no último movimento. Um tomo de Gombrich abria-se no canto plástico do meu cérebro. Girovago, alteio-me ao lustro dos séculos; as violetas deixam o aroma quando fenecem; a literatura como militância, uso um hábito de escritor invisível aos olhos expectantes.creio ser a questão Tempo o centro: medo, tensão, densidade são contexturasdum transe cronometrado. Sabe que ilumina pensar o Tempo?! no pesadeloSaint-Exupéry sobrevoa o Sena, vai em socorro da Arte. meu desassossego é pessoano: judeu não-retirante, sedentário com o Mar da despedida. Pessoano, algarvio, madeirense, feito pano que se agita ao Adeus de idas-vindas.Meu desassossego ,ora... ele é devera engraçado. Espreitava Paris no veleiro do Horla cortando o quarto mobiliado de Xavier de Maistre. Guy de Monpasseio. A História de jumento montada num trocadilho infame. deambulo, arrefeço, precisamente é necessário salvar o Louvre. Sobressalto intelectual, quando descansa o ficcionista a realidade se faz. Eram dias o tumulto: a Comuna teológica. queria dizer fome! Não me compreendiam a sensação, inútil dize-la , fazia-me sentir, esmelinguia de penúria, esfalfava nessa nórdica fortuna o que pensariam ser Fome?! penei quilômetros de cama, galguei montanhas de vilarejos brinquedotécnicos, vacas mugiam em islandês, e eu era impercebido famélico estado geral. Entrara no sonho semiótico de Roland: as notas , não sabia do valor de face nominal, imaginei o porão seguro à Quirquizia / Abkhazia . exatidão, especulação, nítido, amplo! Me purifico ao ver sexo queima-roupa, sem artifícios; cacete como é duro! caracteres, aparências diretas, exatidão minuciosa do caralho! um porão de roupa estendida; teorias abtrusas, gongórica, cultista concepção de neo-coisas.

Moramos juntos na Literatura: Roland, eu e o quadro tirado das chamas.‘’Retrato de homem’’, um perfil de Antonello da Messina. Desfiamos paralelismos, porfia: conceptismos tropológico, sermonário, parenéticos historiando similes imagética. A beleza em épuros !mentação, ideação;Roland tinha o rosto de ‘Il Condottiere’ quando virou-se e disse:desperta! toda escritura será sinal dum contido excesso; excede contidamente.O Louvre está salvo, o texto resvala, beleza é uma tela de 1475, em madeira36x 30 cm. Escrever será assim salvar um Louvre cada dia.’’

flavioamoreira@uol.com.br